21 abril 2017

O Petróleo é Dele$






O Semanário de maior circulação das Américas (de 19 de abril), publicou um enorme brasão de Nossa República tomando quase toda a extensão de sua capa, com os seguintes dizeres em sua faixa inferior: “República Federativa da Odebrecht”.

Talvez não saiba o(a) leitor(a) que tudo se iniciou no tempo em que não tínhamos televisão nem internet para levar aos nossos lares, ao vivo e em cores, as negociatas republicanas entre governo, congresso e o poder privado. Como todo aluno dos primeiros anos de escola sabe, foi Getúlio Vargas quem no idos de 1953 criou a estatal Petrobrás para exploração, refino, transporte e comercialização dos derivados do petróleo. Na época prevalecia os oligopólios da Shell, Texaco, Mobil Oil e Esso. Por esse tempo o slogan populista de Getúlio, “O Petróleo é Nosso”, correu o país de ponta a ponta com toda pujança. Só depois de dois anos de renhidas batalhas travadas no Congresso, a Lei que tratava da estatização do petróleo foi aprovada no Senado e sancionada pelo presidente em outubro de 1953. Não me perguntem a que preço foi obtida tal façanha. Fico a pensar com os meus botões: será que os métodos de enriquecimento ilícito da atual República da Odebrecht não são uma reprise, em maior grau, das primeiras transações tenebrosas no campo da exploração do ouro negro pelo Governo e o Congresso da década de 1950?

A História do Brasil registra que foi em 1944 que o jovem Noberto Odebrecht, descendente de alemães, criou sua organização em Salvador na Bahia. Pulando para o ano de 1953 damos de cara com Getúlio e Noberto entabulando um acordo para a criação do oleoduto Catu-Candeias na Bahia. Uma pergunta aqui se impõe: Será que a interação interesseira entre o poder público e o privado acabava de nascer ali, bem pertinho do local onde Pedro Álvares Cabral desembarcara com sua esquadra em abril de 1500?

Acertadamente, os estudiosos dizem que a história é cíclica, ou seja, tudo que está acontecendo hoje já foi parte de um passado. Basta navegar em sentido contrário para se constatar que a rica organização de Noberto Odebrecht, hoje presente em 27 países, começou a ganhar contratos e mais contratos na base da velha amizade com os poderosos, desde o tempo da célebre frase de Getúlio “O Petróleo é Nosso”. Daí por diante a história dessa mega-empresa tomou conta da república de uma forma devastadora e cruel. A Odebrecht se entranhou em todos os partidos de uma forma avassaladora e irresistível, a ponto de o Congresso Nacional, hoje, se debruçar sobre um projeto de anistia para livrar a todos que pecaram e destituídos ficaram do Reino da Glória da República que, com Deodoro e Floriano Peixoto, nasceu fisiologicamente fadada a não dar certo.

Recentemente, com uma tranquilidade incomum que choca até o mais simples cidadão, disse o patriarca Emílio do conglomerado Odebrecht ao Juiz Sérgio Moro: “desde a minha época, da época de meu pai, sempre existiu caixa dois para doações de campanha não oficiais. Na minha época as coisas eram muito mais simples”.

Para salvar a própria pele o delator confessa seus pecados, trazendo à tona procedimentos que nos primórdios eram rotineiramente encobertos. Quem de nós poderia um dia imaginar que um dos Odebrecht viria a público afirmar categoricamente que de 2005 a 2015, para seu bel prazer, influenciara na aprovação de vinte atos do governo e do Congresso as malfadadas medidas provisórias?

Tem razão, Emílio, o mundo tecnológico de hoje está muito complexo. Tudo vê, tudo cata e não perdoa nada. No fundo, tudo é culpa da era cibernética que deixou o homem mais nu, ou excessivamente transparente. Com relação as práticas pouco republicanas nunca é demais fazer um retrospecto sobre a nossa depravada história, para compreender que os tristes e vergonhosos procedimentos atuais são apenas um repeteco do que se praticava no Brasil-Imperial, como narra de maneira lúcida e carregada de humor, Laurentino Gomes, em sua Trilogia histórica.

Em 2010, o patriarca da Odebrecht já reclamava dos destaques que a imprensa dava a cada escândalo que surgia, um atrás do outro. “Me incomoda isso, como se fosse surpresa” concluiu, uma vez, Emílio.

Até parece que o delator, orgulhosamente, em analogia ao dito salomônico “Nada há de novo debaixo do sol” está aqui a demonstrar que tanto os fatos do passado quanto os fatos escabrosos do presente continuam os  mesmos em nossa republiqueta. Em que pese a ação insistente da Lava-jato, eles parecem ter a certeza de que seus crimes prescreverão e o petróleo continuará sendo deles.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 21 de abril de 2017

14 abril 2017

A Carne é Fraca





Muito se tem falado nos últimos dias sobre a “carne fraca” em nosso país. Mas não quero me deter, aqui, sobre a questão comercial de alguns frigoríficos que, na ganância pelo lucro fácil, foram pegos em graves irregularidades na conservação da carne bovina destinada ao consumo da população.

A expressão “Carne Fraca” remete aos meus tempos de estudante do curso científico no Liceu Paraibano em João Pessoa – Pb. Na semana da páscoa, quarta-feira era o último dia de aula. Como reza a música de Dorival Caymmi, “era quarta-feira santa, dia de pescar e de pescador” que o peixe se tornava farto nas mercearias e feiras das cidades. Por não haver carne à venda, muitos protestantes terminavam por se alimentar do bacalhau seco, que nesse tempo era um prato economicamente bem accessível aos menos abastados.

Os padres, seguindo a tradição do catolicismo aconselhavam seus fiéis a se abster da carne nesse período. Os pastores protestantes, por sua vez, afirmavam convictos que não comer carne na semana santa não tinha respaldo bíblico. No nordestinês: nenhum dos lados davam o braço a torcer.

Na casa de minha mãe (Bazinha) todo o final de semana a galinha caipira cozida acompanhada do feijão verde, arroz e macarrão era o menu sempre servido no almoço aos domingos. No final da semana santa, para satisfazer os desejos e vicissitudes de nossa fraca carne, não resistíamos em comer da carne dessa saborosa ave, tão comum em nossas plagas. 

Minha mãe criava muitas galinhas no quintal de casa em Alagoa Grande - Pb. Bia, uma prima nossa, considerada nossa segunda mãe por morar conosco desde os tempos em que eu e meu irmão éramos bem pequenos, de madrugada, com o dia ainda não totalmente claro, dirigia-se ao quintal para, em silêncio e com pés de lã, matar uma galinha caipira que secretamente ao meio dia devorávamos no almoço. Pelo que sei nenhum vizinho tomou conhecimento de nossa refeição de portas fechadas. Acho que coisa boa não poderia acontecer se algum católico (ou mesmo um crente fundamentalista) aparecesse de surpresa na hora de nossa herética refeição. Lembro que a caçarola de galinha fervendo era bem tampada para não deixar vazar o odor agradabilíssimo para fora de casa e chamar a atenção dos vizinhos. Em suma, fazíamos de tudo para evitar o escândalo de ser cognominado de sacrílegos.

Agora, me vem à mente a frase atribuída ao Jesus dos evangelhos: “O espírito está pronto, mas a carne é fraca”.

Não sei, talvez a expressão a carne é fraca” acima tratada pelos evangelistas, como figura de linguagem representativa de nossas vicissitudes, tenha, naqueles idos, nos redimido da culpa por um almoço extravagante degustado às escondidas em plena Sexta-Feira da Paixão.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 14 de abril de 2017

21 março 2017

O Criador da Psicanálise e Sua Criatura Em Face de Hitler


O Criador (Freud) e sua criatura (Jung)


Freud, o criador da psicanálise, tinha a alma dividida entre as correntes sionista e antissemita. Talvez, por isso, tenha se detido muito sobre o termo “ambivalência”. Por ser um judeu da diáspora, foi considerado um infiel pelos seus. Queria fazer de Carl Gustav Jung seu sucessor, mas a criatura era filho de um pastor protestante. Portanto, como cristão, acima de tudo, Jung não poderia deixar de corroborar com o ideal bíblico de uma Terra Prometida só para os judeus no caldeirão fervente da Palestina.

O grande embate entre o Criador e sua criatura se deu com o florescimento do hitlerismo. A historiadora da psicanálise de origem francesa, Elisabeth Roudinesco, no livro “Sigmund Freud Na Sua Época e Em Nosso Tempo”, editado na França em 2014 e aqui pela Zahar em 2016 obra muito aplaudida pela crítica mundial , relata que em fevereiro de 1930, bem antes do início da segunda grande guerra, o velho barbudo argumentava perante o físico, Albert Einstein, sobre o fanatismo irrealista de seus irmãos em criar um Estado Judeu na Palestina. Portanto não partilhava da ideia sionista de recuperar os lugares sagrados para si. Dizia ele: “Não posso sentir qualquer simpatia por uma fé mal interpretada que faz de um pedaço do muro de Herodes uma relíqua nacional e, por causa dela desafiar os sentimentos dos habitantes do país. […]Teria sido mais sensato fundar uma pátria judaica num solo não historicamente carregado”.
Lógico que, como todo judeu da Diáspora, Freud jamais poderia ser adepto do sionismo. Sionismo, que depois mostrou a sua verdadeira cara: “um movimento político cujo objetivo era um governo de influência mundial controlado pelos banqueiros internacionais de orientação sionista”.

Por outro lado, Jung, criatura freudiana, na época da ascensão de Hitler principal personagem da 2ª guerra mundial , mantinha a concepção dúbia de que havia um arquétipo judaico no inconsciente coletivo do povo judeu; ao mesmo tempo, percebia o fulgor das massas em torno do Führer como uma resposta natural do inconsciente cristão na psique da raça ariana. Em uma correspondência de 1934 diz jung: “Freud já me acusou de antissemitismo só porque me recusei a aprovar seu materialismo sem alma. Com essa propensão a farejar antissemitismo em toda parte, os judeus terminam efetivamente por gerar antissemitismo”. (Elisabeth Roudinesco… página 421). Na ótica de Freud e da elite judaica anti-semitismo não era o mesmo que anti-sionismo.

A Alemã de origem judaica, Hannah Arendt (filósofa política e ex-aluna de Heidegger), ainda nos dias atuais é considerada “persona non grata” por, em seu polêmico livro “Eichmann em Jerusalém”, entender, assim como Freud, que o sionismo, no fundo, era uma ideologia racista e nacionalista.

Elisabeth Roudinesco, sobre ambivalência refletida na dualidade “sionismo-antissemitismo”, coloca Jung em um conflito idêntico ao de Freud: “Ao mesmo tempo que recriminava os judeus por forjar as condições de sua perseguição, Jung pretendia ajudá-los a se tornarem melhores judeus. O que equivalia a dizer que, em conformidade com sua teoria, Jung recusava o modelo freudiano de judeu sem religião, do judeu do iluminismo. Condenava a figura moderna do judeu desjudaizado e culpado, segundo ele, por haver negado sua 'natureza' judaica. […] No intuito de conduzir os judeus ao terreno da psicologia da diferença, Jung passou a acompanhar a evolução de seus discípulos judeus exilados na Palestina”. Contudo, em uma de suas correspondências, deixou uma emblemática pergunta no ar: “Seria por estarem tão habituados a não serem judeus que os judeus precisam concretamente do solo palestino para reconduzi-los à sua judeidade?”

Olhando bem, não se constitui um paradoxo o que Elisabeth Roudinesco aqui afirma em seu memorável livro: Jung era sionista por antissemitismo, ao passo que Freud recusava o sionismo porque não acreditava um só instante na ideia de que os judeus encontrariam uma solução para o antissemitismo conquistando a Terra Prometida”.

Quando a coisa nazista se acentuou, o Criador (Freud) fugiu para Paris, e de lá para a Inglaterra, que o recebeu de braços abertos. Quanto a criatura Jung, foi por Göring alçado a presidência do Instituto Alemão de Pesquisa Psicológica e Psicoterapia. Nesse balaio de gatos se agruparam dissidentes freudianos, junguianos e supostos “independentes”.

Apesar de sua biografia manchada pelo fato de ter ficado durante grande parte do período bélico ao lado de Hitler, há controvérsia se Jung foi realmente um colaborador nazista. Como a ambiguidade é a marca essencial da psicanálise, a história registra que a criatura no final da segunda guerra foi recrutada pelo serviço secreto americano para servir como agente em prol dos aliados. Em 1946, terminada a segunda grande guerra, um proeminente professor judeu em visita a Suíça recusou-se a dialogar com Jung. Depois de uma violenta discussão com o rabino, Jung rendeu-se: “Está certo, eu vacilei.” (Jung Uma Biografia Frank McLynn Record Editora)

Enquanto isso, o Criador (Freud), agora bem instalado no paraíso londrino que lhe serviu de asilo, longe do inferno nazista, voltava-se para um tema polêmico e ambíguo, como é tudo que se refere aos elementos míticos do campo religioso judaico-cristão, pondo, aos 82 anos de idade, os retoques finais em seu “Moisés e o Monoteísmo”, publicado no ano de sua morte (1939). Ficou lúcido até a partida, no dia do Perdão (Yom Kipur), em setembro de 1939, quando o espectro da guerra caía por toda a cidade de Londres, em meio a máscaras contra gases que eram distribuídas para fazer face aos intensos bombardeios que a Alemanha do demoníaco Hitler despejaria naquele fatídico mês sobre seu último refúgio a Inglaterra.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 21 de março de 2017


17 fevereiro 2017

“A Mãe” — Resenha e Um trecho da 3ª Parte de “A Volta do Filho Pródigo”





André Gide, Freud e Marcel Proust foram contemporâneos. Nos primeiros 25 anos do século XX, já concordavam entre si, que a mãe se constituía o primeiro objeto de amor da criança, e que isso se repercutiria nas identificações que ocorreriam na vida adulta do indivíduo. André perdeu o pai aos doze anos de idade e, segundo estudiosos de sua biografia, ficou submetido aos ditames de sua rígida mãe. Lavando em consideração esse fato, o diálogo entre a mãe e o filho pródigo tem, ainda hoje, em suas entrelinhas, algo profundo, proveniente dos arquivos psíquicos da tenra infância do ser humano. Foi na fervilhante França da “Belle époque” que se começou a explorar os recalques de natureza psíquica que se escondiam por trás das máscaras sociais.

Sobre o autor, quando era criança, há quem diga que as histórias que sua mãe contava junto ao leito para que conciliasse o sono, influenciaram todas as suas obras posteriores.

A atração que a mãe exerce sobre o filho pródigo está bem evidente nessa parte do emblemático diálogo: “Não há nem um só de meus pensamentos de ontem que não se tenha hoje tornado em vão” diz o filho. A função de mãe é tão forte e tão alienante em Gide, que fez com que o filho pródigo da parábola abdicasse de escolher uma esposa para ele. Embevecido pelo seu lado maternal, deixou para sua genitora a determinação de fazer a escolha segundo seus anseios, como bem evidencia essa parte do diálogo: “Não importa qual seja a preferida, desde que vós a escolhais”. A mãe convencerá o filho pródigo a ser parecido com os que, em sua ausência, ficaram em Casa. Resignadamente, dirá o filho rebelde: “Meu único anseio daqui por diante é parecer-me a vós todos”, em contraposição às falas anteriores entre mãe e filho: “Que buscavas então lá fora? (pergunta a mãe). “Buscava… quem eu era”(responde o filho).

Quando a função materna sobrepuja a função paterna se eternizando ou se fixando na psique da criança, influências afetivas derivadas desse tipo de alienação se interpõem nos futuros inter-relacionamentos do sujeito, considerado transgressor pelo status social.


(Resenha ― Por Levi B. Santos)



Pródigo filho, cujo espírito recalcitra ainda com os argumentos do irmão, deixa agora teu coração falar. Como se sentes bem, reclinado aos pés de tua mãe sentada, com o rosto apoiado nos joelhos dela a sentir-lhe a mão que te acaricia a nuca rebelde.

Por que ficaste tanto tempo longe de mim?
E como respondes apenas com tuas lágrimas:
Para que chorar agora, meu filho? Foste me devolvido. À tua espera verti todas as minhas lágrimas.
Sempre estivestes à minha espera?
Jamais deixei de te esperar. Antes de dormir, pensava, a cada noite: se ele voltar ainda hoje, saberá como abrir a porta? E levava muito tempo a dormir. Cada manhã, antes mesmo de levantar-me, pensava: será hoje que ele voltará? Depois rezava. Rezei tanto, que tinhas certamente de vir.
Vossas preces forçaram meu retorno.
Não te rias de mim, meu filho.
Ó mãe! Eu volto com humildade. Vede como ponho minha fronte abaixo de vosso coração! Não há um só pensamento de ontem que não se tenha hoje tornado em vão. Só agora compreendo, perto de vós, por que abandonei a casa.
Não partirás mais?
Não posso mais partir.
Que então te atraía lá fora?
Não quero mais pensar nisso: nada… Eu mesmo.
Achas que podias ser feliz longe de nós?
Não era a felicidade que eu buscava.
Que buscavas então?
Buscava… quem eu era... 
Trecho do diálogo sobre a esposa que o filho pródigo irá tomar:
Já vos disse: farei por me parecer com meu irmão mais velho; administrarei meus bens; como ele, tomarei esposa…
 Sem dúvida pensas em alguém, quando dizes isso.
Oh! Não importa qual seja a preferida, desde que vós a escolhais. Fazei como fizestes com meu irmão. 
Gostaria de escolhê-la de acordo com teu coração.

(*) André Gide



De “A Volta do Filho Pródigo”, reproduzi, acima, uma pequena parte do capítulo “Mãe”, encimada por uma diminuta resenha de minha parte. Sem a leitura do interessantíssimo capítulo que trata da surpreendente conversa do Pródigo com seu irmão mais novo (O Caçula que tinha dez anos quando o filho pródigo partiu) encerrando o antológico ensaio de André Gide, o leitor(ou leitora) não irá entender o jogo subjetivo, intrínseco da alma humana, que tem na mãe, no pai e nos irmãos, os elementos primordiais constitutivos da própria história do indivíduo.

O antológico livro “A Volta do Filho Pródigo” de André Gide, escrito em 1909, contêm ainda mais quatro fenomenais ensaios: “O Tratado de Narciso”, “A Tentativa Amorosa”, El Hadj, Filoctetes e Betsabe. Estando a disposição dos leitores nas Livrarias Saraiva (Saraivadebolso) Tradução de Ivo Barroso. Obra imperdível para os apreciadores da boa literatura de fundo psicanalítico.

LINK:



Guarabira, 17 de fevereiro de 2017

11 fevereiro 2017

"A Reprimenda do Irmão Mais Velho” ― “A Volta do Filho Pródigo” (2ª Parte)





É o Desejo utópico de alcançar a completude que leva o sujeito a aventurar-se para experenciar novos mundos, novos édens e desertos, lá fora. Como nada de fora jamais o complementa e satisfaz, a esse anseio não correspondido, se contrapõe a necessidade imperiosa de retornar ou voltar ao estado vivencial primitivo. Aquilo que Nietzsche exprimia como “O eterno retorno”, na verdade, era uma demonstração de que o tempo tanto era infinito para trás (evocando o passado) quanto para frente (idealizando um porvir). A esse fenômeno, a psicanálise preferiu conceituar de “determinismo psíquico” uma espécie de resposta instintiva inerente à nossa natureza ambígua, por excelência. Na verdade, o que a parábola quer mostrar é o sujeito cindido entre “Édipo (um inconsciente que, mesmo à sua revelia, o determina) e Hamlet (uma consciência culpada, bloqueadora de sua liberdade)”.

André Gide, sobre o DESEJO que faz o sujeito sair do seu ninho e sobre a NECESSIDADE que o faz voltar às suas origens ou raízes, realiza uma dialética surpreendentemente emblemática para o nosso tempo. Os “paradoxos” que as entrelinhas deixam exalar, revelam, acima de tudo, a história dúbia ou ambivalente dos nossos anseios no meio da família e da sociedade da qual fazemos parte.

Na esplêndida narrativa do autor, o Irmão mais velho da Parábola do Filho Pródigo empreende um envolvente diálogo de fundo psicoteológico com seu irmão mais novo, ocorrido no segundo dia após o Festim.

Como na primeira parte da parábola, André Gide faz menção ao significante metafísico “Pai” (com “P” maiúsculo) e o provedor biológico “pai” (com “p” minúsculo).
Penso que vale a pena conferir esse metafórico e profundo diálogo. A leitura reflexiva e desarmada, com certeza, levará o(a) leitor(a) a perceber os encontros e desencontros na dança imaginária dos afetos opostos que permeiam a subjetividade de cada um de nós.

(Resenha ― Por Levi B. Santos)



O filho pródigo encarando seu irmão com orgulho, fala:

Meu irmão mais velho, já nem nos parecemos mais
O irmão mais velho:
A culpa é tua.
Minha, por quê?
Porque eu permaneci na ordem; tudo que nos distingue é fruto ou semente do orgulho.
Só posso ter diferente os meus defeitos?
Não tomes por qualidade senão o que te atém à ordem, e submete tudo o mais.
Essa mutilação é que eu temia. Tudo isso que queres suprimir vem igualmente do Pai.
Espera lá, não disse suprimir, mas submeter.
Eu te compreendo bem. Foi exatamente assim que acabei subjugando as minhas virtudes.
E é por isso que volto a encontrá-las em ti. Mas é preciso que as amplies. Compreende-me bem: não se trata de diminuição, mas de uma exaltação de teu ser o que proponho, na qual os elementos mais diversos e insubordinados de tua carne e de teu espírito devam sinfonicamente se integrar, na qual o pior de ti deva alimentar o melhor, e em que o melhor deva submeter-se a …
Era uma exaltação também que eu procurava, que eu encontrei lá no deserto — e talvez não muito diversa da que agora me propões.
Na verdade, o que pretendo é impô-la.
Nosso pai não falou com tal dureza.
Bem sei o que te disse o Pai. É vago. Ele já não se explica claramente; de modo que é possível fazê-lo dizer o que deseja. Mas eu conheço bem seu pensamento. Dentre os servidores sou seu único intérprete e quem quiser compreender o Pai deve escutar a mim.
Eu o ouvia tão bem sem tua ajuda.
É o que pensas; compreendia mal. Não há várias maneiras de se compreender o Pai; não há várias maneiras de ouvi-lo. Não há várias formas de amá-lo; a fim de estarmos unidos em seu amor.
Em sua Casa.
Este amor conduz a ela; aliás bem viste isso pois estás de retorno. Dize-me, agora: que te levou a partir?
Sentia demais que a Casa não abraçava o universo inteiro. Eu próprio não me continha no ser que queríeis que fosse. Apesar de mim mesmo, imaginava outras culturas, outras terras e caminhos a percorrer para chegar a elas — caminhos não traçados; imaginava em mim o novo ser que sentia lançar-me em direção a eles. Por isso me evadi.
Pensa no que teria acontecido se eu, como tu, abandonasse a Casa do Pai. Os servidores e os bandidos iriam pilhar todos os nossos bens.
Pouco importa então, pois vislumbrava outros bens…
Quanto exagerava o teu orgulho. Irmão, a indisciplina passou. Se ainda não sabes, logo conhecerás o caos de que o homem saiu. Ou antes: mal saiu; com sua carga natural, ele volta a tombar nele se o Espírito não mantiver erguido. Não aprendas às tuas custas: os elementos bem ordenados que te compõem esperam apenas uma aquiescência, uma fraqueza qualquer de tua parte para retornarem à anarquia… Mas o que não saberás nunca será o tempo que o homem levou para chegar ao Homem. Agora que o modelo está concluído, mantenhamo-nos fiéis a ele. “Guarda firmemente o que possuis”, diz o espírito ao anjo da Igreja, e acrescenta “ a fim de que ninguém usurpe a tua coroa”. Tua coroa o usurpador a espreita; ele está em toda parte ronda ao teu redor, em ti. Guarda firmemente, meu irmão! Guarda firmemente.
Há muito tempo que a larguei de mão, já não posso agarrar-me aos bens.
Podes, sim, eu te ajudarei. Cuidei de teus bens a tua ausência.
E além do mais, essa palavra do Espírito, eu a conheço; não a citaste por inteiro.
Na verdade ela continua assim: “O que vencer, farei dele uma coluna no templo de meu Deus, e dali não sairá”
— “E dali não sairá.” É isso precisamente que me assusta.
Mas se é para tua felicidade.
Oh!, compreendo bem. Mas nesse templo eu já estava…
Fizeste mal em sair, já que quiseste regressar.
Bem sei, bem sei. Eis-me de volta, admito.
Que bens podereis buscar lá fora que não hajas aqui em abundância? Ou melhor: somente aqui encontrarás teus bens.
Já sei que guardaste minhas posses.
A parte de teus bens que não conseguiste dilapidar. Ou seja, a parte que nos é comum: os bens de raiz.
Não possuo então nada de exclusivamente meu?
Possuis: aquela parte especial de bens que o Pai consinta ainda em conceder-te.
Isto é tudo o que eu quero; aceito não querer mais do que isso.
Orgulhoso! ― Não serás consultado a propósito. Essa parte entre nós é muita incerta: aconselho-te antes a que renuncies a ela. Esta parte de bens pessoais já te levou à perdição; seriam outros bens que dilapidarias em seguida.
Os outros, eu não podia levar.
Por isso irás encontrá-lo intatos. Mas chega por hoje. Entra no repouso da Casa.
Vem a propósito, pois me sinto fatigado.
Bendita seja a tua fadiga, então! Agora, dorme. Amanhã a mãe te falará.
[André Gide]


[Próximo Capítulo — Resenha e um pequeno trecho de “A Mãe” — 3ª Parte de “A Volta do Filho Pródigo”]


Guarabira, 11 de fevereiro de 2017

03 fevereiro 2017

“A Reprimenda” ─ Pai e Filho Pródigo, Dia Seguinte Após o Festim







A Parábola do Filho Pródigo reinterpretada de forma magnífica por André Gide, com certeza vai levar o leitor ou leitora a uma reflexão profundamente humana, e a uma percepção nítida dos campos subjetivos, até certo ponto, antagônicos entre o filho e o pai provedor. Os polos antagônicos dos afetos paterno e filial se debatem entre si, quando o filho, em pleno deserto, se reporta ao amor por um Pai (com “P” maiúsculo) simbólico-imaginário: o Deus da religião, oArquético Patriarcal” de Jung, O Grande Outro de Lacan e o Superego” de Freud.

Poderíamos até denominar essa parábola de “Linguagem do Pai versus Linguagem do Filho”, pois trata de um pai natural que em sua subjetividade sente-se abandonado pelo filho. Entretanto, de forma transcendente, se percebe o filho dilapidador de bens físicos, em toda sua miserabilidade, se reportando a um Pai que estava em toda parte, e que mesmo na adversidade nunca o tinha deixado de amar. O clímax surge com toda veemência, no momento em que o pai biológico(escrito sempre com “p” minúsculo) ao passar em rosto a situação de decadência financeira do filho lá fora, é surpreendido com uma declaração corajosa e sincera, que se constitui o pilar básico da filosofia judaico-cristã: “Foi na aridez do deserto que mais amei a minha sede” soluçou o filho pródigo.                                       
(Resenha ― Por Levi B. Santos)


(*) André Paul Guilherme Gide (1869 1951) recebeu o prêmio Nobel de literatura em 1909. Da Parábola narrada nos evangelhos, o renomado escritor francês, pelo avesso do que geralmente se prega, mostra um filho que em sua aventura libertária e ilusionista não encontrou o que desejava. No que se refere ao mundo do TER, volta vencido, mas resignado e revigorado pelo grande aprendizado que a dor mais moral do que física duramente o marcou.



                                                                                   Por André Gide (*)


Meu filho, por que me abandonaste?
Ter-vos-ei de fato abandonado? Pai, não estás em toda parte? Jamais vos deixei de amar.
Não porfiemos. Eu tinha uma casa que te abrigava. Ela foi erguida para ti. Para que tua alma nela pudesse encontrar abrigo, um luxo digno de si, conforto, emprego, muitas gerações trabalharam. Tu, o herdeiro, o filho, por que te havias de evadir da Casa?
Porque ela me encerrava. A Casa não sois vós, meu Pai.
Fui eu quem a construiu, e para ti.
Ah! Vós não haveis disto isto, mas meu irmão. Vós, sim, haveis construído toda a terra, a Casa e tudo que não é a Casa. A Casa, outros que não vós a construíram; em vosso nome, eu sei, mas outros que não vós.
O homem tem necessidade de um teto sob o qual repousar a cabeça. Orgulhoso! Pensavas poder dormir ao relento?
Será preciso tanto orgulho para isso? Outros mais pobres do que eu o conseguiram.
Mas isso são os pobres. Pobre tu não és. Ninguém pode abdicar de sua riqueza. Eu te havia feito o mais rico de todos.
Meu Pai, bem sabeis que ao partir levei comigo o quanto pude de riquezas. Que me importam os bens que não se podem carregar.
Toda essa fortuna que levaste foi dilapidada loucamente.
Mudei vosso ouro em prazer, vossos preceitos em fantasia, minha castidade em poesia e minha austeridade em desejos.
Seria para isso que teus pais previdentes porfiaram em destilar em ti virtudes?
Para que eu ardesse de uma chama mais bela, um novo fervor me alumiava.
Pensa nessa pura chama que Moisés viu sobre a sarça ardente; ela brilhava mas sem consumir.
Eu conheci o amor que nos consome.
O amor que te quero ensinar reconforta. Ao cabo de algum tempo, que te restou, ó filho pródigo?
A lembrança desses prazeres.
E a privação que vem depois?
Nessa privação, eu me sentia perto de vós, meu Pai.
Era preciso a miséria para te forçares a voltares a mim?
Não sei; não sei. Foi na aridez do deserto que mais amei a minha sede.
Tua miséria te fez sentir melhor o preço das riquezas.
Não, isso não. Não me compreendeis meu pai? Meu coração vazio de tudo, encheu-se de amor. Ao preço de todos os meus bens, adquiri o fervor.
Estavas então feliz longe de mim?
Eu não me sentia longe de vós.
Então que te fez voltar? Fala.
Não sei. A indolência, talvez.
A indolência, meu filho! Então não foi o amor?
Pai, já vos disse, jamais vos amei tanto quanto no deserto. Mas estava cansado, cada manhã, de prover minha subsistência. Em casa, pelo menos, se come bem.
Sim, os servidores provêm todo o necessário. Com que, então, o que te trouxe de volta foi a fome?
É possível também que a enfermidade, a covardia… Afinal, essa alimentação fortuita enfraquecia-me; pois me alimentava de frutos silvestres, de gafanhotos e de mel. Cada vez suportava menos o desconforto que, a princípio me atiçava o fervor. De noite, quando tinha frio, pensava em minha cama arrumada em casa de meu pai; quando estava em jejum, lembrava que, em casa de meu pai a abundância dos pratos sempre excedia a minha fome. Cedi: já não me sentia com coragem bastante para lutar mais tempo, com a força suficiente, e no entanto…
Então gostasse do gordo vitelo de ontem?
O filho pródigo arroja-se soluçando de rosto contra a terra:
Meu pai, meu pai! O gosto selvagem das bolotas de carvalho perdura ainda assim em minha boca. Nada conseguiria apagar-lhe o sabor.
Pobre filho! ― retoma o pai que o ergue pelo braço. Talvez te tenha falado com dureza. Foi teu irmão que o quis; é ele que quem dita a lei aqui. Foi ele que me intimou a dizer-te: “Fora de Casa não há salvação para ti”. Mas escuta: fui eu que te formei; sei o que há em ti. Sei o que te impulsionava para os caminhos; eu te esperava ao fim. Se me chamasses… eu estaria lá.
Meu pai! Teria podido encontrar-vos sem voltar?
Se te sentiste fraco, fizeste bem em vir. Chega por hoje repousa; amanhã poderás falar com teu irmão.


[Próximo capítulo: “A Reprimenda do Irmão Mais Velho”]


Guarabira, 03 de fevereiro de 2017

26 janeiro 2017

“Cui Bono?” (A Quem Beneficia?…)





O psicanalista e ensaísta da Folha de São Paulo, Contardo Calligaris, de formação lacaniana, em um artigo publicado hoje na Folha de São Paulo confirma o quanto somos guiados pelo princípio do PRAZER fenômeno observado e estudado minuciosamente por Freud e, mas do que nunca, em evidência nos meios familiares, sociais e políticos da atualidade. Diz ele, em conformidade com a metáfora 'mundo líquido' de Bauman: “há um tremendo prazer em saborear nossa capacidade de 'entender' o mundo, e tanto faz se a 'explicação' pouco ou nada tem a ver com a realidade”.

Contardo Calligaris, foi discípulo de Lacan, em Paris, e como tal, profundo conhecedor de suas ideias. Da existência de armadilhas que intermedeiam as ações e reações humanas, ele as reconhece em si mesmo. Ações que, por vezes, partem de nós, sem que haja o mínimo de reflexão. Reza a psicanálise que o segredo reside em nós, lá no lado avesso do bordado ou peça argumentativa que empreendemos. Ardorosamente desejamos, agimos ou reagimos para não pensar, como estivéssemos erigindo fortalezas a fim de que algo profundamente enraizado em nosso íntimo não apareça.

O fenomenal ensaio de Contardo, sob o título “Quem Matou Teori Zavascki?” demostra a existência de um caleidoscópio de elementos arcaicos que se movimentam dentro de nós à procura de uma solução que nos satisfaça.

É sobre as armadilhas do Desejo do Outro, em nós refletido, que o psicanalista Contardo Calligaris nos brinda com o antológico ensaio, abaixo replicado. Acho que vale a pena conferi-lo. 


 “QUEM MATOU TEORI ZAVASCKI?


 A última operação lançada pela Polícia Federal brasileira foi batizada "Cui Bono?" –"para o bem de quem?", "a quem beneficia?".
Quando se procura o responsável por um crime (ou por um fato que poderia ser um crime), quem sai ganhando poderia ser, no mínimo, suspeito. Não é?
De fato, a pergunta "a quem beneficia?", por si só, não leva ninguém a conclusão alguma.
Primeiro, um crime pode beneficiar a tanta gente que é impossível identificar, assim, o responsável. Segundo e mais importante, não somos seres racionais: não paramos de cometer atos que não nos favorecem e mesmo que nos prejudicam –por descontrole, vingança, rancor, amor, estupidez etc.
Na maioria dos casos, a pergunta "a quem beneficia?" só serve para produzir em nós a ilusão agradável de que compreendemos: de repente, a realidade pode ser "explicada" pelas supostas motivações dos indivíduos suspeitos. A morte de Teori Zavascki foi um acidente? Sim, claro. Como a morte de Juscelino, de Eduardo Campos etc. cui bono? Quem tinha interesse em atrasar a Lava Jato? Ou em destruir documentos que dizem que estavam na pasta do magistrado?
Sites, blogs, tuítes não precisam dizer quase nada explicitamente. Eles preferem fazer alusão a segredos que sequer precisam ser mencionados: entre "nós" um olhar basta, "eles" não vão nos enganar.
Essa preferência pela alusão evita o ridículo que, sem ela, triunfaria.
Pegue a simpatia declarada de Donald Trump por Putin. Acrescente a intervenção de hackers russos nas eleições dos EUA e eis uma mistura do seriado "The Americans" com o filme "A Profecia": desde criança, Trump seria um agente russo dormente que conseguiu entrar no establishment dos EUA a ponto de se tornar presidente do país. Não é boa?
Já escrevi isto antes: há um tremendo prazer em saborear nossa capacidade de "entender" o mundo, e tanto faz se a "explicação" pouco ou nada tem a ver com a realidade.
A ideia de conspirações escusas atrás de tudo faz sucesso desde o fim do século 18, quando a história ficou órfã de Deus. Desde então, adoramos descobrir ou inventar que mãos sangrentas operam escondidas nas coxias do nosso teatro: aparentemente, a paranoia nos consola de estarmos num mundo sem sentido.
Nas últimas décadas, duas datas. A partir dos anos 1950 e 1960 do século passado, as explicações paranoicas do mundo se multiplicam – talvez por efeito da Guerra Fria, em que a inimizade do outro lado podia explicar quase tudo.
Nos anos 1990, chega a internet. Torna-se fácil propagar ideias em comunidades em que todos concordam (com quem discorda não é preciso argumentar, basta bloquear). O consenso alimenta a certeza de cada um e a loucura das interpretações.
Como já dizia Nietzsche, comentando Hamlet no "Ecce Homo": "Não é a dúvida, mas a certeza que nos enlouquece".
Enfim, a paranoia é hoje o estilo mais popular de explicação do mundo. Isso porque o mundo é mais complexo do que nunca e topamos qualquer negócio para nos iludir quanto à nossa capacidade de explicá-lo. Certo? Sim, e a internet facilita essa ilusão.
Agora, talvez não seja só pela Guerra Fria que, nos anos 1950 e 60, tenha aumentado nosso gosto pela explicação paranoica do mundo.
Justamente nesses anos, no Ocidente, o amor dos pais pelos filhos se torna dramaticamente narcisista, ou seja, cada vez mais, os pais esperam que os filhos realizem seus sonhos frustrados. Cada vez mais, os pais amam os filhos como prolongamentos de suas próprias vidas –como segundas chances deles, dos pais, e não como seres separados.
Você acharia revoltante um pai ou uma mãe que tivessem um filho para encontrar na criança órgãos compatíveis com os seus, para transplante? Pois bem, o amor narcisista dos pais modernos é o equivalente psíquico dessa conduta.
O amor parental se tornou, ao mesmo tempo, excessivo e opressivo: você será o que eu preciso que você seja para realizar meus sonhos.
Logo no fim dos anos 1940, uma grande psicanalista, Melanie Klein, descobriu que, já no primeiro ano de vida, as crianças temiam ser odiadas pela pessoa que mais amavam. Ela chamou esse temor de "posição esquizoparanoide". Por que será?
Com os pais que temos e que somos, não é de estranhar que a paranoia se torne a maneira mais popular de tentar compreender o mundo.[Contardo Calligaris – Caderno “Ilustrada” Folha de São Paulo de 26 de janeiro de 2017]



P.S.:


A verdade nunca é toda. Sempre escapa um resto a demonstrar. Esse resto não pode ser encontrado, pois, sendo da ordem do inconsciente, se apresenta como um buraco ou furo que tudo suga para que nada possa aparecer. Na fala, a verdade reside no não dito pelo sujeito, e na escrita a verdade está nas entrelinhas do que se escreve. A angústia é resultado da impossibilidade de dizer toda a verdade que, por ser inconsciente, não pode ser dita por completo.

Quando alguém afirmar uma "verdade" sobre você, a maneira dolorosa, mas mais prática de reagir é proceder exatamente como Cristo o fez perante Pilatos: “Tu o Dizes!”



Guarabira, 26 de janeiro de 2017