10 novembro 2017

A “Suprema Compaixão” no Reino de Trump





Na cerimônia de posse do presidente republicano, Donald Trump, a pastora Paula White fez, em oração, esse pedido: “Deus misericordioso, revele ao nosso presidente a capacidade de conhecer a vontade, a sua vontade, a confiança para nos liderar e a COMPAIXÃO para ceder ante os nossos melhores anjos.” (Vide lin). 

Em seu discurso de posse, Trump bradou: “Essa carnificina americana termina aqui e agora!”. As tiradas de cunho xenófobo do presidente recém eleito, não se constituem surpresas: as profecias anunciadas durante sua campanha já tratavam do pacote de maldades que viria à baila, assim que o resultado das eleições fosse oficialmente confirmado. 

O “novo-velho” messias da hipermodernidade americana, em seus discursos fundamentalistas, prometia devolver a “Terra Prometida” aos americanos, ao mesmo tempo, cheio de empáfia, ameaçava expulsar e devolver os imigrantes a seus países de origem. Achando pouco, para gáudio dos ”compassivos” da nação que o apoiou, fomentava a construção de um muro de separação na fronteira de seu reino com o México.

A prece da pastora implorando a Deus o derramamento da compaixão no coração empedernido de Trump trouxe a minha memória dados estatísticos sobre esse afeto à moda americana que o escritor e historiador inglês, Theodore Zeldin, em Uma História Íntima da Humanidade” (obra antológica escrita há mais de setenta anos), tão bem dissecou. Saliente-se que as referências estatísticas desse autor, apesar de serem antigas, na atualidade permanecem praticamente incólumes. Sobre a Compaixão Americana, disse Theodore, de forma contundente:

Hoje em dia, 45% de todos adultos se engajam em trabalho voluntário, ajudando os outros pelo menos cinco horas por semana. Mas a maior parte deles(54%) acredita que as pessoas, em geral, atraem sofrimentos e que a caridade não é uma resposta, mas apenas um curativo temporário. Dois terços dos americanos consideram importante não se envolver muito nos problemas alheios: antes de tudo, convém cuidar de si mesmo e, se ainda lhe restar força, então ajude os outros. […] Ficou demonstrado que os frequentadores de igrejas não são mais compassivos do que aqueles que não as frequentam; não param para prestar socorro a um garro enguiçado nem cuidam de parentes idosos com mais frequência. Alguns apreciam aquela sensação de 'amaciar o ego' ao serem tidos como generosos, ou heróicos, e se sentem aventureiros quando demonstram misericórdia; é o espírito de aventura o que mais o estimula. Nos velhos tempos, os americanos tentavam ser compassivos, em obediência aos mandamentos de Deus. Agora, valem-se mais frequentemente da terapia para explicar seus motivos: a caridade lhes faz bem, melhora a imagem que fazem de si”.

Vez por outra estamos a confundir “compaixão”, com “pena”(dó). Compaixão, seria sentir com o outro, sofredor. O sentimento que expressamos como pena, por sua vez, poderia dar a ideia de algo partindo de um ser em condição mental superior para um ser em estado psíquico inferior. Mas a pena que sentimos do outro que sofre, pode perfeitamente ser uma ressonância ou consequência de um acontecimento doloroso vivido em nosso passado de criança ou de adolescente. No caso, esse sentimento estaria mais para a compaixão, se por compaixão entendêssemos a repetição imaginária de algo doloroso vindo dos recônditos de nossa psique. A situação daquele que sofre, detonaria em nós o gatilho de um despertar. Seria o caso de se dizer que o afeto da compaixão, volta e meia, a nós retornaria no encontro com o outro que no presente padece; as dores do outro corresponderiam às dores primevas, quem sabe, relativas às coisas aparentemente esquecidas, mas poderosamente arquivadas nos porões do nosso sombrio inconsciente.

Mas há outras modalidades forçadas da “generosidade compassiva”, que talvez estejam a balançar os corações dos republicanos que elegeram Donald Trump. Por se situar dentro do jogo do poder terreno, e ser de natureza interesseira, essa modalidade de compaixão está mais para uma farsa.

Como bem sabemos, a “generosidade compassiva” pregada pelas religiões dominantes, em sua prática, carrega o cheiro da vaidade. No discurso da religião oficial pedagógica americana do Reino de Trump, esse afeto “generosamente compassivo”, traduzido pelo lado avesso, busca, sobretudo, a admiração das pessoas, reforçando a vaidade ou o caráter mercantil e fundamentalista de grande parte da suprema membresia republicana.

Na verdade, o mote de fundo puritano “América para os Americanos” , brandido pelo presidente, assemelha-se muito ao apregoado por Hitler: o Führer alemão no passado de tão triste memória, invocava a pureza da raça ariana, em detrimento dos judeus e demais minorias. Hoje, na esteira da xenofobia trumpiana, ganha terreno uma compaixão às avessas assumida de forma egocêntrica pelos ativistas da supremacia branca dos EUA. Recentemente, a cidade de Charlottesville(EUA) serviu de palco para a explosão de ódio por parte de "brancos supremos" contra negros e judeus.

Ao que parece, a Era Trump veio despertar, em um suposto povo divinamente escolhido para mandar e desmandar na América, a adormecida intolerância contra os considerados hereges e os rotulados de “raça inferior”. No entanto, quando esse “povo de sangue supremo” planeja a purificação de seus pecados ou podridões, são exatamente os marginalizados que são usados por ele como “bode expiatório”(no ritual de purificação praticado pelo povo hebreu, um bode era escolhido para carregar os pecados da comunidade. Depois, o animal era abandonado no deserto, para que os males nele projetados ficassem bem distantes do “povo sagrado”).

Na visão radical do todo-poderoso, Trump, a compaixão é entendida pelo avesso: os oprimidos não são os estrangeiros que vivem nos EUA, são os americanos ressentidos que perderam um pouco de suas riquezas, e agora culpam os imigrantes pelo seu estado atual. Mas, no Velho Testamento há uma passagem bastante interessante, um conselho dado ao povo escolhido de Javeh, para que pudesse manter o passado bem vivo em sua mente, quando acolhido foi em terras estranhas (Egito). No entanto, hoje, em benefício próprio, os remanescentes desse povo preferem se fazer de cegos para aquilo que os escribas, a respeito do sentimento compassivo, deixaram escrito no Livro Sagrado(Torah) do Deus a quem supostamente seguem:

Ao estrangeiro não maltratarás, nem o oprimirás, pois vós mesmos fostes estrangeiros na terra do Egito.” (Êxodo 22: 21)


Por Levi B. Santos
Guarabira, 10 de novembro de 2017

Site da Imagem do topo: vestibular.uol.com.br/resumo-das-disciplinas/atualidades/preconceito-a-supremacia-branca-e-o-racismo-nos-eua.

02 novembro 2017

Das Vaidades Últimas


....                                                     [...]Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. (Eclesiastes 1:2)





Vaidade, sorrateiro sentimento do coração humano.
Tem às vezes aparência de uma virtude em excesso.
Mas o maior dos vaidosos, não admite a vaidade;
Não sabe que nasce com ela. E ela se acaba nele.
Até mesmo na humildade, ela está à sua espreita.
É a companheira sombria, misteriosa e esquisita.





De todas as paixões, é ela a que mais se esconde.
Até as ações mais pias, podem nascer da vaidade.
Quem tem não a conhece, tampouco a distingue,
É como espelho de grau que aumenta nossa forma.
É um instrumento que tira dos olhos nosso defeito,
Ao mesmo tempo expõe os defeitos que há no outro.





Das vaidades últimas, ela é vanglória antecipada,
Ao sermos despejados de volta solene à terra.
A vaidade está presente até mesmo na agonia,
Enriquecendo de adornos o pobre vil moribundo.
Como se na hora fatal, o morrer não fosse nada,
E o nosso mundo de coisas, pudéssemos conduzir.





Vaidades das vaidades. Em tudo está a vaidade.
Vaidade que se nota até nos últimos suspiros,
Ela está nas pompas frias da derradeira partida,
Está na lápide brilhante de um branco mausoléu,
Está nas letras inseridas na pedra fria marmórea;
Na suntuosidade do túmulo, a inspirar veneração.





É como um sonho infinito de desejo recorrente,
Encastelado no centro da moldura imaginária.
Até no nobre ataúde, a vaidade está presente,
Até mesmo na antevisão do nicho no altar-mor.
É nos mórbidos preparos da funesta caminhada,
Que o ser inconsciente desfruta a vaidade última.




Versos por Levi B. Santos
Guarabira, 28 de Dezembro de 2008

09 outubro 2017

Em Tempos de Banquetes com Facas Pontiagudas (Reflexão)





No momento em que a sociedade, especialmente na figura dos três Poderes da República, exibe uma confrontação na “base do quem pode mais?”, nunca é demais lembrar uma emblemática invenção ocorrida no século XVII:

Se hoje comemos com facas de ponta arredondada — e um dia ela já foi pontiaguda —, devemos isso ao cardeal Richelieu. Ele mandou arredondar a ponta das facas para que os nobres participantes dos banquetes não se cutucassem indevidamente”.

Dois grandes banquetes acontecerão em nossa republiqueta: Um na quarta-feira (dia 11) no palco do STF, e outro na quarta-feira seguinte (dia 18) na Arena do Senado. Há quem acredite que o espírito do cardeal Richelieu vai baixar nas duas mega-atrações gastronômicas. O nó é que no país “eminentemente cristão”, como acontece sempre nos grandes embates futebolísticos, se espera que Deus dê uma mãozinha ou vitória para um dos lados.

Um argumento do rabino, Nilton Bonder, da congregação Israelita do Brasil, cai bem nesses tempos agudos de guerra de egos. Ele dizia que o Triunfo representava a mais efêmera das seguranças. Baseando-se nos embates dos judeus com assírios, gregos, romanos, bizantinos, cruzados e otomanos, concluiu que a vitória é uma metáfora recorrente de que o vencedor de hoje é o derrotado de amanhã.

Não haverá paz enquanto ambos, ou melhor, todos os lados interessados não forem derrotados. Uma derrota na expectativa de triunfo de todos é a única esperança. — finalizou, de forma contundente, o rabino em seu ensaio - “Tolerância e o Outro”. [Judaísmo Para o Século XXI – Jorge Zahar Editora]

Mas voltemos a nos deter sobre a metáfora — “faca pontiaguda” —, dos banquetes recém-encomendados em nosso efervescente mundinho político. Essa expressão metafórica me trouxe a lembrança uma gíria, hoje, muito usada nas redes sociais; trata-se do termo “lacrar”. Para os internautas, essa expressão representa a última fala ou a última palavra a ser dita para lacrar ou fechar determinada discussão ou debate. O que o ente virtual das redes talvez não saiba é que a estocada da faca pontiaguda, provavelmente, não será fatal, pois, sobre o que for decidido, o tempo logo se encarregará de cicatrizar a ferida narcísica. Isso significa que nenhum debate/embate pode ser encerrado por força de um argumento; ainda mais quando se sabe que em tempos de contaminação ideológica, esse vírus cerebral endêmico, anda a invadir as cabeças dos mais destemidos baluartes de nossa “democracia tupiniquim”.

Para o psicanalista Jacques Lacan, há sempre um furo, da ordem do indizível, naquilo que se declara como verdade, ou seja, “quanto mais o sujeito tenta resgatar a si mesmo, buscando a verdade de sua conduta, mais depara com algo não seu, que vem do outro”.

Pensando bem, é em momento de severas crises ou de graves tensões, que poderosas influências ou ressonâncias vindas dos recônditos do nosso aparelho psíquico, afluem para o terreno escorregadio da consciência, como se estivessem a desmentir a nossa lógica comum de que somos seres imparciais.

Ainda divagando sobre a metáfora “faca pontiaguda” (ou espada), nunca é demais lembrar o mitólogo americano, Joseph Campbell que, embasado na psicologia junguiana resumiu tudo o que aqui escrevi, de uma forma maravilhosamente cristalina: “No Reino humano, abaixo do solo do comparativamente ordeiro e pequeno recanto que chamamos consciência, encontram-se insuspeitas cavernas de Aladim”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 09 de outubro de 2017


Site da Imagem:eventbrite.com.br/blog/pre-evento/mais-estilos-de-montagem-para-seu-evento

24 setembro 2017

Um Duro Recado




Em seu artigo de última página da Revista Veja que saiu às bancas hoje, (dia23), o ensaísta J. R. Guzzo faz eco a um recado inusitado dado por um General da ativa do Exército aos três poderes da República, quando do alto de seu cargo, assim se referiu de forma contundente: “ou as instituições solucionam o problema politico, pela ação do judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos de impor isso”. “O alto comando tem 'planejamentos muito bem feitos' para esse objetivo, ele confirmou que os militares não vão ficar assistindo em paz ao apodrecimento simultâneo do Executivo, Legislativo e Judiciário por causa da corrupção, deboche e impunidade de uma vida pública cada vez mais depravada” ― escreveu Roberto Guzo em um momento emblemático do seu texto, sob o título “Chegará a Hora”.

Está bom assim ou precisa mais?” ― pergunta o autor, a certa altura do seu ensaio-alerta, para em seguida acrescentar: “Havia mais de 30 anos seguramente, não se ouvia um oficial superior dizer nada parecido, nem de longe, sobre as misérias da política brasileira e a possibilidade de 'chamar a tropa' para resolver as coisas".

Mesmo sem povo nas ruas, é mais que evidente a indignação daqueles que trabalham e veem parte de seus impostos espalhada no chão de um vasto apartamento, sem que até agora, os destinatários da grande bolsa bilionária tenham aparecido para relatar toda a trama perversa de que foram autores. É bom lembrar, nessas horas sombrias, o que disse o psicanalista Jorge Forbes, sobre a VERGONHA : A pessoa deve apresentar alguma coisa que, se perdida, a vida não vale a pena”.

Se a Vergonha for atropelada pelo cinismo, ressonâncias de um tempo pesadamente triste de nossa história recente continuará a pairar perigosamente sobre nossas cabeças.


Guarabira, 23 de setembro de 2017

06 setembro 2017

O Que Não Me Contaram na Escola Sobre o “Grito do Ipiranga”



Em plena tarde do dia 07 de setembro de 1822, D. Pedro I que saíra de Santos para resolver uma pendenga entre dois grandes partidos políticos de São Paulo, foi surpreendido por cólicas atrozes seguidas de numerosas evacuações intestinais. Várias vezes o príncipe apeou-se de sua mula baia, para entre uma ida e vinda no matagal da beira da estrada bem perto do Riacho do Ipiranga, expelir o abundante material fecal infectado de seus inflamados intestinos, fruto, talvez, de alimentos contaminados ingeridos com sofreguidão no dia anterior. Foi em meio a essa agonia tremenda que, tonto e debilitado pelo quadro de desidratação, dirigiu-se ao Padre Belquior —, peça importante de sua pequena e simples comitiva.
E agora, Padre Belchior? ― disse com voz fraquinha, D. Pedro I (pálido e suando frio, incomodado por ardências provocadas pelas fezes ácidas).
Não há outro caminho, que não seja o de cortar as relações da colônia com Portugal ― retrucou de modo incisivo, o padre amigo, pouco antes de receber uma missiva de D. Leopoldina que fazia referência a um pomo maduro a ser colhido rapidamente.
D. Pedro caminha alguns passos (trôpegos). De repente estaca diante dos animais (que, provavelmente estavam comendo capim à beira da estrada), e diz (com fala trêmula, já bem enfraquecido pela intensa disenteria):
Nada mais quero com o governo Português…


P.S.:
Segundo a pesquisadora Cecília Helena Salles de Oliveira, “a data 7 de setembro não foi considerada, de início, particularmente relevante como marco simbólico da formação da nação, nem pela imprensa, nem pelo próprio D. Pedro”. [História Viva/Dueto Editorial]
66 anos após o grito (que não houve – grifo meu), Pedro Américo se ofereceu para fazer a obra e ganhou uma boa quantia pela encomenda: 30 contos de réis – como comparação, em 1888, o governo de São Paulo aplicou 22 contos de réis na área da saúde. Na época, muitos políticos achavam que não seria preciso pedir a alguém de fora para fazer o quadro (Américo já vivia na Itália), mas, como tinha amigos influentes, ele conseguiu a indicação” [Vide: História Pensante]
O grito farsesco da narrativa oficial inaugurada pelas elites em sete de setembro de 1822, em pouco mais de sete anos, novamente sem a participação popular, foi encenado no Rio de Janeiro, naquilo que denominaramProclamação da República” (15 de novembro de 1889). Do Grito (que não houve) de D. Pedro I à badalada “Reforma Política” dos dias atuais, lá se vão 195 anos de histórias mal contadas.


Site da Imagem do Topo: novarussanostrilhos.blogspot.com.br

Levi B. Santos
Guarabira, 06 de setembro de 2017

14 agosto 2017

Pressupostos Subjetivos Comuns ao Cristianismo e ao Comunismo — Um Olhar de Slavoj Zizek (*)




A Abordagem realizada por Jacques Lacan, redimensionando a obra de Freud na pós modernidade, levou o filósofo Slavoj Zizek a uma aplicação dos conceitos psicanalíticos lacanianos no âmbito do cristianismo e do Comunismo. Como socialista, filósofo e psicanalista, Zizek, insiste em ver algo comum nessas duas instâncias. Ele atesta que há nos indivíduos um elemento subjetivo por demais semelhante a uma ideologia —, que os impulsionam a dar suas próprias vidas em prol de uma elevada causa. Esse pressuposto subjetivo que no cristianismo é simbolizado pelo “Espírito Santo”, Zizek dá o nome de “ente virtual”. Na linguagem lacaniana, Cristo seria o “objeto parcial de Deus”“um órgão autônomo sem corpo, como se Deus arrancasse os olhos da própria cabeça, e os virasse para si mesmo de fora.”

No início da revolução russa, a efervescência comunista tinha o mesmo efeito catártico da religião cristã. Conta Zizek que enquanto Lenin discursava para as plateias de camponeses e congressistas, havia sempre entre eles, cartazes portando um slogan roubado inconscientemente da seara do cristianismo, com os seguintes dizeres: “O Reino dos operários e camponeses durará para sempre”. Não precisa ser psicanalista para perceber que essa significativa frase dos revolucionários comunistas revela, mais que tudo, um padrão-ideal latente, análogo ao da religião cristã. Esse fenômeno típico do cristianismo, queira ou não queira, continuará persistindo na subjetividade daquele que se considera comunista. De forma subjetiva (inconscientemente), esse arquétipo permeia o coração dos camponeses socialistas, como se fosse o eco da citação do salmista Davi: “Porquanto o Reino de Deus é eterno, e seu domínio perdura por gerações e gerações” (Salmo 145: 13).

Segundo Zizek, “Trotski estava certo quando disse que o homem não vive apenas de política, fazendo uma clara alusão à história da Tentação de Jesus no Evangelho de Mateus, visto que o homem não vive apenas de pão, mas de cada palavra pronunciada pela boca de Deus”. Lenin, não valorizava os elementos de fundo religioso que permeavam a consciência dos trabalhadores porque, com certeza, ignorava que os arquétipos cristãos fizessem parte de uma estrutura indestrutível na psique dos revolucionários soviéticos; não sabia que os camponeses estavam a elaborar apenas um movimento racional/reacionário a um componente subjetivo enraizado nas profundezas de suas próprias mentes.

Segundo Engels, os princípios fundamentais extraídos do livro “O Capital” de Marx, por mais paradoxais que sejam, tinham uma relação intrínseca com os pressupostos do Cristianismo. Talvez resida aí o motivo pelo qual o livro por excelência dos países socialistas do continente europeu, tenha sido denominado — “A Bíblia da Classe Operária”. Não foi a toa que o papa Francisco, o mais nobre representante do Catolicismo, fez a recente declaração: “são os comunistas os que mais pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade onde os pobres, os frágeis e os excluídos sejam os que decidam. Não os demagogos, mas o povo, os que têm fé em Deus ou não.”

Para realçar o fenômeno de natureza subjetiva presente tanto naquele que professa o cristianismo quanto naquele que o nega, Zizek, faz alusão ao filme “Câmara-Olho” (1924), clássico do cinema mudo, de Dziga Vertov, o qual faz referência a autonomia dada ao olho de uma câmera para vaguear e observar o regime da União Soviética de 1920 no que diz respeito a sua situação política e econômica. No filme, em consonância com a expressão “lançar os olhos sobre algo”, Martinho, mítico personagem dos contos de fadas franceses, para encontrar uma esposa resolve atender o pedido encarecido de sua mãe: foi “passar os olhos nas moças” que rezavam na igreja. Para isso, Martinho vai primeiro no açougueiro e compra um olho de porco e joga sobre as moças. À sua mãe, Martinho dirá depois que elas não ficaram impressionadas com sua atitude.

Zizek toma o filme como pano de fundo para suas incursões filosóficas sobre o Olhar animal do Outro”. Sobre a experiência do “olhar”, ele conta que, certa vez, para examinar um caroço em um lado de sua cabeça, teve que fazer uso de um espelho duplo. Foi surpreendido, ao ver de soslaio, em um dos espelhos, seu perfil olhando para ele mesmo na superfície do outro espelho. Uma situação inusitada em que o sujeito ver a imagem especular dele mesmo como se tivesse sido arrancado para observar de fora, a si mesmo. Diz, Zizek: “era como meu olhar não fosse mais meu, como tivesse sido roubado de mim”. Recorrendo à psicanálise, acentua que Lacan denominou “objeto pequeno a” a essa parte de nossa imagem em perfil, refletida em uma das faces do espelho duplo —, percepção imagética que escapa à relação simétrica que experimentamos diante de um espelho-uno.

Algo homólogo ao dogma da encarnação cristã, Zizek viu na película cinematográfica —, assemelhando-se a experiência de ser surpreendido por um olho desvinculado de seu próprio corpo, a observá-lo à distância. No cristianismo, são os olhos do Senhor que se exteriorizam para observar o homem de fora para dentro de si: “Os olhos do Senhor estão em toda a parte. Ele observa atentamente os bons e os maus” (Provérbios 15: 03). No comunismo os “olhos do Senhor”, representado por pressupostos coletivos (os utópicos desejos de bem-estar geral da Nação ou do Regime) é o seu Deus.

Nietzsche, em seus últimos momentos de vida reflexiva, percebia em si um Deus morto: rabiscava em seus papéis: “Deus está morto”, mas, paradoxalmente, assinava embaixo a palavra “Cristo”. Freud, era um “ateu estranho”: muito embora não se submetesse ao ritual sagrado do judaísmo protegia em sua subjetividade a função paterna. Considerava que essa origem simbólica patriarcal remontava à morte do Pai da horda primitiva, pelos filhos. No entanto, não foi Freud e sim Lacan, que imortalizou a célebre frase: “a verdadeira fórmula do ateísmo é que Deus é inconsciente”.

Digna de registro é essa categórica declaração de Zizek: apesar do comunista/ateu na vida pública professar seu ceticismo, continua acossado pelas crenças e proibições severas. O ateu moderno pensa que sabe que Deus está morto; o que ele não sabe é que, inconscientemente, ele continua acreditando em Deus. O que caracteriza a modernidade não é mais a figura-padrão do crente que nutre em segredo dúvidas íntimas sobre sua crença e se envolve em fantasias transgressoras. [...]O Espírito Santo na Teologia Cristã é um “ente virtual” no sentido de que seu status é o de um pressuposto subjetivo: Ele só existe na medida em que os sujeitos agem como se Ele existisse. Seu status é semelhante ao de uma causa ideológica como o Comunismo. […] Depois da crucificação, da morte do Deus encarnado, o Deus Universal retorna como Espírito da comunidade de fiéis, isto é, Ele é quem passa da existência como realidade substancial transcendente para um ente virtual ou ideal que só existe como “pressuposto” dos indivíduos que agem.

Zizek se vale dos símbolos do cristianismo para demonstrar que o comunista não é, em sua essência, tão diferente do cristão. Ambas as instâncias, por um viés utópico, idealizam seus anseios e desejos mais profundos. Infelizmente o Marxismo parece não ter assimilado essa kenosis: o de estar tão próximo da substância divina e imaginá-la, ao mesmo tempo, tão distante.

(*) O ensaio acima postado foi baseado nos dois capítulos: “O Cristianismo Contra o Sagrado” e “Apenas um Deus que Sofre Pode nos Salvar” — do Livro “O Sofrimento de Deus” — de Slavog Zizek (Edição 2015 - Editora Autêntica).


Por Levi B. Santos
Guarabira, 14 de agosto de 2015


07 agosto 2017

A Alma Dúbia dos Poetas




Na medida em que evidencia um elemento comum às artes e à religião, uma recente afirmação do filósofo suíço, Alain de Botton, se presta bem ao entendimento da fonte onde brotam os afetos paradoxais que habitam a alma humana. Disse ele: “Tanto na religião como nas artes há um elemento catártico”.

O personagem Sócrates já definia o poeta como sagrado. Sagrado, por ser incapaz de produzir se o entusiasmo não o arrastar e o fizer sair de si mesmo. Paradoxalmente, é o mesmo Platão que distingue no poeta um outro polo (o antagônico e demasiadamente humano), ao declamar que o seu delírio é um sinal de posse demoníaca.

O nosso poeta Olavo Bilac, por sua vez, fez uma síntese representativa dos polos ambivalentes da alma. Num rasgo bem humano, descreveu brilhantemente seu dualista coração:

E no perpétuo ideal que te devora/ residem juntamente no teu peito/ Um demônio que ruge e um Deus que chora.”

O poeta Ferreira Gullar que se definia como ateu, em seus versos, dizia que em si existia uma parte desconhecida. Não importa o nome que se dê a esse desconhecido. Mesmo que se venha nomear esse lado desconhecido, ele será sempre um enigma. Não importa que, através de uma racionalização defensiva, o poeta chegue a se declarar: “eu sou isso; ...sou aquilo”. Para além das respostas racionais/reacionais, o que importa é que na ânsia de traduzir-se, o poeta exprima em metáforas a dualidade de seus sentimentos, como a que está presente nessa poética estrofe:

Uma parte de mim é permanente/ Outra parte se sabe de repente”

Em outras palavras, Gullar talvez quisesse dizer: Uma parte de mim é previsível. Outra parte de mim é desconhecida de mim mesmo, por isso me surpreende. Freud diria: uma parte de nós é consciente/ Outra parte de nós é inconsciente. Jung diria: Uma parte de nós é transparente/ Outra parte de nós é transcendente.

O advento da psicanálise veio demonstrar que a certeza de que o homem é senhor de si mesmo caiu por terra. Abriu-se então o véu para se ter acesso aos recônditos mais profundos da mente, e com isso, se chegar a conclusão de que as ideias e pensamentos recalcados no início de nossa formação biopsíquica continuam a participar de nossa vida mental de adulto. Hoje, sabe-se perfeitamente que o homem das artes (principalmente o poeta) em seus devaneios, usa incessantemente o material recalcado nas profundezas abissais de sua psique. As ideias que passam pela cabeça do poeta no presente e levadas para o porvir estão, na verdade, atreladas a um passado indeletável. Em vão, o artista consegue tomar partido de um dos lados ou pólos ambivalentes de sua alma. Ele será duplo até o fim, pois grande parte do que fala e escreve e o motiva provêm de um mundo ambíguo, recalcado na infância.

Não poderia deixar de aqui ressaltar que é do poeta rotulado ateu, Fernando Pessoa, a mais humana e mais bela narrativa que um cristão jamais ousou fazer sobre o menino Jesus, digna de ser canonizada. (Vide link: “A Mais Bela História de Um Poeta Ateu”)

Conta-se que o Poeta Mário Quintana não acreditava em Deus, mas não dizia isso para não ofender a Nossa Senhora e ao Menino Jesus. Na verdade, os versos de Quintana, com naturalidade e graça, mostram, mais que tudo, elementos antagônicos de seu ser duplo: um mais vestido para apresentação e outro simbolizado como o mais nu dos animais. No poema “Crenças” ele explica o por que” do respeito aos sentimentos dos outros. Foi da lama de seus pensamentos primevos afetos adubados pelas histórias religiosas contadas por seus pais , que Quintana produziu preciosas metáforas sobre nossa natureza dúbia. Afinal, é na poesia que a sujeira do barro e a pureza da água que nos mata a sede, se juntam à elevada linguagem do “céu”.

O religioso fundamentalista pode até se escandalizar com esse verso de Quintana que reproduzo abaixo, mas duvido muito que cada um, lá dentro, não perceba escondido ou quase em oculto, o tal porteiro Glicínio ̶ personagem do mundo pueril e mítico do poeta. Basta voltar a ser criança de novo para, enfim, imbuído de coragem e humildade poder retirar do baú das reminiscências infantis o material dissonante de que fomos forjados. Depois, é só montar as peças, uma por uma, e estará pronto, na imaginação, o reino encantado, onde heróis e vilões coexistem, trocando de papéis ao sabor das circunstâncias.

CRENÇAS”

Seu Glicínio porteiro acredita que rato, depois de velho, vira morcego.

É uma crença que ele traz da sua infância

Não o desiludas com teu vão saber,

Respeita-lhe os queridos enganos:

Nunca se deve tirar o brinquedo de uma criança

Tenha ela oito ou oitenta anos!
[Mário Quintana]
Levi B. Santos
Guarabira, 07 de agosto de 2017



21 julho 2017

O Terrível e Venerado Jararaca do Cangaço





Nas palavras do historiador potiguar, Luís da Câmara Cascudo, “José Leite de Santana, era um homem forte, resistente, ágil, moreno escuro, atirador exímio, grande lutador de faca”. Talvez por seu instinto predominantemente cruel, tenha recebido o apelido Jararaca.

Jararaca era um dos mais temíveis do bando de Lampião. A jornalista e ensaísta, Adriana Negreiros, em um artigo sobre os “Anais do Cangaço” publicado na Revista Piauí nº 130(de julho de 2017), conta que Jararaca, homem acostumado a beber mais cachaça que o recomendado, liderava um dos grupos mais ferrenhos dos bandoleiros de Lampião, por ocasião da invasão sem sucesso da cidade de Mossoró – RN, em 1927.

O certo é que após muitas escaramuças o bando de Lampião foi derrotado pela milícia estadual de Rodolfo Fernandes. “Jararaca foi atingido por um tiro no peito. Mesmo machucado e ainda embriagado, conseguiu levantar-se e correr, ocasião em que levou outro balaço na coxa”.

A cela em que Jararaca ficou trancado tinha grades que davam para a rua. Centenas de Mossoroenses amontoavam-se em frente ao local para ver um cangaceiro de perto, como um leão feroz preso a uma jaula de zoológico. Enchiam-lhe de perguntas. Queriam saber quantos homens já havia matado. Se amealhara fortuna no cangaço. Quais eram seus arrependimentos. Até hoje, corre a lenda que, nesse momento, Jararaca teria confessado sentir um único remorso: de aparar crianças com a ponta do punhal. […] O preso revelaria detalhes operacionais da tentativa de invasão de Mossoró. O jornal Correio do Povo traria uma entrevista bombástica com Jararaca: ao repórter, o bandido citara nomes de políticos e coronéis nordestinos que davam proteção e recebiam dinheiro de cangaceiros”. Segundo a autora, Kydelnir Dantas, membro da Sociedade de Estudos do Cangaço, lembra que um dos comandantes da resistência, sustentou que Jararaca havia sido morto com uma coronhada do fuzil de um policial, sem que seu corpo sofresse qualquer decepação. Esse depoimento consta do livro “Lampião em Mossoró”.

Adriana Negreiros que, em 2018 lançará uma biografia da cangaceira Maria Bonita pela editora Objetiva, sobre o herói/vilão Jararaca, faz uma narrativa digna de nota em seu artigo à revista Piauí: Mossoró (RN) tem, de fato, uma relação dúbia com os cangaceiros. 'Chuva de Bala no País do Mossoró', espetáculo teatral em que cerca de oitenta atores encenam a expulsão de Lampião, tratando o intendente Rodolfo Fernandes como herói, é um dos pontos altos da programação cultural da cidade, atraindo multidões de espectadores de toda a região”.

Na Mitologia, a Serpente representa ao mesmo tempo "a vontade de avançar e a vontade de recuar", coisa que devia estar bem presente na psique do temível bandoleiro, Jararaca. Reza a psicologia que essa ambivalência(sentimentos paradoxais) é uma característica indelével do ser humano. 

Diz então, Adriana Negreiros em seus anais do cangaço: o personagem Jararaca depois de ter sido preso, julgado, condenado sem que tivesse defesa, noventa anos depois de enterrado foi inocentado através de um julgamento simulado ocorrido em junho de 2017 na demasiadamente humana Mossoró. Um conselho de sentença, formado por um advogado, um padre, um jornalista, um médico e outros representantes da sociedade mossoroense, pelo placar de 6X1 absolveu o cangaceiro Jararaca.

A temperatura da inusitada e risível descrição da ensaísta chega a um ponto efervescente: “Encerrada a audiência, o juiz, alguns jurados, advogados e jornalistas reuniram-se para almoçar num restaurante especializado em costela da javali. 'Fiquei surpreso com o resultado' disse o juiz Breno Fausto, enquanto esvaziava uma concha de feijão-verde no prato. 'Mossoró é um cidade peculiar. Ao mesmo tempo que se orgulha da resistência absolve um cangaceiro', comentou o juiz'”.

No cemitério de São Sebastião, a uma distância de 10 metros um do outro estão, hoje, o túmulo de Jararaca (o herói do Cangaço) e o túmulo de Rodolfo(o herói da resistência), ambos ostentando em suas superfícies de lousa fria e lisa, flores de variadas cores. A professora Ludmilla Oliveira que participou do juri simulado do famoso Jararaca saiu-se brilhantemente com essa: “Trata-se de um simbolismo. Os resistentes não venceram qualquer um. Venceram Lampião, O rei do Cangaço”. Não ficou para trás a prefeita da cidade, quando agradando a gregos e troianos, assim terminou seu discurso: “O maior resultado do julgamento é o resgate da história da Resistência, independente da absolvição ou condenação”.

Site da Imagem do Topo: https://www.folhetoteca.com.br/marca/costa-senna.html


P.S.:

[Resenha - com citações de trechos do insuperável artigo de Adriana Negreiros, sob o título ― “O Julgamento de Jararaca”. O texto integral, composto de 14 colunas, encontra-se a disposição dos leitores na Revista Piauí nº 130]

Quis o destino que o Juri simulado de Jararaca ocorresse no mesmo dia em que, em Brasília, encerrava-se o julgamento da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral” (Adriana Negreiros).

O vídeo abaixo replicado mostra a repercussão do Juri de Jararaca (o cangaceiro que virou santo) em rede televisiva no Rio Grande do Norte



21 junho 2017

O Lado A e o Lado B





Enquanto lia o ensaio de Luiz Felipe Pondé O Lado B da Democracia no caderno “Ilustrada” da Folha de São Paulo de 12 de junho de 2017, veio a mente os discos de vinil que nos anos sessenta comprava na famosa Loja Olacanti em Campina Grande – PB, a 60 km de minha terra natal (Alagoa Grande – PB). Como no local onde morava não havia lojas de produtos musicais, era para a cidade denominada "Rainha da Borborema" que me dirigia a procura dos últimos lançamentos da MPB.

Aprendemos que era no lado A do disco de vinil que, geralmente, se concentravam os melhores ou mais populares sucessos dos artistas/cantores. Para que escolhêssemos o disco dos nossos desejos, o vendedor, de tão acostumado, passava pela agulha da radiola apenas duas ou três faixas musicais do lado A, as quais, ouvíamos com sofreguidão. O lado B, de um modo geral, era relegado a um segundo plano, por conter canções não muitos tocadas no mundo midiático das emissoras de rádio. A mídia muito poderosa punha no lado A do disco as músicas “carros-chefe”, anteriormente propagadas com intensidade, com a finalidade de atrair a nossa percepção psíquico/auditiva. Aqui ou acolá, nos surpreendíamos com uma melodia feia mas com letra fenomenal no lado B do disco. Mas isso era uma exceção.

Para um melhor entendimento da analogia que faço dos fantásticos discos de radiola do tempo de minha mocidade com a democracia atual, uma inversão se faz necessária: o lado B do disco metafórico da democracia analisada por Pondé, corresponderia ao lado A do vinil que tanto esforço demandava para comprá-lo.

O filósofo e ensaísta da Folha, em seu profundo e maravilhoso artigo, vai ao âmago daquilo que provoca nossas escolhas, ao citar uma frase do cineasta Woody Allen, em “Crimes e Pecados”: o que buscamos na maior parte das vezes são racionalizações que justifiquem nossos desejos”.

Nunca se falou tanto em democracia, ética e moral quanto nos tempos sombrios e conflituosos de nossa atual e conturbada república. O ensaísta Pondé, com sobejada razão, mostra que é num lado de nosso frágil e utópico regime, que se concentra um populismo altamente contagioso: “O populismo se alimenta de nossa infantilidade. Queremos soluções claras e distintas para confusa realidade em que vivemos. Alguém que coloque Brasília em ordem, alguém que faça justiça. O trono por excelência do amante do populismo é a cadeira da sua sala de casa, na frente da televisão, xingando todo mundo”.

Como não concordar com a magistral declaração de Luiz Felipe Pondé, desenho de nossa própria cara, acima reproduzida? O autor, em sua narrativa feita na primeira pessoa do plural (especialmente no desfecho do seu frio e cortante texto), nos impele a uma espécie de auto-imolação:

A vocação primeira da democracia é o populismo. Só com muito esforço resistimos a ele porque a política é confusa, ambivalente, sombria, retórica, suja, enfim, humana, demasiadamente humana. […] A sabedoria está nos detalhes e a fúria política popular não tem vocação aos detalhes, mas apenas a shows, fogueiras e linchamentos.”

A democracia tem dois lados porque o homem é ambivalente. O equilíbrio nunca virá se ficarmos só endeusando o nosso lado A e, por ser obscuro, relegando indefinidamente o nosso lado B.

O nosso lado B é a sombra assombrosa que nos acompanha, sombra feia que a luz nos delineia sobre o chão. O poeta e escritor Robert Bly descreve essa sombra, esse sombrio lado B, como um saco invisível que carregamos nas costas. À medida que crescemos colocamos no saco todos os aspectos de nós mesmos que não são aceitáveis para nossos familiares e amigos. Passamos as primeiras décadas da vida enchendo esse saco, depois, passamos o restante tentando tirar tudo que escondemos”.

O temor de que a quebra de padrões culturais culmine em um pandemônio social faz com que não aceitemos o nosso lado B. Nesse sentido todos nós somos reacionários, o seja, estamos sempre nos escorando em atitudes moralistas e neo-religiosas de natureza defensiva. O lado A com suas músicas preferidas, como a foto do disco de vinil no topo desse pequeno ensaio, mostra a nossa face aprazível que aparece visível para a sociedade. É através dela que nos regozijamos e interagimos.

O psicanalista freudiano, Michael kahn, para explicar a sincronia entre o lado A e o lado B de nossa vida mental, construiu uma imagem bem simples e certeira: descreveu o lado B(conteúdo recalcado da psique) como “um amplo hall de entrada cheio de imagens mentais, todas tentando entrar em uma pequena sala de visita (consciência), para a qual o hall de entrada dava acesso. Naquela sala de visitas, habita a consciência, com quem os impulsos esperam conseguir uma audiência. No corredor entre o hall e a sala de visitas, posta-se um vigia, cuja tarefa consiste em examinar cada impulso que busca admissão e decidir se ele é aceitável ou não. Se não for, o vigia(a censura) o expulsa”. [Pensamentos psicanalíticos para o século XXI Michael kahn Editora Civilização Brasileira]

Em suma, Michael kahn quis mostrar que a emoção indesejada ou vergonha surge quando algum impulso ou algum conteúdo do lado B, apesar da barreira imposta pela censura (o vigia), consegue entrar na nossa sala de visitas.

Resumo da ópera: Nem sempre o vigia consegue segurar ou ocultar o que se encontra escondido a sete chaves no nosso lado B.

Em tempos litigiosos e de delações nunca é demais lembrar uma máxima bíblica neo-testamentária que vem atravessando os tempos sem nunca esmorecer: “aquele que não negar, mas antes confessar seu lado B, alcança misericórdia”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 21 de junho de 2017

28 maio 2017

Clarice, Caetano e Marília Pera ― Entrelaçamentos





Na atualidade não há como negar a existência de um forte entrelaçamento entre a Literatura e a Psicanálise. Uma instância não vive sem a outra, pois a matéria prima que manejam é a mesma: a letra, que vem da fala ou do dito, dos lapsos, das crônicas, dos contos, dos sonhos, da poesia, dos desejos não realizados, enfim, da imaginação. Não foi à toa que a psicologia foi buscar na literatura os principais elementos metafóricos para formulação da Teoria do Inconsciente. As grandes obras de Freud, sem nenhuma dúvida, foram frutos da leitura reflexiva de um épico clássico ― “Édipo Rei” ― de Sófocles, especialmente destinado ao teatro.

A psicanálise parte da fala e da ausculta do sujeito, no intento de que afetos escondidos a sete chaves possam vir à tona. De maneira análoga, a literatura ou o ato de escrever, por sua vez, permite a vazão dos conteúdos latentes do inconsciente. Tudo isso demonstra com clareza que essas duas misteriosas instâncias são, na verdade, irmãs siamesas.

Comentando o conto “Mineirinho” “Clarice na Cabeceira” (Editora Rocco) escreveu Caetano Veloso: “Clarice Lispector teve um enorme impacto sobre mim”. Em 1959, quando ainda era um imberbe jovem de Santo Amaro na Bahia, ficara profundamente impressionado após ler o conto de Clarice,A Imitação da Rosa”.

Em 1968, um dos anos mais turbulentos da ditadura militar, Caetano e outros artistas exigiam do governador do Rio uma posição sobre o estudante Edson Luís assassinado de maneira covarde no restaurante universitário (Calabouço), ocasião em que, sorrateiramente, foi abordado por uma mulher: Sou eu, Caetano!” ― anunciou, Clarice Lispector, diante de um ainda tímido poeta, cantor e compositor da MPB.

O certo é que por essa época, as obras de cunho profundamente psicanalítico de Clarice Lispector inundaram as mentes dos artistas brasileiros, e serviram de fonte de inspiração para muitos, como foi o caso de Marília Pêra.

Segundo a psicologia de Carl Gustav Jung, “a Persona (máscara em latim) opera como mediadora entre o ego e o mundo externo; é um meio termo entre o indivíduo e aquilo que ele deveria ser”. No seu ensaio “Persona” Clarice, se reportando ao uso de nossas primeiras máscaras, em uma perspicaz auto-análise, assim escreve:

...os adolescentes, estes que são puro rosto, à medida que vão vivendo fabricam a própria máscara”. [...]Mesmo sem ser atriz nem ter pertencido ao teatro grego uso uma máscara. Aquela mesma que nos partos de adolescência se escolhe para não se ficar desnudo para o resto da luta. Não, não é que se faça mal em deixar o próprio rosto exposto à sensibilidade. Mas é que esse rosto que estava nu poderia, ao ferir-se, fechar-se sozinho em súbita máscara involuntária e terrível.”

Bem lá no final de seu ensaio psicanalítico a autora conclui de forma magistral:

Se bem que pode acontecer uma coisa que me humilha contar. É que depois de anos de verdadeiro sucesso com a máscara, de repente ah, menos que de repente, por causa de um olhar passageiro ou uma palavra ouvida de repente a máscara de guerra da vida cresta-se toda no rosto como lama seca, e os pedaços irregulares caem com um ruído oco no chão. Eis o rosto, agora nu, maduro, sensível quando não era para ser. E ele chora em silêncio para não morrer”.

O sujeito escolhe a sua máscara (ou sua máscara vem mesmo sem que ele a tenha escolhido?). É com ela que o indivíduo se apresenta no meio social; ela representa o que a pessoa é, não para si, mas para os outros. A coisa funciona de forma tão imperceptível que, às vezes, o sujeito chega a se confundir com o personagem que está representando.

Marília Pêra, a premiadíssima estrela do Teatro Brasileiro, fazendo a apresentação da antológica crônica “Persona” de Clarice Lispector, num texto profundamente analítico diz, bem ao estilo Junguiano:

É muito difícil ser o que se é. O que se é? Onde começa o fio dessa meada? Esse é um mistério da vida.
Somos o que papai e mamãe fizeram de nós. Ou vovô e vovó, titia, babá, professor e irmãos.
Depois livros, filmes, peças, melodias, novelas, hoje internet, nos moldam.
Cores que outros artistas pintaram em nós, eis o que se é.
Nunca outra vez nossa tela em branco?
Atores também são seres cheios de emoções e carências banais.
Por isso talvez fosse aconselhável que atores usassem máscaras, como no teatro antigo.
Porque, sem as máscaras, há o risco de mostrarmos ao público sentimentos que talvez não pertençam aos personagens, mas ao nosso cotidiano mundo, sem transcendência universal.”

A antológica letra de SAMPA mostra, mais do que tudo, a influência de Clarice Lispector nas composições de Caetano Veloso: Quando eu encarei frente a frente não vi o meu rosto” (Caetano). Como era de se esperar, no espelho da fria e cinzenta São Paulo, Caetano jamais poderia reconhecer o seu rosto primitivamente refletido no espelho de sua “terra-mãe”. Quem sabe se restos de um passado emitido pelos arquivos psíquicos secretos, do tempo em que o cantor e compositor baiano lia e refletia sobre os textos de Clarice, não estavam ali emitindo ressonâncias ante a nova e feia megalópole paulista? É que a mente apavora o que não é mesmo velho” diria Caetano, de forma metafórica e auto-biográfica, em sua imortal canção, antes de se tornar “Mutante”.

A letra de SAMPA, explicita que mais tarde, sem perder suas identidades, os novos baianos, num processo de lenta adaptação, passeariam no cruzamento da Ypiranga com a avenida São João, curtindo numa boa sua agradável garoa. No Ensaio “Os Espelhos”, Clarice, disserta sobre o espelhamento de um itinerante que mesmo diante de uma nova realidade, deixa transparecer “vestígios de sua própria imagem narcísica”.

O que é um espelho? É o único material inventado que é natural. Quem olha um espelho conseguindo ao mesmo tempo isenção de si mesmo, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade é ele ser vazio, quem caminha para dentro de seu espaço transparente sem deixar nele o vestígio da própria imagem não percebeu o seu mistério”.

É que Narciso acha feio o que não é espelho” ― reagiria Caetano. O Mito de Narciso” remete essa expressão de Caetano em Sampa à sua mãe Liríope. “Por desconhecer a própria individualidade, Liríope não pode refletir seu filho Narciso, e este será carente em relação a seu próprio reflexo” (O Mito de Narciso Raíssa Cavalcanti Babel da Psicanálise)

É num pequeno trecho do profundo ensaio “Os Espelhos” que Clarice, numa veia analítica incomum, parece denunciar o “por quê” da estranheza de Caetano frente a fria selva de pedra paulista, tão diferente de sua “cidade-mãe” Santo Amaro da Purificação Bahia:

Vi o espelho propriamente dito. E descobri os enormes espaços gelados que ele tem em si, apenas interrompidos por um ou outro alto bloco de gelo”. “Não existe a palavra espelho (a velha Santo Amaro de Caetano – grifo meu) só espelhos”.

Por fim, em SAMPA, Caetano chega a percepção de que a “feia São Paulo” é mais um espelho entre outros, “com suas oficinas de florestas e seus deuses da chuva”.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 28 de maio de 2017