08 maio 2016

Na Casa de Bazinha (Nove anos atrás)







Foi muito feliz o filósofo Nietzsche, quando concebeu a ideia de que “a vida é um eterno retorno”, pois o tempo gira, gira, gira e está sempre a nos levar ao ponto de partida.

Aos sessenta anos de idade, ainda exercendo a função de médico, me vejo descansando no mesmo lugar que me serviu de pousada no inicio de minha carreira. O quarto em que residi por um bom período, tem as paredes muito altas, de reboco irregular, com cobertura de telhas antigas feitas à mão, sustentadas por “caibos” e linhas de madeira de lei. Nas noites quentes de verão, ele ficava infestado de muriçocas, atrapalhando o meu sono. Foi neste cubículo que curti as ressacas de minhas farras, de minhas aventuras, festas e namoricos no fogoso tempo dos meus vinte e seis anos.

Hoje, toda quinta-feira, após o tradicional almoço de galinha caipira, feijão mulatinho, arroz e macarrão, com sobremesa de salada de frutas, eu me recolho a este mesmo “quarto”. Ao meio-dia, lá estou eu estirado em uma rede velhinha, já um pouco puída, porém bem cheirosa, separada especialmente para mim. Ali dou o meu cochilo de uma hora e meia, para depois iniciar o batente do segundo expediente no mesmo Hospital que iniciei minhas atividades profissionais há trinta e cinco anos.

Tudo agora é vazio neste quarto. Vazia está uma estante velha de três prateleiras, instalada no mesmo canto de sempre. Era nela que guardava os meus livros de medicina. Essa estante serve hoje de suporte a um jarro grande, também vazio, na cor escarlate.

As duas velhinhas Bia e Bazinha, cabisbaixas, uma em cada canto guardando um vazio de palavras talvez pensadas, mas não ditas. De tanto tempo juntas, quem sabe, enfastiaram-se do diálogo. Na ausência de palavras só o entrecruzar dos olhares, fala por si mesmo. Sendo os olhos a janela da alma, para que conversar? Se as janelas destas duas almas gêmeas estão tão escancaradas, que as fazem se enxergar mutuamente por dentro, sem a necessidade da palavra, é porque uma é o espelho da outra. É como se estivessem a dizer entre si: “Se eu sei o que tu queres, e tu sabes o que eu desejo ─ para que falar”?


Apesar de vazio, o silêncio do meu quarto é quebrado de uma maneira quase constante, pelo barulho que vem dos carros passando na rua em frente de casa. Há 35 anos, o barulho que eu ouvia não vinha dos automóveis. Eles eram raros. A rua era mais do povo, e o que eu escutava eram restos de conversas das pessoas que passavam na calçada, junto ao velho janelão do quarto, que dava para a rua. O janelão continua o mesmo. As camadas de tinta a óleo, que a minha mãe manda dar todos os anos em sua superfície, evitaram que a madeira apodrecesse. Do lado de dentro de casa, os barulhos que ouço vem do tilintar dos pratos e talheres sendo lavados na pia da cozinha, pela velha Bazinha (apelido carinhoso de minha mãe), já meio capenga e ruim da vista. O outro barulho vem da tosse insistente de Bia (mãe de criação), portadora de uma doença cardíaco-pulmonar que a castiga há anos.

Era nesse mesmo quarto, que no inicio de minhas atividades de médico, minha mãe gostava de trazer as suas amigas mais chegadas, para se consultarem comigo. Eu ficava contrariado, pois achava que ao meio-dia, não eram horas de se ouvir lamúrias dos doentes. Além do mais, eles estavam me tirando do meu sagrado descanso na velha “rede do meio-dia”.

Hoje, a minha velha mãe, já sem amigas, pois quase todas já se foram, é a única a se consultar. E eu, meio acordado, meio dormindo, vou ouvindo os seus sintomas, que já se tornaram uma ladainha. De olhos semicerrados, vou ouvindo ela falar:

Ó Levi, eu quero que tu dê uma olhada aqui nas minhas pernas e nos meus pés.

E apontando para os lugares doloridos das pernas ela vai dizendo:

Dói aqui, olha! Aqui... Aqui...Bem aqui…

Olhando de soslaio, sem me mexer da rede vou respondendo como sempre:

Isso é reumatismo, mamãe. A Sra. não pode tomar remédios para este tipo de doença, por causa de sua gastrite. O jeito é ir levando a vida assim mesmo.

E é assim, bem junto a minha rede, após o almoço, que ela vai desfiando suas demais queixas, como se eu tivesse a varinha mágica e o poder de fazer desaparecer todas as suas dores.

Olha Levi, eu não posso caminhar nem para feira, nem para a igreja, pois fico muito cansada ─ continua falando minha mãe.

Essa sua última queixa eu valorizei, porque ela sofre de cardiopatia crônica, e não pode fazer muito esforço. Imediatamente, abaixando um lado da rede, levanto a minha cabeça e o pescoço duro afetado pela artrose, falo sério para ela:

A Sra. só pode ir à igreja ou à feira, de carro, mamãe! Numa caminhada dessas, a pé, o seu coração pode pifar. Tenha cuidado! Vou falar com Davi (meu irmão) para ele providenciar um automóvel para lhe levar a esses lugares.

Depois de consultar-se, ela se retira, e eu continuo o meu cochilo na rede do meio-dia.

De repente, mas de repente mesmo, sinto a rede balançar. Abrindo os olhos lentamente, vejo a sua mão puxando o punho da rede. É quando ouço a velha “gravação”:

Já são duas horas da tarde. Tá na hora de tu levantar. Levanta! Senão vai chegar atrasado. Tem doce de goiaba, café com biscoito e “delicia” lá na mesa.

Ela continua com aquele mesmo cuidado de muitos anos atrás, de não me deixar atrasar para o expediente da tarde. No horário exato diz: “levanta”! E eu, preguiçosamente saio em câmera lenta da minha tão confortável rede, para o mesmo e gostoso lanche que ela sempre me preparou por todo esse tempo.

Toda quinta-feira, na minha "rede do meio-dia", participo desse rito médico-sentimental. Até quando? Só Deus sabe.


Crônica por: Levi B. Santos
Guarabira, 28 de Fevereiro de 2007



06 maio 2016

A República de Volta ao Éden



Numa época de grave crise moral, política, ética e econômica em que sentimentos, os mais diversos, inflamam corações, não custa nada recorrermos a um pouco de humor para amenizar a febre que, de forma pendular, nos faz passear para lá e pra cá revisitando os polos de nossa natureza contraditória ou paradoxal, sem se fixar em nenhum deles.

Em um momento grave como este que estamos passando, nada melhor que fazer uma releitura da velha história de “Adão e Eva”, referência religiosa e mítica de nossos afetos ambivalentes. Os polos antagônicos representativos das dualidades amizade e traição, amor e ódio, vingança(ressentimento) e misericórdia, “verdade” e mentira, tais quais ondas em um mar agitado se batem sem dó nem piedade contra perigosos rochedos litorâneos.

O Colunista e escritor, Ruy Castro, na Folha de São Paulo de hoje (dia 06)nos brinda com um artigo que vem bem a calhar com os hilários e últimos acontecimentos de Nossa Republiqueta. O autor em “A História da Maçã” evoca os arquétipos antagônicos internalizados nos personagens Adão e Eva, que de forma risível mas também simbólica, estão imortalizados nas letras das marchinhas dos antigos carnavais.


A História da Maçã [Por Ruy Castro]


"Eva querida/ Quero ser o teu Adão/ Dar-te-ei o meu amor e a minha vida/ Em troca do teu coração// Hei de conquistar/ O teu amor se Deus quiser/ Custe o que custar/ Haja o que houver/ Serei capaz de qualquer prejuízo/ Mas te darei o Paraíso"– "Eva Querida", de Benedito Lacerda e Luiz Vassalo, com Mario Reis, Carnaval de 1935.

"Adão/ Meu querido Adão/ Todo mundo sabe/ Que perdeste o juízo/ Por causa da serpente tentadora/ O nosso Mestre/ Te expulsou do Paraíso// Mas, em compensação/ No teu pobre coração/ Que era muito pobre/ Pobre, pobre de amor/ Cresceu e se eternizou/ Meu Adão/ O teu pecado encantador"– "Querido Adão", de Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago, com Carmen Miranda, Carnaval de 1936.

"Papai Adão/ Papai Adão/ Papai Adão já foi o tal / Hoje é Eva / Quem manobra/ E a culpada foi a cobra// Uma folha de parreira/ Uma Eva sem juízo/ Uma cobra traiçoeira/ Lá se foi o Paraíso!" – "Papai Adão", de Armando Cavalcanti e Klecius Caldas, com Blecaute, Carnaval de 1951.

"Eva, me leva/ Pro Paraíso agora/ Se estou com muita roupa/ Eu jogo a roupa fora// Você vive bem/ Em pleno verão/ Você vai ao baile/ Até de calção/ Queria também/ Usar pouca roupa/ Mas é que a polícia/ Daqui não dá sopa" – "Eva", de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, com Marlene, Carnaval de 1952.

"A história da maçã/ É pura fantasia/ Maçã igual àquela o papai também comia/ Eu li no almanaque que um dia, de manhã/ Adão tava com fome e comeu a tal maçã/ Comeu com casca e tudo/ Não deixando nem semente/ Depois botou a culpa/ Na pobre da serpente" – "História da Maçã", idem Haroldo e Milton, com Jorge Veiga, Carnaval de 1954.

São teses que reuni para um eventual debate sobre Darwin com o bispo Marcos Pereira, provável ministro da Ciência e Tecnologia do governo Temer.  [Ruy Castro]


20 abril 2016

A Nossa "Inevitável Imparcialidade"






Ao ser acusada recentemente pelo bloco governista de que não tinha isenção para ser relatora do processo de impeachment da presidente da república no Senado, a senadora Ana Amélia, do PP (bancada que fechou questão em favor da saída da presidente), prontamente respondeu: “Todos tem lado no Congresso.” (Vide Link)

A descoberta da instância psíquica que Freud denominou inconsciente golpeou profundamente o conceito de que a vontade é autônoma. O que ele queria dizer com isso? O pai da psicanálise foi um dos primeiros a reconhecer nas abordagens analíticas aparentemente “imparciais” de seus clientes, a presença ocasional de alguns derivativos inconscientes que irrompiam através do seu profissionalismo, no que ficou conhecido em psicanálise como “Contratransferência”. É através da contratransferência que deixamos escapar verdades inconvenientes que, defensivamente, nós não queríamos que viessem à tona.

Daniel Kessler de Oliveira, em seu artigo “Razão e Emoção no Ato de Julgar” diz algo para se refletir, principalmente, em meio a um julgamento jurídico-político como esse do impeachment da presidente: “Durante muito tempo se tentou racionalizar as decisões judiciais, obviamente que devemos estar cientes de que atrás deste ato jurídico, existe uma gama de aspectos subjetivos inerentes a pessoa do julgador, que não podem ser ignorados, até mesmo pelos graves efeitos concretos que projetam na vida das pessoas. Durante muito tempo se tentou racionalizar as decisões através do velho paradoxo: 'Razão X Emoção', como estas se encontrassem em polos contrapostos e fosse necessária a eleição entre um e outro.

Para embasar mais seu trabalho, Daniel Kessler, acrescenta um trecho emblemático da lavra de Eugênio Fachini Neto sobre a “Função Jurisdicional e a Subjetividade: “Pois o juiz é um ser humano e mesmo não querendo, mesmo que não tenha plena consciência disto, ele não consegue afastar uma enorme carga de subjetividade na sua função de julgar”. Sobre essa mesma questão, o mitólogo americano Joseph Campbell, numa forma agradavelmente junguiana, fez essa afirmação: “No reino humano, abaixo do solo do comparativamente ordeiro e pequeno recanto que chamamos consciência, encontram-se insuspeitas cavernas de Aladim. Mas não são apenas joias que lá se encontram, há gênios perigosos também: os poderes psicológicos inconvenientes ou recalcados que não pensamos ou ousamos integrar às nossas vidas”.

Para driblar a imparcialidade inevitável de todos os possíveis relatores, o importante é fazer um relatório equilibrado” disse a senadora Ana Amélia na sua recente fala. Do ponto de vista psicanalítico faria mais sentido trocar aqui a expressão "imparcialidade inevitável" por "imparcialidade (des)humana".

A escolha da relatoria no caso da senadora, obedeceu a um critério consciente e lógico: das duas maiores bancadas parlamentares é que sairia o relator do processo de impeachment. Mas qual o manejo que o julgador fará para fugir da tal contratransferência, sabendo que pela leitura psicanalítica, a consciência é apenas a ponta de um iceberg cuja maior porção ou força maior está submergida nas profundezas obscuras da psique? Não devemos deixar de ressaltar que em momentos de tensão ou de grave crise, poderosas influências vindas desse sótão psíquico esquecido afluem para turvar o terreno já escorregadio da consciência, como estivessem a desmentir a nossa lógica comum ou utópica de que somos seres imparciais.

Como em Psicanálise se busca sempre “o não dito” oculto na fala do sujeito ou nas entrelinhas do que ele falou, pergunta-se: Será que a expressão “driblar a nossa inevitável imparcialidade” (especialmente o termo driblar”) entendida de forma metafórica ou psicológica, não teria o significado de uma jogada de efeito ou uma finta para aplausos de uma exigente torcida?


Por Levi B. Santos
Guarabira, 20 de abril de 2016 

Site da Imagem: canaldootario.com.br 

10 abril 2016

É Tempo de Rever Justo Veríssimo


Site da Imagem: coisasdecajazeiras.com.br


Nunca antes na história de nosso país” um humorista retratou tão bem o nosso risível cotidiano quanto Chico Anysio(no dia 12 de abril de 2016, completaria 85 anos). Para caricaturar os diversos tipos do “homem cordial brasileiro” dentro da sociedade, o rei dos humoristas criou mais de duzentos personagens.

Para quem não lembra, foi nos anos de chumbo da ditadura militar que, Chico, com ousadia incomum, criou o personagem Justo Veríssimo. Segundo David Rêgo, antropólogo e cientista político da UFRN, esse personagem foi inspirado a partir de uma conversa que Chico teve com Alceu Valença. O cantor e compositor pernambucano revelou ao humorista que em seu Estado havia um político que tinha horror a povo. O certo é que o “Eu quero é que o pobre se exploda!”, dito pelo deputado caricaturado, de forma ríspida, no final de suas aparições na TV, ficou conhecido nacionalmente como um dos mais risíveis e incisivos motes inventados pelo insuperável comediante. “Ao criar o personagem, Chico não tinha como intenção profetizar a respeito daquilo que aconteceria no Brasil” concluiu o cientista político da UFRN, em um artigo publicado em 13 de abril de 2015 no site cartapot!guar, sob o título Chico Anysio, Justo Veríssimo e a Caricatura da Política Nacional”.

No vídeo “Justo Veríssimo e a Corruptocracia” colhido no Youtube e replicado abaixo, o maior humorista de Nossa História, faz uma sátira irretocável desse tipo de parlamentar, quando ainda não se sonhava com mensalão, petrolão nem Operação Lava Jato. A sátira política na pele do corruptocrata Justo Veríssimo, na verdade, ratifica o que disse a filósofa política alemã de origem judaica, Hannah Arendt, no seu antológico livro, A Condição Humana: O desaparecimento do senso comum nos dias atuais é o sinal mais seguro da crise atual. Em toda crise é destruída uma parte do mundo, alguma coisa comum a todos nós.”

O rei, sábio e poeta bíblico, Salomão, evidenciando que tudo na vida é cíclico, como quem caminha num círculo e está sempre pisando por mares antes navegado, já dizia: “Nada há de novo debaixo do Sol”.

No vídeo postado, são imperdíveis as falas (aliás de fundo psicanalítico) de dois alunos do mestre em Corruptocracia, quando fazem uma revelação que Freud vivo fosse assinaria embaixo, sobre o “jeitinho bem brasileiro de levar vantagem em tudo”(A famosa Lei do Gerson). Sobre a nossa perversa tendência hereditária-cultural de querer levar vantagem em tudo e ser condescendente com atos antiéticos, a psicanalista Inez Lemos, em um artigo ao site “em.com.br/Política”, fez essa contundente observação:

Faltou-nos o significante paterno aquele que opera como referência simbólica na estrutura do sujeito”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 10 de abril de 2016


28 março 2016

Contradições da Sociedade “Porco-Espinho”





Arthur Schopenhauer, o filósofo do pessimismo, com a “Parábola do Porco Espinho” realizou um primeiro esboço de leitura psicanalítica dos afetos paradoxais que caraterizam o humano, antecedendo dessa forma o conceito de ambivalência que, mais tarde, seria objeto de longas, cansativas e profundas análises de Sigmund Freud.

Os porcos espinhos quando enfrentam baixas temperaturas não se encostam a fim de se aquecerem, mantêm uma certa distância entre eles para não se ferirem mutuamente com seus próprios espinhos. Os instintos os levam a se manterem separados um dos outros, desviando-se do contato corpo a corpo, extremamente doloroso para eles. Aqui há uma analogia a ser explorada: os porcos-espinhos nos primeiros momentos de suas vidas, assim como acontece com o ser humano em seu primeiro desabrochar, se aconchegam numa intimidade maior, uma vez que os espinhos, por serem pequenos e imaturos, não provocam mal estar. Com o tempo, os porcos espinhos, para evitar o sofrimento, abdicam de viver colados uns aos outros.

Os espinhos, pelo lado psicológico, tem relação com tudo o que foi recalcado durante os primeiros anos da vida humana. Cedemos então uma parte do princípio do prazer, o outrora aconchegante ninho materno, para aceitar a realidade existencial. Nos primórdios vivíamos passivamente ligados a uma central que nos nutria e também nos protegia, sem que fizéssemos nenhum esforço. Após a ruptura dessa alienação prazerosa, apesar de vestidos, passamos a nos ver como o mais nu dos animais.

Zigmunt Bauman parece corroborar o pensamento schopenhauereano, principalmente agora, quando o tempo tem se tornado curtíssimo para se dar conta das inúmeras solicitações e apelos provenientes da cultura da pressa que na pós-modernidade nos bombardeia de maneira ininterrupta. Diz ele: Os relacionamentos são como a vitamina C: em altas doses provocam náuseas e podem prejudicar a saúde”.

Hoje o relacionamento interpessoal ou cara a cara está sendo substituído pelo termo conexão, ou andar conectado. Para o mercado tecnológico e cibernético atual, não é mais necessário que seres humanos se aproximem demais. Na sociedade de consumo “porco-espinho”, para evitar o perigo e a dor de enfrentar cara a cara a conversa mole do vendedor, o conectado compra seus produtos na solidão de seu quarto, tendo apenas seu smartphone em uma das mãos. Em vez de ficar numa loja aturando um chato vendedor a sua frente, perturbando como um carrapato colado a seu redor, o conectado da pós-modernidade, agora, pode rir secretamente diante de uma telinha sem ninguém por perto. Em questão de segundos, após dar três ou quatro cliques no pequenino teclado de seu aparelho, experimenta seu êxtase particular ao ver aparecer no visor a gloriosa sentença: “Sua compra foi realizada com sucesso”.

Conheço pessoas que, para evitar o alvoroço e a dor de cabeça de ter que enfrentar trânsito congestionado e assédio de pedintes e trombadinhas, já não comparecem tanto aos cultos de adoração em suas igrejas, preferindo alegrarem-se ou emocionarem-se de forma solitária assistindo todo o ritual sagrado via “on line”. Já ouvi pelos meios de comunicação até relatos de casos de curas e batismos virtuais. Com o progresso avassalador da tecnologia cibernética, o fiel-igrejeiro não vai mais gastar tanto tempo na escolha de qual roupa deve vestir, qual o calçado que deve usar para combinar com a blusa, qual a tintura de cabelo e outros produtos de maquiagem que se devem usar sem medo de que se derretam com o intenso calor comum nessa época do ano. Agora, com o avanço da internet Deus é quem vai a você, aí mesmo em seu aposento. Afinal de contas não são os olhos do Senhor, mas a sua mensagem que vai até onde você se encontra: não importa que esteja de cuécas, de bermudas, camisolas ou mesmo no seu próprio banheiro, o que não pode é se desgrudar de seu smartphone. Se houver falha no “Wi Fi” de sua residência, pode com facilidade acessar o sinal do vizinho e ser socorrido em segundos. Veja como é “maravilhosa” a liberdade que o conectado desfruta sem ter que se envolver em longos preparos que só fazem subir a pressão arterial, além dos riscos de indigestão que uma refeição feita a toque de caixa pode provocar.

Na sociedade “Porco-Espinho”, o espaço virtual vem sendo uma grande alternativa para evitar, até certo ponto, o mal estar da relação pessoal face a face. Mas esse refúgio virtual, como tudo que se faz ou alcança para fugir do “Princípio da Realidade”, tem seus efeitos colaterais. Esse novo modelo de sociedade corre perigo na medida em que vai fazendo das pessoas, fortalezas sitiadas, e como tais, poderão ser tomadas como elementos estranhos por aqueles que optaram pela vivência cotidiana dura e cruel do relacionamento ao vivo.

Do lado de fora dos muros das fortalezas virtuais da sociedade dos porcos-espinhos estão os que lutam para solidificar os frágeis laços sociais com seu grito de que “seremos mais ricos se todos puderem ser incluídos e ninguém ficar de fora”. No entanto, os céticos, que veem o homem como animal ambivalente (que deseja a companhia do outro, e ao mesmo tempo teme seus espinhos), percebem a luta pela solidez desses laços como algo utópico.

Em uma das cartas sobre o individualismo e a severa crise no relacionamento interpessoal que por ora passamos, tempo em que tudo o que é sólido anda se desmanchando ou se liquidificando, Bauman faz um importante alerta:

Nesse nosso mundo sempre desconhecido, imprevisível, que constantemente nos surpreende, a perspectiva de ficar sozinho pode ser tenebrosa”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 28 de março de 2016


Site da Imagem: picarelliassociados.com


21 março 2016

Soberano é o Mercado






Muito se ouve falar, principalmente em meio a graves crises, que é o Mercado quem manda e não o Estado. Se nos aprofundarmos pela ótica da psicologia veremos que esse conceito de soberania do Estado (representado pelos poderes executivo, legislativo e judiciário), cai por terra. Somos seres ambivalentes, e como tais, sujeitos a flutuações do ambiente líquido no qual vivemos. Sigmund Freud foi um dos primeiros a observar como a energia instintiva do indivíduo pode se tornar destrutiva quando descarregada em condições de pressão intensa do Superego.

A pretexto de evidenciar o poder do Mercado: 

Na vigência da segunda guerra mundial, tempo em que a indústria experimentava sua grande ascensão com o recrutamento de levas de gente para a fabricação de armas e transportes, quem obteve estratosféricos lucros foram judeus da nobre família Rothschild, financiadores do mercado de então. Eles, de certa forma, passaram incólumes pelo mar de devastação que a última grande guerra provocou. Interessante é que financiavam tanto o exército de Hitler como os de seus adversários. Muito antes, na década de 1820, os ricos judeus Rothschild, com seu grandioso palácio situado à rua Laffite em Paris todo em ouro e mármore, influenciavam os governantes, visando obter sempre maiores ganhos. (Vide link: levibronze.blogspot.com.br/2013/01/os-judeus-na-sociedade-1-parte ).

Na sua obra Vida para Consumo (página 87) Zygmunt Bauman, em uma profunda e lúcida análise, chega a seguinte conclusão: “o poder de agir, agora flutua na direção dos mercados, e a política, que, embora continue a ser domínio do Estado, é cada vez mais despida de sua liberdade de manobra e de seu poder de estabelecer as regras e apitar o jogo. O Estado como um todo, incluindo seus braços jurídicos e legislativo, torna-se um executor da soberania do mercado.” Em outras palavras ele quer dizer que forte mesmo é o mercado.

Hoje, costuma-se dizer que as bolsas de valores refletem a solidez do país. Trocando em miúdos, é o senhor-mercado que sinaliza qual o rumo que o país deve tomar para sair de uma crise político-econômica. Não podemos é subestimar a pressão que os mercados exercem sobre os poderes de um país em crise.

A manchete “O Índice Bovespa Sobe com Notícia Sobre Delação de Delcídio”, estampada na maioria dos  nossos jornais, é uma prova de que o Mercado é soberano e sinalizador dos rumos que uma nação, para sobreviver num mundo globalizado, deve tomar.

Quando um ministro na Inglaterra, sobre o problema da imigração, declarou que o objetivo de seu país era o de só aceitar pessoas de que o país precisa e excluir àquelas de que não necessita, sinalizou positivamente para o mercado, dando-lhe o aval de saber quais as necessidades de consumo daquele grupo, para com isso, alavancar seu domínio sobre eles.

O mercado tem como que uma ojeriza a exposição das vísceras ou entranhas dos constituintes dos poderes da república. O que ele quer é uma solução rápida ou tudo vai por água abaixo.

No momento, o que mais o Senhor Mercado aguarda é a decisão do STF sobre o imbróglio entre os três poderes de uma república em frangalhos. O poder Judiciário que, nos últimos e frenéticos dias, foi tanto objeto de elogios como de ferozes críticas, está com a batata quente nas mãos. Como leigo, penso, que só um pacto poderia agradar a gregos e troianos.

Difícil mesmo é adivinhar como se fará tal pacto diante da expressão, “Dura Lex, Sed Lex”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 20 de março de 2016


Site da Imagem: resumoscolar.com.br/geografia/cultura

07 março 2016

E Por Falar em Jararaca...




Se quiseram matar a jararaca, não acertaram na cabeça, acertaram no rabo e a jararaca está viva”. Esta foi a frase “sapecada” por Lula, em sua recente via crucis política, após ser levado coercitivamente para depor na Polícia Federal.
Antes de tudo, é preciso reconhecer que o ex-presidente é um exímio elaborador de frases de efeito, quase sempre revestidas de significações altamente reveladoras dos afetos mais profundos que engendram a alma humana.

Acho que está bem fresquinha na mente dos que apreciam a literatura brasileira, o personagem Macunaíma, 'herói às avessas' criado por Mário de Andrade. No romance, quando Piaimã o gigante comedor de gente , ameaçou trazer a jararaca Elite para o agarrar, Macunaíma, gelado de medo gritou: “Com a jararaca ninguém não pode não!”

Para sabermos mais sobre a metáfora “jararaca”, primeiramente vamos ver o que diz o site Infoescola sobre esse repulsivo réptil:

O habitat natural da jararaca é o Brasil, podendo (olhem aí!) ser encontrada na Venezuela. Alimenta-se especialmente de roedores (ratos). A cor dessa cobra proporciona a ela uma excelente camuflagem. É proveniente de zona agrícola, mas pode ser encontrada em zonas urbanas”.

Bom mesmo é divagar sobre a serpente no campo das metáforas, pois só assim é que podemos apreender muita coisa sobre a natureza humana e suas idiossincrasias. Senão vejamos:

A serpente no livro bíblico do Gêneses tem uma conotação má: Javé, o Deus judaico-cristão amaldiçoou-a a perder as pernas e andar se rastejando como castigo por ter seduzido Eva (mulher de Adão).

John Milton, em Paraíso Perdido (considerado por muitos, o segundo maior clássico da literatura mundial) narra, de forma poética, a queda do antigo “Anjo de Luz” que, revoltado por ter sido expulso dos céus, propôs em seu coração corromper a criação humana, pondo em xeque os propósitos da autoridade divina que estava acima de toda criação. Entretanto, pela psicologia junguiana, a serpente simboliza um interessante arquétipo estruturante de nossa psique, apesar de no imaginário popular sonhar com serpente ser prenúncio de confusão e hecatombe.

Ma mitologia do antigo Egito, a gigante cobra “Apófis” na escuridão da noite emergia das águas profundas do Nilo para atacar o “Deus Sol”, ameaçando o equilíbrio do cosmos. Com certeza, foi com a prévia autorização do faraó Seti I (1300 a C), que cunharam a imagem dessa poderosa serpente em relevo na tampa do seu próprio mausoléu.

Por falar em faraó, não poderíamos deixar de fora a história de “cobra engolindo cobra” narrada no livro bíblico de Êxodo: “A vara de Moisés e Arão jogada diante dos faraós e seus conselheiros transformou-se em serpente. O faraó, querendo demostrar que tinha maior poder, mandou chamar seus sábios, feiticeiros e magos do Egito e, por meio de sua ciência oculta, fez um milagre mais espetaculoso: cada um deles jogou ao chão sua vara, e estas se transformaram em serpentes. Mas no final foi a vara de Arão que prevaleceu ao engolir as varas da equipe do faraó”. (Vide Link). É bom lembrar aqui, que para se compreender a crise que o Brasil mítico e político ora atravessa, é necessário traduzir os elementos representativos cobra, vara, faraó, e os personagens Moisés e Arão como metáforas. Para que se obtenha um novo campo de significações, temos que ir além do contexto convencional dos termos em negrito.

E não é que na simbologia de Jung, a serpente do mito da Criação (Gêneses) pode ter uma conotação positiva: a de representar a criatividade psíquica profunda, tanto é que foi descrita como o mais sagaz de todos os animais. No entanto, o renomado analista autor de “Saudades do Paraíso”, Mario Jacoby, discorrendo sobre a criatividade simbolizada pelo réptil, diz algo que, por ora, tem muito a ver com o que tanto nos aflige ou atormenta: “A função estruturante da vergonha, tão criativa para construir a separação do público e o privado foi também contaminada defensivamente junto com a criatividade.”

Carlos Amadeus Botelho Byington, em “Inveja Criativa” faz uma defesa da serpente. Diz ele: “a inveja, como principal afeto arquetípico da serpente, não é primordialmente ruim. […] a serpente é a culpada, a inveja é destrutiva, e o castigo justo e merecido, se considerado pela forma literal da lei de Javé, típica legislação em causa própria para manter o poder. Dentro da perspectiva patriarcal a coerência é aparentemente perfeita mas, dentro da perspectiva da alteridade, que julga baseada no contraditório, o apego patriarcal defensivo é desmascarado com o juiz e a sentença”.(“Inveja Criativa” página 112)

O livro bíblico do apocalipse, segundo os fundamentalistas cristãos, fala do destino atroz da serpente (ou do lado obscuro do arquétipo ofídio) no final dos tempos:

E foi precipitado o dragão, a antiga serpente que engana todo o mundo...” (Apoc. 12, 9)

Exilado em uma ilha deserta, João, o esperançoso apóstolo do apocalipse, almejava ainda em vida alcançar uma nova terra onde não haveria nem enganador nem enganado. Esse reino fazia parte da utopia por ele mesmo denominada, “milênio de paz”. O apóstolo Paulo também deixou patente em suas cartas que foi invadido por desejos semelhantes quando, em pensamentos arrebatadores, via corpos corruptíveis transformando-se em corpos incorruptíveis.

Mais voltemos ao tema central do presente ensaio, ou seja, a figura da jararaca ―, serpente sobejamente conhecida no nordeste brasileiro , inclusive muito cantada e decantada em versos e prosas. Do livro Cantadores de Leonardo Motta, que trata de duelos entre cantadores de violas, replico abaixo um verso de cordel que narra a peleja do cego cearense de Mecejana, Symphrônio, com seu competidor, Serrador, pernambucano residente no sítio Taboca do major Ignácio Caetano, situado ao pé da serra do Araripe [Fonte: Memórias Ancoradas em Corpos Negros – de Maria Antonieta Antonacci ]:


Canguçu é meu cavalo
Corre-campo é meu facão
JARARACA é meu chicote
Cascavel meu cinturão
Caranguejo é minha espora.
                               Imbuá ― meus anelão.   [Motta,1921, p. 151]
 



Por Levi B. Santos
Guarabira, 07 de março de 2016

Site da Imagem: arquimoc.com/home/

16 fevereiro 2016

Zygmunt Bauman e o Crescimento Vertiginoso do Fundamentalismo





Por que, mesmo em plena Era da Pós Modernidade, o Fundamentalismo Religioso não para de crescer?
Sob o lema de converter o mundo do mal caminho, os grupos religiosos avançam, como nunca, suas garras sobre uma humanidade em crise. Nas Américas, no mundo muçulmano, o fundamentalismo vem crescendo de forma vertiginosa. É bom, ressaltar aqui, que o fundamentalismo também cresce nas hostes judaicas, hindús e budistas.

De nada vai adiantar tentar alguma espécie de diálogo com os fundamentalistas. Como diz o ditado popular: é o mesmo que “chover no molhado”. Eles vão sempre ver nesse recurso interativo uma ameaça às suas inamovíveis certezas.

Como se sabe, é em época de crise e de mal estar globalizado como a que o mundo experimenta por ora, que o fundamentalismo toma as rédeas para se disseminar em progressão geométrica. Já que estamos como que vivendo o “Retorno do Patriarca à Moda Antiga”, seria bom que nos debruçássemos sobre o capítulo “De Volta para o Futuro”, do livro, O Mal Estar da Pos-Modernidade de Zygmunt Bauman. Esse sociólogo polonês, cujas obras estão em evidência no mundo inteiro, brilhantemente, e de modo lúcido, explica as causas mais profundas desse fenômeno tão presente nos dias atuais. Indo mais além da onda de misticismo, diz ele:

Sugiro que a ascensão de uma forma religiosamente vestida de fundamentalismo não é um soluço de anseios místicos há muito ostensivamente afugentados mas não plenamente reprimidos, nem uma manifestação da eterna irracionalidade humana imune a todos os esforços de cura e domesticação, nem uma forma de fuga de volta ao passado pré-moderno. O Fundamentalismo é um fenômeno inteiramente contemporâneo e pós-moderno, que adota totalmente as “reformas racionalizadoras” e os desenvolvimentos tecnológicos da modernidade, tentando não tanto “fazer recuar” os desvios modernos quanto “os ter e devorar ao mesmo tempo” tornar possível um pleno aproveitamento das atrações modernas, sem pagar o preço que elas exigem. O preço em questão é a agonia do indivíduo condenado à auto-suficiência, à autoconfiança e à vida de uma escolha nunca plenamente fidedigna e satisfatória.

Em Vida para Consumo, Bauman mostra como a sociedade pós moderna atingiu os píncaros do consumismo, “com os indivíduos se tornando, ao mesmo tempo, promotores de mercadorias e também as próprias mercadorias.”

O fundamental da religião pós-moderna passa pela transmutação de Deus em “coisa divina”(ou "produto divino"): aquilo que satisfaz a necessidade imperiosa e momentânea do indivíduo. Tal qual um fast food, depois de ingerido e saciado o estômago, é rapidamente esquecido. Lá dentro das vísceras o alimento supostamente divino, depois de ser digerido e posto para fora sob a forma de dejetos, irá dar lugar a uma nova sensação de “vazio”. Para diminuir a ansiedade que esse vazio provoca, novos e coloridos pratos de conteúdos duvidosos estimularão a gula dos olhos, num círculo vicioso sem fim. A “vida metafísica” nunca imitou tanto os modos alimentares que regem a vida física ou biológica da pós-modernidade.

Ao fundamentalismo religioso se juntam outros tipos de fundamentalismos. Por exemplo: Nos EUA, há inteligentes e astuciosas alianças dentro do partido republicano que, a primeira vista, parecem absurdas, mas olhando bem, do ponto de vista econômico e político, não são: O fundamentalismo religioso cresce como nunca, na esteira de interesseiras, duradouras, e poderosas alianças engendradas com os fundamentalistas do mercado. Quem não se lembra da Guerra do Bem contra o Mal (que movimentou sobremodo a indústria bélica) difundida pelo fundamentalista George W. Bush, que deu início a caçada de Saddan Hussein (“Satã”) no Iraque?
Não é à toa que pesquisas recentes dão o pré-candidato a presidente dos EUA pelo partido republicano, o bilionário Donald Trump, como o preferido dos evangélicos(Vide Link). O moinho do deus dos exércitos do partido republicano não aceita mistura, nem tolera inimigos em seu bojo. Trump, o profeta fanfarrão, já encetou a bandeira da “grande cruzada contra o mal”: disse, em um discurso, que todos os muçulmanos devem ser imediatamente impedidos de entrar nos EUA (Vide Link).

Até o Papa Francisco mexeu na velha ferida fundamentalista americana, quando em um discurso recente (setembro de 2015) no Parlamento dos EUA, pediu vigilância contra todos os tipos de fundamentalismos (Vide Link):

Sabemos que nenhuma religião está imune a formas de delírios individuais ou extremismo ideológico. Isso significa que devemos ficar especialmente atentos a qualquer tipo de fundamentalismo, seja religioso ou de qualquer outro tipo” afirmou o papa, não esquecendo, o passado extremamente fundamentalista dos primórdios de sua igreja.

É sobre a “Religião Pós-Moderna em Zigmunt Baumann” que Marcelo do Nascimento Melchior, filósofo, mestre em Comunicação pela UFG e mestre em Educação pela Universidade Católica Dom Bosco, nos traz um perfeito retrato do fenômeno religioso que vem atraindo cada vez mais adeptos, através de programas apelativos reproduzidos incessantemente na imprensa, televisão e internet:

Na verdade, o que existe é a formação do “coquetel religioso”. O homem pós-moderno vive a religião “à la carte”, de tipo “self-service”, numa mistura de vários aspectos que mais interessam e satisfazem as exigências e necessidades momentâneas. Na busca de sentido da vida, cria-se o deus e a religião pessoal: “Jesus Cristo sim, igreja não”. O “boom” religioso revela isto: seitas, cultos, esoterismos, filosofias orientais, yoga, etc., num verdadeiro “misticismo difuso e eclético”, onde se vive a preferência religiosa e o “suave consumismo religioso”. A razão disso se encontra também no fato de o sagrado ter se libertado do domínio da religião, isso é, qualquer pessoa pode atribuir-se o título de “bispo”, missionário, e oferecer serviço religioso como qualquer serviço de tele-entrega rápida e soluções milagrosas.”

Os seguidores desse credo fundamentalista estão convencidos de que todos os caminhos da redenção, da salvação, da graça divina e secular e da felicidade (tanto imediata quanto a eterna) passam pelas lojas” escreveu Zygmunt Bauman no prefácio à edição de sua obra Modernidade Líquida.

O certo é que as igrejas em evidência na televisão, transformadas em grupos empresariais, especializaram-se em tirar proveito do medo e da sensação de insegurança da população frente a um mundo hostil, mecanizado e imprevisível. Esses “mercados divinos” seguem a tônica da Mídia Empresarial Religiosa, e são formados por profissionais gabaritados em marketing, comunicação, contabilidade e propaganda. Segundo a “Revista de Estudos da Religião”, essas empresas gospel não se interessam tanto por proselitismo, visando mais a audiência e venda de produtos, como camisetas, cds, dvds, livros, passagens aéreas, cursos bíblicos on line, etc. Todas são burocratizadas de acordo com a lei da oferta e da procura que rege o mercado, procurando sempre minimizar os gastos e maximizar os resultados, para poder crescer como qualquer empresa comercial pujante e bem gerenciada.

Aqui entre nós, uma amostra do poderoso marketing religioso da atualidade foi o lançamento do filme “Os Dez Mandamentos” nas salas cinemas de todo o país, produzido pelo Bispo da Universal do Reino de Deus. A majestosa e intensamente propagandeada película, levou o filósofo e professor de Ciências da Religião da PUC – SP, Luiz Felipe Pondé, a escrever um genial ensaio em sua coluna na Folha de São Paulo (04/02/2016), sob o título 'Os Dez Mandamentos' no Cinema Vale por 'Mil Missas', do qual replico abaixo esse imperdível trecho:

E num mundo gigantesco e competitivo como o nosso, permeado por mídias sociais e interatividade, com um mercado agressivo e em expansão de produtos religiosos, o futuro da commodity Deus está na comunicação. O mercado da mídia é o meio ambiente que definirá o futuro das religiões e das espiritualidades no século XXI. Esse filme vale mais que mil missas.”

Nunca na história da humanidade os fundamentalistas de mercado e religioso expuseram, de forma tão aberta e banal, suas infalíveis fórmulas. Sob o sedutor lema aqui você pode ser feliz e ter sucesso” , não cessam de provocar e canalizar desejos humanos para sua globalizante seara.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 16 de fevereiro de 2016



Site da Imagem: nosevangelizamos.blogspot.com

05 fevereiro 2016

A Lógica Lacaniana do “Eu Não Sabia”





Um verso que postei aqui no “Ensaios&Prosas” em novembro de 2010, sob o título “Negar Para Não Sofrer(Vide Link), revela o quanto é doloroso expor o nosso malfeito diante de uma autoridade. Lembro de que no meu tempo de menino, para não sofrer o castigo merecido, faltei com a verdade a quem principalmente, nos meus primeiros passos, tinha me dado lição de ética: o não mentir estava acima de tudo. Fui vítima de um auto-engano, ao pensar que escondendo o malfeito, estaria livre do castigo paterno. Dizem que a mentira tem pernas curtas. Isto significa que mais cedo ou mais tarde a correnteza do translúcido rio da vida (que é mais célere), a alcança e a desnuda.

Venha cá seu cabra, por que mentiu para mim? Sei todo o porquê da sua nota baixa em comportamento, do mês passado! exclamou meu pai, tomado de raiva. Após a surra, passei a carregar outro fardo, talvez mais pesado que o castigo físico: o sentimento de angústia por tê-lo enganado. Eu pensava que ele jamais iría saber dos meus escapismos , pois era minha mãe quem olhava minhas notas e, de certa forma, me protegia dos severos olhos paternos. Como um rei que acabara de ser expulso do trono, imaginava que dali para frente meu pai ficaria de orelha em pé quanto a tudo que viesse um dia lhe responder.

É sobre a desculpa tão corrente nos dias atuais do “Eu Não Sabia”, que o psicanalista Jacques Lacan, em seu longo seminário sobre Angústia, deixa algo emblemático para o nosso tempo, tempo de corrupção endêmica, onde rastros do malfeito estão por toda parte, sem que se enxergue neles o sujeito principal da ação.

Eis a lógica lacaniana sobre a desculpa esfarrapada do defensivo e repulsivo “Eu não sabia”: “Não é propriedade unicamente do homem apagar vestígios, operar com vestígios. Vemos animais apagarem seus rastros. Vemos até comportamentos complexos, que consistem em enterrar um certo número de vestígios, de dejetos, por exemplo o que é muito conhecido entre os gatos[…]. O 'Ele Não Sabia' enraíza-se num elo: 'Ele Não Deve saber'. O Significante, decerto, revela o sujeito, mas apagando seu traço”.[..] Quando o traço é feito para ser tomado por um falso traço, sabemos que há um sujeito falante, sabemos que há aí um sujeito como causa”. Em outras palavras, aquele que se desculpa com umEu não sabia”, em sua essência, está simplesmente exercendo um mecanismo de defesa psíquico. O avesso ou sentido latente(“ele não deve saber”), representa a real intenção, que é a de esconder do outro a história de sua farsa.

Mas os antropólogos dizem que o ser humano é por natureza, escapista. O historiador Theodore Zeldin, sobre “a arte de fugir dos problemas, mas não a arte de saber para onde fugir”, em sua antológica obra, “Uma História Íntima da Humanidade”, disse: “Os melhores escapistas são os artistas, que se abstraem da realidade da vida diária e dos constrangimentos da hierarquia”. Mas aqui, Theodore, faz um contraponto maravilhoso: “Ser artista significa estar empenhado em descobrir maneira de tornar essa ansiedade frutífera e bela”.

Voltemos então a Lacan, quando no seminário de número 10, frente a seus discípulos, tratava daquilo que não engana na angústia:

O que esperamos, afinal de contas, e que é a verdadeira substância da angústia, é 'o aquilo que não engana' , o que está fora da dúvida”.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 05 de fevereiro de 2016

Site da Imagem: geradormemes.com