17 março 2009

O PODER SEDUTOR DA MÍDIA GOSPEL



Desde os anos sessenta, os EUA, como capital mundial das celebridades e como pátria da fabricação de imagens em quantidade e velocidade nunca vista, vêm exportando para nosso país o movimento gospel neo-pentencostal. Esse tipo de manifestação tomou um impulso extraordinário nos últimos dias, tanto lá como aqui, nas terras de D. João VI, encontrou terreno fértil para propagar as suas ideias, e, como uma epidemia incontrolável, vem se alastrando, contaminando os não vacinados, com o vírus maléfico da sedução, que transformou o símbolo da cruz, em passaporte para o “reino interno”.


Essa indústria de entretenimento religioso tem anestesiado as massas, e sobre elas, tem causado um impacto assustador. O seu objetivo (está claro), não é de pregar e ensinar as verdades existentes na mensagem de Cristo, e sim, o de fazer unicamente a propaganda da fé.


Os programas empacotados trazidos dos EUA empanturram e saturam as almas que procuram apoio espiritual para suas agruras. Nunca se viu tantas celebridades e estrelas gospel, subindo e descendo dos palcos dos templos, para dar o seu recado mercadológico de diversão, conforto, e conveniência ou prazer, que mais parecem emanações fantasmagóricas.


Eu me pergunto: Como é que tantos, passam horas e horas escutando mentiras, promessas de prazeres rasteiros num grau sem precedentes?


Ah! Como esses líderes midiáticos sabem tão bem amarrar as suas vítimas nas engrenagens mortais de suas máquinas. Será que a única coisa que consola o sofrimento desse povo, é a diversão? Na mídia gospel se sabe que o entretenimento forma hábitos. Na busca de excitação, as pessoas podem tolamente imaginar que a posse de objetos, as tornarão mais felizes. E o que fazem: deixam de ver o único caminho possível para a salvação ─ a devoção cristã.


Lembro-me agora, do que li sobre o famoso cantor e compositor Americano, Bruce Springsteen. Acostumado a fazer shows para centenas de milhares de pessoas, ele sempre falava esse refrão gospel diante da multidão em delírio: “Não posso lhe prometer a vida eterna, mas posso lhe prometer a vida bem AGORA”. Eis aí, a nobre promessa da mídia gospel. Quando Bruce, através de seu ministério do “rock’n’roll”, gritava para uma imensa platéia enlouquecida, os seus fãs respondiam com um trovão de vozes, retribuindo-o no mesmo espírito. O vínculo do fã com a estrela gospel é o mesmo do torcedor fanático com o seu time.


Eu me pergunto: Por que eles nomeiam de “poder divino” ou “avivamento do alto”, esses excessos de sentimentos que raiam à beira da loucura? Por que não ser fã de um ídolo gospel, hoje, é o mesmo que nadar contra a maré? Maré essa, constituída por congressos e reuniões onde se debatem os últimos sermões e obras das celebridades importadas, todos usando devidamente suas estrelas no peito, como marcadores de distinção.


Eu me pergunto: Onde está o senso crítico dessa gente? Como é que se deixa ser levada por essa espúria “facticidade sacrossanta”? Como é que eles se realizam, absorvendo os produtos de ilusão dessa fábrica de manufaturas “inspirituais”? Como se deixam ser subjugados pela lengalenga vazia dos pesadelos gospel? Como se deixam passivamente ser sugados pelos “vampiros de almas” que assolam as igrejas de nosso país?


Uma constatação triste assoma a minha mente nesse instante: Os discursos gospel com seus estilos sanguinário, explosivo e dilacerador têm, indubitavelmente, um poder de atração fora do comum para entorpecer as massas. Não foi à toa, que os filmes “Duro de matar 1, 2, 3 e 4; Máquina mortífera 1, 2, 3 e 4”, tiveram um sucesso imenso de bilheteria em todo o mundo.
Diante de tudo isso, como então admitir que os “Rambos” da mídia gospel, possam um dia, arrefecer o seu poder de sedução sobre as multidões, para que enfim, Cristo apareça?



Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, l7 de março de 2009

13 março 2009

A MULTIFACE DE DEUS




A inapreensível e inconquistável apresentação do Deus dos Judeus, nas suas múltiplas formas de revelação, incíta-nos a repensar o nosso “discurso”. A cada apreensão que fazemos, conhecemos umas de suas “faces”, sem chegarmos nunca a entender as inúmeras outras faces desse Deus.


Como um paradoxo de linguagem, o lado obscuro de Deus, às vezes denominamos de “diabólico”, como diabólico é tudo que foge a pequenez do nosso mundo de saberes, a que rotulamos de “princípios”. Então, na busca de preencher o vazio do Sagrado, exterioriza-se em nós a “resistência”, que sob uma forma emocionalmente agressiva, nos faz extrair pérolas como esta: “É diabólico porque foge aos nossos princípios”. E, em defesa destes princípios ficamos presos a nossa “parentela”. Deixamos de caminhar, de conhecer outras paragens, outros rostos, outras faces de um Deus que é movimento e recriação.


Para conhecermos mais este Deus, precisamos sair do fosso que construímos com muros tão indevassáveis, como é a nossa resistência ao que é novo, ao que é diferente. Tenhamos a coragem de Abraão que, contra tudo e contra todos, resolveu romper com o seu pequeno mundo e abrir-se para o desconhecido, preferindo o nomadismo de um Deus de “passagem” (palavra que está na raiz do nome Judeu), a ficar entranhado no aconchego do Lar, de horizontes tão curtos. Abraão não recusou, como não considerou “diabólico”, conhecer um Deus fora dos seus domínios.


O que devem ter imaginado alguns amigos do patriarca, vendo-o partir repentinamente rumo a um mundo desconhecido, em busca de um Deus revelado só a si. Naturalmente, devem ter cogitado o que qualquer um de nós, em tais circunstâncias, pensaria, se tivéssemos que nos defrontar com uma pessoa íntima, fugindo do nosso convívio sem nenhuma explicação. Racionalizaríamos tratar-se de um caso de “loucura” ou “coisa do diabo.”


É, às vezes não compreendemos atitudes aparentemente estranhas, tomadas pelo nosso próximo. E por não entendermos a razão de suas súbitas decisões, acabamos denominando de “diabólico”, uma das múltiplas faces de Deus.


Ao refletir sobre a odisséia de Abraão, talvez, no nosso imaginário, possamos vislumbrá-lo partindo para o desconhecido. Lágrimas para todos os cantos, e certos amigos, esperando ele desaparecer no horizonte, para sussurrarem de ouvido a ouvido, como se Deus não pudesse ouvir: “Isto só pode ser coisa do diabo!”.



Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 13 de março de 2009

11 março 2009

QUE CRISTIANISMO É ESSE, MEU IRMÃO!!!




O que Cristo tem a ver com esse cristianismo que, no tempo da igreja primitiva se entregou ao Imperador Constantino em troca de cargos e isenção de impostos -, costume esse, que felizmente para uns e infelizmente para outros, ainda hoje reina?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo que, no tempo do imperador Justiniano fomentou perseguições, revoltas e guerras por causa do culto às imagens de esculturas, ─ que ainda hoje, alguns praticam para gáudio de seus próprios “egos”?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo que, para cristianizar e escravizar os povos do Ocidente fez do Rei Carlos Magno, seu chefe espiritual ─, cujo ideário ainda se mantém intacto na esdrúxula politicagem atual?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo que introduziu as Cruzadas, para em duzentos anos de guerra, praticar roubos e crimes em nome de Deus ─, semelhante a nossa história de D. João VI para cá?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo que promovia execuções públicas para concretizar sua intenção de intimidar o povo no tempo das grandes inquisições ─, que de forma escamoteada ainda predomina entre nós?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo que fez do judeu convertido Tomás de Torquemada um sanguinário implacável, o qual em defesa da fé jogou dez mil à fogueira. ─ Fogueira essa, hoje, representada pelo submundo dos desvalidos e marginalizados do nosso imenso país?

O que o Cristo tem a ver com esse cristianismo que prendeu e torturou Galileu, só porque ele afirmou, com comprovação científica, que o sol e não a terra, era o centro do nosso sistema planetário ─ fato que ainda hoje faz da ciência a maior inimiga da religião?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo, que no Brasil, a troco de civilização, escravizou os nossos antepassados com um espúrio catecismo imposto a ferro e fogo, e que hoje, com um outro nome (doutrina) ─, faz o mesmo papel?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo que reconstruiu os muros da intolerância entre as nações ─, e continua até hoje, através dos massacres ideológicos dos paises de primeiro mundo, contra os de segundo e terceiro mundos?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo que restaurou o véu do templo, para ali, tentar falar com Deus sem a intermediação do seu Filho ─, como fazem algumas seitas que não quero revelar os nomes?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo que faz propaganda enganosa de curas, diariamente, com horário pré-estabelecido nas emissoras de televisão?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo que estimula e exalta os instintos arcaicos dos indivíduos, levando-os, por fim, a uma histeria coletiva grotesca ─, que muitos acreditam ser o mesmo poder que desceu sobre os que estavam reunidos em Jesusalém no dia de Pentecostes ─ acontecimento registrado no livro de Atos dos apóstolos?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo que reedita a Sua crucificação ─ ao substituí-Lo por amuletos e réplicas desrespeitosas dos símbolos judaicos, numa heresia nunca vista nos últimos tempos?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo que leva multidões de incautos, sem sabedoria, a se reunirem para sessões de quebra de maldições em praça pública ─, invalidando o sacrifício d’Aquele que se fez maldição por nós?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo que deturpa o sentido dos versículos bíblicos ─, ao afirmar que, se o crente não possui tudo o que o vil deus Mamon oferece, é porque está em pecado?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo que faz da Bíblia o livro mais vendido no mundo ─, para simplesmente ser carregada por muitos, em procissões, como imagem de escultura?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo que prega e “emprega” ─, mas evita ao máximo, que as almas se disponham a comprovar através do estudo, se o que se alardeia é correto ─ como fizeram os de Beréia?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo que divide os crentes em duas classes ─ os de primeira classe são os que têm o dom de glossolalia, e os de segunda classe são aqueles comedidos que só falam o seu idioma pátrio?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo, que de forma engenhosa e sutil, continua nos nossos dias iludindo a muitos ─ com seu discurso hedonista, recheado de atraentes guloseimas que empanturram o corpo e enfraquecem o espírito?

O que Cristo tem a ver com esse cristianismo de pífios espetáculos e práticas escandalosas, cujos líderes promovem disputas engalfinhadas para se apoderar do farto comércio do “butim gospel”?


NA REALIDADE, MEU IRMÃO, CRISTO NÃO TEM NADA A VER COM ESSE SIMULACRO DE CRISTIANISMO, QUE VEM SENDO DIFUNDIDO DESDE OS TEMPOS MAIS REMOTOS ─ PELOS QUATRO CANTOS DA TERRA.



Ensaio por: Levi B. Santos
Guarabira, 11 de março de 2009





06 março 2009

DEZ REGRAS PRÁTICAS DO "AVIVAMENTO GOSPEL"


1.Ficar sempre atento à programação midiática gospel dos meios de comunicação, a fim de não faltar aos shows e congressos de avivamentos “inspirituais” programados em seu Estado. Se possível freqüente essas seções diariamente. Quanto ao estudo da Palavra, basta apenas aquela horinha na escola bíblica dominical.

2.Não quebre a cabeça com estudos bíblicos demasiados longos, principalmente àqueles que exigem uma infinidade de obras para consultar, como livros de História, de Geografia, de Filosofia Cristã, de Teologia e outras “gias”, além de enciclopédias e dicionários. Nas livrarias gospel você já encontra tudo mastigadinho para o seu crescimento espiritual, sem necessidade de forçar a mente. Lá você pode adquirir pacotes de “pague 3 e leve 4”.

3.Se tiver que decidir entre um “show de avivamento” e uma reunião de estudo bíblico, não vacile escolha o primeiro. Afinal, a nossa vida aqui é tão curta, e esse negócio de estudo pode prejudicar a saúde mental, principalmente daqueles que já ultrapassaram os 45 anos.. Veja e compare: aqueles que saem dos retetés de avivamento apresentam-se alegres e de faces radiantes, enquanto aqueles que saem do estudo das Escrituras Sagradas apresentam-se cabisbaixos, apáticos e com cenhos franzidos, como se tivessem acabado de assistir a uma sessão de tortura.

4.Nos grandes congressos e festas gospel use ao máximo, o som esfuziante das bandas de forró, axé e frevo. Não deixe a multidão “paradona”. Incentive as palmas, os gritos dos bordões evangeliquês, os pula-pulas, os cai-cai, etc.

5.Se você é o preletor oficial, nunca deixe de suar a camisa, e se possível o paletó. Nunca deixe de imprimir aquele vozeirão dramático e tonitruante. Se a platéia se mostrar fria, exerça os seus dons teatrais, como pulos, cambalhotas, sapateados e lançamentos de bíblias ou lenços, que você tão bem ensaiou.

6.Não deixe de comprar em nossas livrarias, os famosos livros de marketing sobre pregações para multidões, como os recentemente publicados: “Como Inflamar as Multidões” ─ de Flamarion Nazareno; e o best-seller: "Cem Conselhos para Incendiar as Igrejas"─ de Pinto Sette e Caio Botafogo.

7.Os organizadores dos shows de avivamento gospel, não podem em hipótese alguma, reservar muito tempo para a exposição da Palavra de Deus. Os sermões longos causam enfado e deixam as multidões sonolentas.

8. É patente e notório que, se você quiser ganhar um maior número de almas para seu rebanho, deverá pregar mais sobre Apocalipse, enfatizando com cores fortes, o terror do fim do mundo e do inferno. As pessoas temem muito o castigo final, e consequentemente, vão procurar ligeirinho, uma igreja para se congregar.

9. Não esqueça o que preconiza o marketing da “Hora do Apelo”. O mesmo deve ser executado com muito esmero. Intensa e solene dramatização, ao som de “corinhos” e de uma suave e crescente pressão dos auxiliares junto ao assustado pecador, para que “livremente”, ele se dirija ao púlpito, a fim de ser contabilizado para a honra e glória do pregador.

10.Após o término dos shows, todos deverão procurar as nossas barracas de cds, vídeos, camisetas, revistas, sandálias, toalhas, pratos, chaveiros, bolsas e bonés com versículos bíblicos e emblemas judaico-cristãos, a fim de adquirir um ou mais objetos para se guardar como recordação. OBSERVAÇÃO: levem sempre algum dinheiro na carteira, pois não aceitamos cheques ou cartões de crédito.



Por: Levi B. Santos
Guarabira,06 de março de 2009

03 março 2009

DEZ CONSELHOS DOS LEGALISTAS SOBRE "ÉTICA CRISTÃ"



1 . Muito embora Jesus tenha denominado o Rei Herodes de “raposa” ─, não convém ao crente assim proceder. Devemos dispensar o melhor tratamento às autoridades, mesmo que elas tenham, às vezes, condutas irregulares e hipócritas. Está escrito: “Toda autoridade provém de Deus”.


2 . Muito embora Jesus tenha cognominado de “sepulcros caiados”, os homens da Lei que estavam sentados na cadeira de Moisés ─, não é conveniente ao cristão assim o fazer. A boa ética manda que o crente tenha sabedoria e controle emocional, a fim de que não caia na tentação de detratar as pessoas.


3 . Muito embora Jesus não tenha encontrado onde repousar a cabeça ─, não é conveniente ao crente está falando mal das autoridades religiosas que enriqueceram graças aos seus extraordinários dons. As mansões, os carrões, as chácaras e o mar de riquezas que essas autoridades possuem, foram frutos do seu honesto trabalho. Está escrito: “Todo obreiro é digno do seu salário”.


4. Muito embora Jesus em sua missão tenha ido buscar pessoas para serem discipuladas, “extra-muros” do Templo ─, não é de boa norma, o crente organizar grupos para o ensino da palavra por aí afora. O Templo é o único local adequado para esse fim. Está escrito: “Alegrei-me quando me disseram: vamos à casa do Senhor”.


5 . Muito embora Jesus tenha entrado no templo, armado de chicote para expulsar os poderosos que faziam da Casa de Deus uma “bolsa de valores” ─ não é conveniente ao crente de forma desastrada, assim se comportar. Está escrito: “Não é por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor”.


6 . Muito embora Jesus tenha reprovado os religiosos de sua época, por adorarem os primeiros lugares no templo ─, não é ético para o cristão assim proceder. Em todas as igrejas, é de praxe, que os primeiros assentos sejam destinados às autoridades eclesiásticas. Está escrito: “A quem honra, honra”.


7 . Muito embora Jesus não tenha tomado uma atitude enérgica, quando os discípulos seus, invadiram um roçado de milho alheio, para saciar a fome num dia consagrado ao descanso ─, não convém ao crente assim proceder. Mesmo estando faminto, não ouse tirar nada de alguém, sem plena autorização. Está escrito: “Pedi e dar-se-vos-á”. Portanto, basta dobrar os seus joelhos e orar.


8 . Muito embora Jesus não tenha respondido a pergunta de Pilatos, sobre “o que era a verdade” ─, não convém ao crente, deselegantemente, silenciar diante da pergunta feita por uma autoridade. Peça a Deus sabedoria e Ele porá a palavra certa em sua boca. Está escrito: “Se estes se calarem, até as pedras clamarão”.


9 . Muito embora Jesus tenha dito de forma pública, que os escribas e fariseus, apesar de serem dizimistas, negligenciavam o mais importante, como a justiça, a misericórdia e a fé ─, é atitude reprovável e contrária à ética, o cristão expor aos quatro cantos do mundo uma simples falta (perdoável) dos seus superiores, ainda mais, se eles estiverem sentados na cadeira de Moisés. Está escrito: “E o oferecerá com a oferta sobre o altar, e assim o sacerdote fará expiação por ele, e será limpo”.


10. Muito embora Jesus tenha se posicionado contra os fariseus que enfrentavam todo tipo de obstáculos para ganhar almas, ocasião em que os denominou de duas vezes filhos do inferno ─, não é de bom alvitre o crente tomar tão irredutível atitude. Está escrito: “Mas que importa? Contanto que Cristo de qualquer modo, seja anunciado, ou por pretexto, ou por verdade... .” (Filipenses 1: 18).



CONCLUSÃO: Por esse manual legalista de "ética cristã", que todo cristão autêntico deve repudiar, Jesus teria sido reprovado com nota zero. Mas, não custa nada perguntar:

Se Cristo viesse hoje com aquele verdadeiro e contudente discurso do capítulo 23 de Mateus, seria ou não seria, rotulado de “ANTI-ÉTICO”, pelos donos do poder eclesiástico?


Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 03 de março de 2009

28 fevereiro 2009

SINFONIA DA ALMA




Não entendo a razão da música clássica ─, aquela que toca a nossa sensibilidade mais profunda e nos transmite tanta paz de espírito ─ ser considerada música triste e sem sentido pela maioria das pessoas. Comumente, só ouvimos a execução dessas melodias, pelas emissoras de rádio, como fundo musical no anúncio do falecimento de uma pessoa nobre da sociedade. É uma pena que na nossa cultura, essas sinfonias suaves e maravilhosas sejam apelidadas indevidamente de “música de enterro”.


Mas como são belos, e extraordinariamente tocantes os concertos de Brahms, Schubert, Beethoven, Bach e Chopin, entre outros notáveis autores. Ouvindo as músicas desses fenomenais compositores eu me sinto como uma ave pairando no ar e, nas poucas horas de silêncio que esse mundo agitado e hostil me oferece, sou transportado a um mundo calmo, distante do “corre-corre” tumultuado da luta cruel pela sobrevivência. Não posso deixar de dizer que, a harmonia dessa modalidade musical acalma a criança amedrontada que mora em mim. Ela põe os meus medos para dormir. E, enquanto o sono me embala, os medos e as tensões são afugentados para bem longe.


Essa categoria musical é poderosa, pela sua influência avassaladora e capacidade de despertar sentimentos mais profundos, como em nenhuma outra arte é possível. Lembro-me da minha infância quando os meus dedos mal ajeitados percorriam o teclado de um acordeom, e eu me entregava à improvisações apaixonadas. Bastavam alguns acordes dolentes tirados em “do menor” para me fazer sonhar e esquecer as agruras e dificuldades da vida real.


Será que os extraordinários maestros da música clássica, não foram tocados por uma centelha Divina, ao instrumentalizar as canções que as mães de todo o mundo inventaram para fazer seus filhos dormirem? A escuridão da noite punha medo e agitava as crianças do meu tempo. As velhas letras das cantigas de ninar, que a minha mãe com tanta sensibilidade cantava, apaziguavam a minha alma, ajudando-me a entrar de forma tranqüila no mundo escuro e tremendo da noite. No balançar de uma rede, ouvindo as modinhas infantis, eu entrava tranquilo no mundo sobrenatural dos sonhos. Talvez, a música erudita que hoje me causa tanta sensação, seja uma evocação daquelas repetitivas canções que minha mãe entoava com tanto carinho e devoção, no verdor dos meus três anos de idade.


Hoje, num mundo explosivo e barulhento, é quase impossível se obter o necessário silêncio para conciliar o sono ao embalo de uma suave e bela sonata. Caímos no sono mais pelo cansaço do labutar diário, o qual como um tribunal severo, impõe uma aspereza dissimulada em nossos corações, nos impossibilitando de degustar os sentimentos transbordantes de uma sinfonia.


Na Bíblia, há um registro emblemático sobre o poder fascinante da música: quando o salmista Davi extraiu de sua harpa uma melodia expressiva, que tocou profundamente o Rei Saul, restaurando-lhe a tranqüilidade da alma que jazia perturbada. Não creio que a música tocada por Davi, tenha qualquer relação com a barulhenta e insuportável sonoridade da maioria das bandas gospels, que ludibriam os líderes de certas igrejas, deixando-os embasbacados diante de espetaculosos “shows” estimulantes dos instintos carnais, em detrimento do que é espiritual.


O êxtase banal, vulgar, pesado e barulhento provocado por essas bandas de ritmo esfuziante, e que muitos erradamente confundem com “avivamento espiritual”, jamais pode ser comparado ao sereno contentamento que as almas experimentam ao deixar a sinfonia erudita reverberar suavemente nas cordas de seus corações. O filósofo Schopenhauer deixou escrita uma frase que resume bem o propósito desse ensaio: “A música clássica é um exercício metafísico no qual a mente não se dá conta de que está filosofando com Deus”.


Lamento, mas nada posso fazer, senão respeitar àqueles que, seguindo a tradição dos nossos antepassados, fazem dessas melodias eruditas, uma peça complementar de um ritual fúnebre.


Também não posso olvidar de que entre as gentes, possa existir alguém que, cansado das lutas renhidas dessa vida, já sinta nas profundezas do seu ser a aproximação do momento de dormir o último grande sono. E nessa hora, deseje ouvir dos anjos uma sinfonia que lhe enleve a alma, a semelhança do acalanto que, ao tanger o fantasioso pavão para bem longe ─, afastava a inquietude da criançinha, deixando-a enfim, dormir o seu sono sossegado.


Ensaio por Levi B. Santos


Guarabira, 28 de fevereiro de 2009




24 fevereiro 2009

REMEMORANDO A ESCOLA BÍBLICA DE ALEXANDRIA

.................Biblioteca de Alexandria - século I DC



A cidade de Alexandria teve a honra de haver produzido o primeiro instituto cristão de ensino superior. Foi de lá que surgiu a primeira escola bíblica de que se tem notícia. No século II ─ os cristãos veementes partidários da fé ─, eram defensores ardorosos da Bíblia como livro de revelação, e por hipótese nenhuma admitiam que o Livro Sagrado fosse alvo de estudo ou de análise, até porque analisar é examinar à luz da razão. Este deve ter sido um dos motivos que levaram à lamentável destruição de um acervo de quase 700.000 livros da maior biblioteca de todos os tempos.


Tito Flávio Clemente, filho de pais gentios, nascido em Atenas em 150 DC, converteu-se ao cristianismo e associou-se a Panteno na qualidade de professor assistente. Sofreu grande perseguição por sua postura, ao preconizar que à filosofia antiga cabia o papel de pedagogicamente, ajudar a encaminhar os gentios para Cristo. Para o crente daquela época só existia uma doutrina necessária e útil: a sua fé. Clemente viu-se constrangido a combater esta atitude, mostrando sempre que a filosofia é a serva da sabedoria. Ele dizia: "os gregos foram educados para Cristo por intermédio da filosofia, como os Judeus foram por intermédio da Lei." Todos pensadores cristãos a começar por Clemente, descobriram elementos cristãos na filosofia grega. Sabe-se, para citar dois exemplos, que Santo Agostinho cristianizou Platão e Tomás de Aquino cristianizou Aristóteles.


O prólogo do evangelho de João traz para a história do pensamento cristão, o conceito do “LOGOS”. O primeiro a usar esse termo foi o filósofo Heráclito de Éfeso, cidade onde o evangelista João, escreveu a sua epístola. Filo, filósofo judeu, também via no “logos” a ideia divina do mundo e o meio pelo qual Deus opera nele. No primeiro versículo do capitulo primeiro de João, estabeleceu-se o ponto de contato muito natural entre a doutrina platônica das idéias e a Teodicéia Cristã: “No princípio era o logos(verbo), e o logos(verbo) estava com Deus, e o logos(verbo) era Deus”.


São João nos apresenta o Logos como a luz “que ilumina todo o homem”. Clemente via na Luz a “fonte do conhecimento”. Clemente trabalhou muito para que houvesse a possibilidade de colaboração entre a fé e a razão. Ele entendia que a filosofia cristã jamais ia de encontro às verdades da fé, claramente formuladas pela igreja. A noção de que a filosofia era um obstáculo à fé, provinha mais do medo do fiel ser considerado um apóstata ao fazer da escritura sagrada objeto de estudo, ou análise humana. A sombra temerária desse pensamento, nem que seja de uma forma sutil, ainda hoje exerce influência entre nós.

Atualmente, não se está lançando livros à fogueira como aconteceu em Alexandria, mas sem que se perceba, a marginalização contra aqueles que procuram se aprofundar no estudo da escritura sagrada, continua de forma dissimulada.

Entre o apóstolo Paulo e Tiago, vislumbramos um embate emblemático entre a fé e a razão. Paulo pregava que somos justificados pela fé e não pelas obras. Tiago em seus escritos fez uma aparente oposição, quando disse: “vedes então que o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé...". Nenhum dos dois estava errado. O que acontece, é que em nossa dialética, às vezes, somos mal entendidos, pois o que vemos e sentimos, quando passamos para a linguagem, nem sempre é compreendido pelo interlocutor, como esperávamos que fosse.


Não podemos desprezar a filosofia. Foi ela que fez do livro dos provérbios de Salomão, um corolário de pensamentos altamente edificantes para o nosso caminhar. Muito embora, o sábio Salomão nos instantes finais de sua vida, tenha se entregado à idolatria, sabemos que esse fato não invalida de maneira nenhuma o que ele deixou escrito. Ora, se tomarmos a própria palavra "filosofia"(= amigo da sabedoria), e a sua significação, iremos constatar que Davi, Salomão, Jeremias, o próprio Jesus, Paulo, entre tantos outros, extrairam das circunstâncias da vida memoráveis lições, que ainda hoje, repercutem como pilares básicos e indevassáveis do saber.


Não resta dúvida de que a fé nos faz alçar vôos altíssimos, porém é a razão que nos puxa para baixo, a fim de que possamos manter os nossos pés no chão. “Vigiai e orai[...]” ─ diz a Palavra ─ uma não pode prescindir da outra. Através da oração exercitamos a fé, ao passo que é no vigiar que colocamos a razão em ação.


Faço votos a Deus, para que este campo que Ele tem nos oferecido aqui na internet, continue como canal de diálogo sadio e frutífero, a fim de que possamos cada vez mais, como diz a Bíblia, nos trasformar pela renovação do entendimento. Nesta grande Escola da Vida, não importa a cor, ou tonalidade (denominação religiosa) que escolhemos como vestimenta de nossa fé. O que importa é que caminhemos juntos, como fazem as cores do arco-íris: todas unidas, mas cada uma conservando a sua individualidade própria.



Saudações fraternas aos irmãos e amigos da UBE

Fonte bibliográfica: História da Filosofia Cristã de Etienne Gilson e Philotheus Boehner


Guarabira, 24 de fevereiro de 2008
Levi B. Santos - http://www.levibronze.blogspot.com


18 fevereiro 2009

QUANDO SOU JOIO E QUANDO SOU TRIGO




Graças a Deus, por Ele ter me permitido mesmo tardiamente, conhecer o “porquê” do preconceito que tinha contra os que não professavam a minha fé. Preconceito este, que durante muito tempo em minha vida encharcou-me a alma com a lama e o ranço da intolerância. Agora, aos meus sessenta e dois anos de idade, fazendo um retrospecto, cheguei à conclusão de que o meu coração foi preparado e adubado desde a mais tenra infância com um único propósito: o de conceber só as sementes do trigo. No resguardado campo do minha plantação, eu só podia admitir o trigo. Quanto ao joio eu aprendera a enxergá-lo só nos outros, concepção essa reforçada diuturnamente através dos alertas de minha mãe, que em tom ríspido falava: “Olhe, meu filho! Você é um crente ouviu? Não se misture em hipótese alguma com esses moleques de rua”.


Foi por esse tempo de minha formação juvenil, que de forma inconsciente, foi semeada no campo fértil do meu coração, uma sementezinha de joio, que fazia me ver como uma pessoa privilegiada, de primeira classe. Aprendi por essa época, como olhar as pessoas de classe inferior (os incrédulos) de soslaio, como quem enxerga um animal irracional. Enfim, era considerado pela minha comunidade religiosa como o trigo da parábola. No entanto, era junto aos moleques de ruas (tidos como joio) que eu fazia às escondidas, mil estripulias. A meu ver, secretamente, eu podia fazer de tudo junto à molecada. Contanto que os meus pais de nada soubessem, em minha imaginação, estava seguro do meu lugar no panteão das moradas celestes. A semente do joio representada pelo egoísmo, pela prepotência, pela estupidez, e pela mentira já tinha germinado em minha mente de criança, sem que eu e meus pais tivéssemos consciência. A santidade que diz: “separados do mundo”, vendara os meus olhos para não enxergar o óbvio. Assim como o apóstolo Pedro queria que os gentios se comportassem como judeus, quando ele mesmo às escondidas se servia de práticas pagãs, assim eu também me comportava. Na rua era um diabinho, e em casa um santinho da mamãe e do papai.


Lembro-me bem que entre meus “amiguinhos incrédulos” havia um “moleque” desbocado e de compleição física avantajada que acusávamos sempre de ser o culpado, quando nossas ações más eram descobertas pelos adultos. Ele era o nosso “bode expiatório”. Tudo que saia errado, dizíamos: é culpa daquele ali. E mandávamos o mesmo desaparecer desabaladamente, para não ter que dar satisfações ─, numa reedição daquilo que faziam os filhos de Israel na época de Moisés, quando transferiam os seus pecados para um bode que depois era solto para desaparecer sozinho pelo deserto inóspito.


Imaginem o que seria de muita gente graúda que hoje vive tirando onda de santinho, se não fosse o tal “bode expiatório?”. Só que essa gente se ilude ao pensar que o nosso semelhante escolhido para “bode expiatório”, tem o poder de retirar o joio de seus fingidos corações, deixando o trigo intacto.


Distante mais de meio século dos tempos de minha meninice, por incrível que pareça, ainda vejo pais e mestres (que no dizer de Paulo já deveriam se alimentar de sólidos) cantando a mesma ladainha: “Nós somos trigos, os outros são o joio”. Esse pressuposto foi explorado brilhantemente por Sartre ao cunhar a célebre frase: “O inferno são os outros”.


Eu perguntaria ao nobre leitor:


Por acaso, o nosso roçado de trigo cercado com muros aparentemente indevassáveis, são realmente só de trigo?


Deus parece estar dizendo: “Oh! Que triste engano homem! O trigo é muito parecido com o joio, e ao teu débil olhar, parecem ser a mesma coisa”.


Seríamos tão mais convincentes e sinceros se admitíssemos que em nossas atitudes e racionalizações, ora somos trigos, ora somos joios. Mas algum leitor poderá contra-argumentar:


─ Sendo assim, estou diante de uma contradição, pois a Bíblia revela que de uma mesma fonte não pode jorrar água doce e água amargosa.


Se em cada pessoa só existisse um tipo de fonte ─ o leitor estaria com a razão.


Só que essa assertiva não resiste a uma boa análise, pois na realidade existem duas fontes: uma é a fonte de vida e outra a de morte ─, cada uma com seu tipo de líquido.


A história registra que alguns antigos ao reconhecerem a dualidade existencial, simbolizada pelo joio(metáfora do mal) e pelo trigo (metáfora do bem), imaginavam que o ser humano fosse possuidor de duas almas: uma boa e outra má. Assim é que Xenofonte em sua obra: “A Vida de Ciro”, sobre certo nobre persa de nome Araspe, o qual teve conduta errônea para com Pantéia, uma bela escrava, assim declamou: “Ó Ciro, estou convencido que tenho duas almas; quando a alma boa domina passo a praticar ações nobres e virtuosas; mas quando a alma má predomina sou constrangido a praticar o mal. Tudo quanto posso dizer quanto ao momento é que minha alma boa é encorajada pela tua presença, tendo assim obtido o domínio sobre minha alma má”.


Uma versão cristã análoga a de Xenofonte, foi a que Paulo proferiu diante dos Romanos (7; 21): “Acho então esta lei em mim, que mesmo querendo eu fazer o bem, o mal está comigo”.


A respeito do “trigo” ─ como metáfora do bem, e do que é verdadeiro; e do “joio” ─ como metáfora do mal e do que é falso, podemos assegurar que: quanto mais profunda for a espiritualidade do crente, maior será a sua percepção para entender esse conflito humano que fez o apóstolo Paulo num momento de arrebatadora intuição, assim se definir: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo dessa morte?”(Rom 7: 24).



Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 18 de fevereiro de 2008

14 fevereiro 2009

A HORA DO APELO




Os católicos têm a sua hora sublime: a hora do Ângelus ─ também conhecida como a hora da “Ave Maria”. Lembro-me, era bem criança, quando entre o cair da tarde e o começo da noite, precisamente às 18 horas, a sinfonia de Gounoud cantada por um tenor invadia os lares, deixando em mim um sentimento nostálgico. Ali, eu compenetrado participava da despedida solene do dia para entrar melancolicamente no mundo das trevas noturnas. Esse ritual dolente era executado todo o final do dia. Ainda hoje, essa penetrante sinfonia, que minha mãe considera diabólica, me comove pela sua tranqüilizadora e suave melodia.


Por essa mesma época, freqüentando as Assembléias de Deus, eu tomava parte de um outro ritual, desta feita nos finais de cultos de pregação do evangelho ─ cultos de cunho proselitista. Meus pais me diziam que a “hora do apelo” era o momento mais sublime e importante do culto, na qual deveríamos ficar de olhos fechados numa reverência silenciosa e especial.


Como sempre, de forma inquieta, eu conversava e ria com outros amiguinhos durante o desenrolar do culto. Porém, ao chegar a “hora do apelo”, me via como se estivesse vestindo a camisa de meu time: torcendo por números. Festa boa era aquela em que o Diabo perdia de goleada: 6 ou 8 X 0. Saía decepcionado quando um grande culto terminava com apenas uma alma salva. Esse placar apertado me deixava furioso. Nesses cultos, quanto mais restrito se desenhava o placar, mais corinhos eram cantados pelos irmãos, em tom solene e baixinho, para sensibilizar os pecadores visitantes, e eu ficava olhando para a porta de entrada do templo numa expectativa ansiosa de ver uma pessoa levantar a sua mão. Torcia desesperadamente, e no final, após ser cantando muitos corinhos, me via triste por aquele minguado resultado, para um culto tão propalado pela cidade. Nas noites em que isso ocorria, eu saia acabrunhado da igreja.


Lembro-me de um pregador, já cansado de tanto pedir “venha aqui a frente, venha!”, ficou tão furioso que disparou: “Tu que rejeitastes aceitar Jesus como o único e suficiente Salvador, tu mesmo que estás me vendo, quem sabe se um carro ou um bonde não te tragará a vida antes de chegares ao teu lar!”. Mesmo assim, com tamanha ameaça, a partida terminava em: 1X0.


Depois do culto, agora já no calçadão defronte a igreja, eu ficava atento aos comentários dos membros: “Ó povo de coração duro!!” ─ um afirmava. Outro disparava sem nenhuma cerimônia: “a culpa é do pregador!..., disse muita lorota, e não se ateve a Bíblia”. Ao que outro respondia: “Se eu soubesse que ia sair daqui de cara mexendo, não tinha nem vindo”.


Passaram-se 55 anos (mais de meio século), e cá estou eu assistindo a reprise dessa “hora do apelo”, que para não soar tão feio, agora é chamada de “hora do convite”. Vejo suavidade só na mudança do termo, pois a forma violenta e mal educada como é tratada a alma que se recusa a ir lá para frente, lá para o púlpito, é de uma indecência impar. Já vi gente sendo conduzida ao altar, presa pelos braços, tentando de todos os modos se libertar dos algozes.


Sem o recurso da hora do apelo ou do convite, o evangelho de resultados está morto. Sem o recurso da força, não há outro meio desse vergonhoso proselitismo ser disseminado.


É, mas hoje, na modernidade, já existe gente treinada para fazer valer a máxima do “apelo” como parte mais importante do culto. Já existem cursos e recursos para levar a emoção aos píncaros, a fim de trazer as almas chorosas aos pés da cruz.


Para se ter idéia do que o marketing da hora do apelo pode fazer, vejam o absurdo de que fui testemunha, alguns anos atrás:


Perguntando a um irmão se ele sabia onde estava residindo certo pregador, que era perito na função “Hora do Convite”, e que fazia tempo eu não o via, ele respondeu:


─ Ah! O irmão Fulano de Tal está trabalhando agora nos cemitérios.


─ Como meu irmão! Se explique melhor ─ pedi -lhe de modo afável.


─ É que ele está ganhando mais almas nas cerimônias fúnebres, do que na própria igreja. Lá, as almas já estão fragilizadas, sendo desta maneira, muito mais fáceis de ser ganhas para Cristo.


─ E como é o seu estilo de pregação nesses momentos em que a família do morto encontra-se naquele clima de choro e grande tristeza ─ indaguei, já pensando na sua trivial resposta.


─ Meu irmão, ele senta o sarrafo. Mostra o inferno de uma forma tão atroz e convincente, que as almas se rendem aos montes, com medo do fogo eterno.


Saí dali aturdido, pensando com os meus botões: “Não há arma mais mortal e mais temida pelo homem que a ameaça em nome de Deus, principalmente quando ela é dita na hora solene e tradicional do APELO”.


A hora do Ângelus assim como a hora do “Apelo” têm tudo a ver com trevas. A hora da Ave Maria, é uma hora triste por anunciar o inicio das trevas da noite. A “hora do apelo”, essa sim, é medonha e cruel, porque revestida de um falso caráter solene, anuncia as trevas da ignorância num lugar que deveria ser reservado ao que é Divino e Sagrado.



Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 14 de fevereiro de 2009






11 fevereiro 2009

DE VOLTA AO PARAÍSO UTERINO



Tudo que enfrentamos em nosso cotidiano, sob a forma de sentimentos de dor, desamparo, alegrias, angustia e nostalgia, não passa de uma ação repetitiva daquilo que experimentamos pela primeira vez, de uma forma inconsciente nos nossos primeiros momentos de vida. O Sábio Salomão deixou escrito em seu Livro de Sabedoria: “nada há de novo debaixo do sol”. Em analogia podemos dizer: nada há de novo na existência humana.


O choro deve ter sido a primeira expressão, a primeira linguagem, nos primeiros minutos de nossa vida. Este seria o primeiro e impressionante retrato do nosso ser: músculos da face e da boca contraindo-se e se relaxando ante um forte sopro vindo dos pulmões a extrair das cordas vocais um estranho e fundo gemido. A nossa velha expressão de dor e desamparo nascera ali no mesmo leito daquela que nos abrigara por longos nove meses. Desamparo, pela expulsão violenta e bisonha, do “paraíso uterino”, onde tão felizes e bem acomodados estávamos.


Ficou registrada desta forma, a primeira memória no disco virgem do nosso cérebro. A saudade daquele paraíso, a dor, o choro, continuam a nos marcar pela vida afora. Ativamos esta memória, renovando a sensação daqueles sintomas, toda vez que nos sentimos rejeitados, incompreendidos, enfim, quando sofremos a perda daquilo que nos causava tanto prazer. A vida é assim mesmo. Vivemos a repetir aquele primeiro ato, toda vez que somos jogados de uma maneira brusca e selvagem, em um mundo frio, cruel e desumano.


A outra conseqüência da perda do “ninho” em que estávamos aconchegados, nos vem sob a forma de “solidão”, que é uma repetição do primeiro desamparo sentido pelo bebê, ao ser cortado o laço que o unia a mãe. Esta sorrateira solidão aparece depois da dor, da angustia e do choro. O consolo, não muito tarde virá, sob a forma de uma instrumentalizada esperança, a lutar contra a angústia e a nostalgia daquilo que se perdeu.


A cada dia, o homem em seu desenvolvimento, imagina retirar do mundo algo de novo que o maravilhe e forneça a energia necessária para continuar vivendo, sem, no entanto, pensar que a VIDA É UM ETERNO RETORNO. A fé passa a ser o único veículo que o levará de volta àquele simbólico jardim de delícias chamado EDEN, lugar onde nunca deveria ter sido expulso.


Ter fé é sonhar acordado e ver o invisível com os olhos do coração.


O homem agora ri, pois no além desejado não haverá choro. No entanto, este riso é a repetição do seu primeiro prazer, quando realizou a primeira mamada, bem junto ao coração daquela que por longos nove meses lhe deu guarida ─ onde, depois de refeito ─, fechou os olhos, dormiu, e fez a sua primeira e fantástica viagem através do mundo sobrenatural dos SONHOS.



Ensaio por: Levi B. Santos.
Guarabira, 11 de fevereiro de 2009

05 fevereiro 2009

UM CÉU DEMASIADAMENTE HUMANO




No filme “Amor Além da Vida”, o personagem de Robin Williams, um racional neurologista, depois da morte da esposa sofre um acidente de automóvel vindo a falecer. Para a surpresa do espectador, o médico acorda dentro da paisagem de um quadro que ele admirava muito em vida, pintado por sua querida esposa. A bela cabana, o límpido e tranqüilo lago, e a floresta exuberante pintados na tela transformaram-se em seu sonhado céu. E ele passou a viver prazerosamente dentro da imagem do quadro que tanto imaginou durante a sua vida.


Assim como o médico do filme, não podemos fugir dos meandros de nossa fértil imaginação, e ao menos alguma vez na vida pensamos na morte e no porvir. Imaginamos sem dar por isso, um céu particular, como um refúgio recôndito de nossos medos, angústias e tristezas. Nesse paraíso individual que imaginamos, na verdade, está imbuído o desejo de não perder o que se tem: o medo de perder nosso corpo, nosso eu, nossas posses e nossa identidade. Daí pensarmos em um céu cujos valores mentais são representados por elementos terrenos ao alcance da visão, como o ouro, diamantes entre outras preciosidades.


Pensamos, exercitamos a imaginação, sonhamos ou descrevemos um céu demasiadamente humano. Não atentamos para o que diz o Livro Sagrado, quando relata o céu como algo inimaginável, como está bastante claro nas palavras do apóstolo Paulo em I Timóteo 6,16: “Aquele que tem, Ele só, a imortalidade, e habita na luz INACESSÍVEL; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver, ao qual seja honra e poder sempiterno”.


Enquanto estivermos vivendo aqui na terra sob o império dos desejos, não poderemos como pobres mortais, ter a capacidade de aquilatar o que é ter tudo e não sentir falta de nada. Por mais que nos esforcemos, não conseguiremos entender como é viver num lugar onde não há mais necessidade de esperança, nem de anseios. Da completude que iremos vivenciar em Deus, por sermos reles humanos, hoje nada sabemos. Então, sem dúvida, podemos afirmar que por hora, esse céu é inexprimível, indefinível ou inimaginável. Não quero dizer com isso, que é pecado ou proibido pensar o porvir. Só que esse pensamento nosso é utópico, pois não podemos entrar na mente de Deus, para saber o que está reservado para nós. Desse modo, toda imagem que fizermos do céu será pura especulação.


Alguém poderia dizer que o “Céu” é uma tentativa do homem, de fugir de seu destino carnal mais certo, que é retornar ao pó, ou então uma desesperada busca por se perpetuar em outro mundo, numa outra existência, para continuar vivendo eternamente, dando vazão ao desejo de potência mais íntimo de não findar nunca, procrastinando seu ser, suas vontades e desejos; perpetuando-se por séculos sem fim, continuando num mundo sensitivo de prazeres e delícias, negando a própria natureza de todas as coisas, e a sua própria, onde tudo nasce, cresce e morre.


Pensando bem, será que a satisfação irrestrita de todos os nossos desejos é a via para a felicidade futura? Será que os nossos anseios na outra vida estarão unicamente limitados à área do “TER?”. A ótica mundana identifica o indivíduo pela fórmula: “eu sou = o que tenho e o que consumo”. A ótica divina ou transcendente, me parece, aponta para um caminho inverso, o caminho do SER, que não é movido pelos desejos possessivos e carnais.


Na linguagem judaico-cristã, a figura do herói é a do “mártir”, isto é, daquele que se despoja de tudo que TEM, e dá a sua vida por uma causa nobre. Esta causa, sim, pode estar vinculada ao âmbito do SER. O mártir é justamente o contrário do herói pagão vitorioso, cuja demonstração de satisfação é medida pelo que conseguiu destruir, pelo que arrebatou de bens, pelo orgulho, pela fama e poder, enfim pelo paradigma do TER.


Se a imagem que eu faço do céu ou da imortalidade é baseada literalmente no TER riquezas preciosas para desfrutar, valorizadas como o ouro, cristais, pedras preciosas e moradas suntuosas que encantam os olhos e enlevam os sentidos, é porque, lá no fundo escondido do meu eu reside a semente da “teoria da prosperidade”. Teoria essa, já abertamente incorporada por aqueles que fazem da quantidade de riquezas e bens, parâmetro para medir se o sujeito está ou não sendo abençoado por Deus. Os magnatas e marajás da “prosperidade” não gostam de falar na vida após a morte, justamente por já se considerarem de posse das delícias consideradas por eles de “celestiais”, como jatinhos, carrões, piscinas térmicas com ondas artificiais, banheiras revestidas de ouro, mansões com portas e janelas de cristais resplandecentes, enfim, tendo tudo o que deseja ao simples estalar de dedos.


No hinário “Harpa Cristã” ─ um dos mais conhecidos no meio evangélico ─ existem letras que nos inundam de emoção, e podem até nos levar a pensar num céu pelo módulo TER, como é o caso do hino de número 26. O autor desse hino fala de uma cidade cujos muros são de puro jaspe, as ruas são de ouro e cristal, rios com margens juncadas de lírios. É fácil pensar assim: “aquilo que eu não tive o direito nessa vida, terei com fartura lá no céu”. Entretanto, o que hoje me parece extremamente difícil, é imaginar o céu pelo módulo SER, no qual, a concupiscência dos olhos, a inveja, a dissensão, a competição, a ganância, o ressentimento, o ciúme, a vingança, a idolatria, e o amor ao dinheiro, não tenham mais lugar em nosso “Ser”.


Alguém poderia perguntar: É falso o que ansiamos como céu?


A rigor, se refletíssemos melhor, compreenderíamos que, na maioria das vezes, o que sentimos ou pensamos para depois da morte, está ligado ao desejo de continuar vivendo esta vida, esta nossa vida mortal, sem seus males, sem o tédio e o sofrimento.


Como desejar o céu de uma paz verdadeira, quando somos forjados desde a mais tenra idade a ser um competidor selvagem, que nunca deve perder, buscando incessantemente ser o melhor, ou o maior. Fomos forjados para ser jogadores no grande tabuleiro desse mundo, forçados a viver numa guerra sem fim de egos exaltados. Somos movidos pela sutileza desses instintos, que não deixam de se imiscuir na base das ações mais pias que praticamos. É com esses elementos terrenos que pintamos o quadro do nosso céu imaginário para depois nos introduzimos nele, como o neurologista do filme de ficção, que tomou o quadro para si e armou o seu céu com aquilo que tinha de mais prazeroso em seu lar.





Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 05 de fevereiro de 2008

30 janeiro 2009

A FERA INTERIOR




Lá dentro de mim se esconde
Um animal perigoso.
Está preso entre as grades,
Por ter algo venenoso.
Ponho guarda dia e noite,
Pois ele é contencioso.





..........Seu vil veneno entorpece
..........Nos deixando estonteado.
..........No sangue, o cálido desejo
..........Pode ser disseminado.
..........Quem não resistir a essa fera,
..........Termina envergonhado.
.



A mordedura desta fera
Envenena o coração.
Me induz a ver um argueiro
No olho do meu irmão;
Não deixa enxergar a trave
Na minha própria visão.




..........P’ra não expor esse monstro
..........Construí uma fachada.
..........Se ele mostrar suas garras
..........Logo dou uma recuada;
..........Lutarei contra esse instinto
..........Seguindo uma tabuada.





Na Bíblia o apóstolo Paulo
Desigual luta travou.
Com a fera dentro do peito,
Ele então assim falou:
Quando eu quero o bem fazer,
O mal diz aqui estou.





..........O que me ensina esse Livro
..........P’ra domar o animal?
..........Diz que eu não posso matá-lo,
..........É o meu espinho carnal.
..........E só então no fim dos tempos
..........Deus dará fim a esse mal.




Versos em prosa por Levi B. Santos
Guarabira, 27 de janeiro de 2009


26 janeiro 2009

VENDIDA




Vendeste o meigo corpo e prendeste a tua alma,
Abdicando da inocência, a beleza e a esperança.
Pois saibas que na vida não há fardo mais pesado
Que a cruz desse pecado sendo ainda uma criança.




Deixasse o amor puro do doce tempo da escola.
Dos arroubos pueris só restam sombra e saudade.
E quando os anos passarem e cansares dessa vida,
Lembrarás as fantasias sem a mácula da maldade.




O teu olhar radiante que enlouquecia os rapazes
Desapareceu com o tempo, o sofrimento o levou.
Os gemidos e teus ais hoje espantam os clientes,
Que em teu corpo imaturo se serviram sem pudor.




Os teus amantes agora te consideram um estorvo;
De tua graça e teu riso, eles nem se lembram mais.
Mas se esboçares um sorriso em teu sono agitado,
Sei que em sonho estarás voltando para teus pais.



Versos por Levi B. Santos
Guarabira, 26 de janeiro de 2009

19 janeiro 2009

SE EU TIVESSE A MENTE DE CRISTO




Se eu tivesse a mente de Cristo ─ não choraria só por Jerusalém, Gaza e Israel. Choraria sobre as favelas do nosso Brasil onde o tráfico de drogas mata muito mais do que o conflito Israel-Palestino.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ não discutiria sobre teologia e religiões. Antes diria que a verdadeira religião pura e imaculada para com nosso Deus seria: visitar os órfãos e viúvas em suas aflições, e guardar-se isento da corrupção do mundo.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ as minhas vestimentas de obreiro seriam idênticas às da maioria das pessoas que estão ao meu redor.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ toda vez que fosse orar a Deus, eu me trancaria secretamente em um quarto, sem ter ninguém por perto.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ eu não amaria os primeiros lugares nas ceias, nem as primeiras cadeiras nos templos.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ não me importaria de ser chamado beberrão e comilão ao sentar à mesa com os pecadores.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ eu defenderia os meus discípulos do veneno dos escribas e doutores da Lei.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ eu ficaria do lado das prostitutas, fazendo calar os seus acusadores.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ eu chamaria de raposa, certos Herodes de hoje; assim como denominaria de sepulcros caiados a maioria dos que estão sentados na cadeira de Moisés.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ eu chamaria quem me traísse, de amigo.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ eu me surpreenderia com a fé dos que não são nossos.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ eu diria que condenação eterna seria rejeitá-Lo, e diria que vida eterna era reconhecê-Lo como Filho de Deus.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ eu não andaria ansioso, nem procurando sinais do fim do mundo.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ eu não procuraria bens terrenos, onde a traça come e o ferrugem corrói.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ eu diria para os que se preocupam com o vestuário: “olhai para os lírios do campo. Nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como eles”.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ eu diria para os fariseus de hoje: “vocês estão fechando o reino dos céus; nem entram, nem deixam entrar os que estão querendo”.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ eu denunciaria os que estão fazendo da igreja covil de ladrões.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ eu deixaria as minhas empresas para seguí-Lo, como fez o empresário da pesca Simão Pedro.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ não estaria profanando o lugar sagrado (púlpito) com “shows”, espetáculos, e retetês estimulantes de êxtases carnais coletivos.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ não diria vim para mandar. Diria vim para ser servo.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ eu não colocava fardos pesados sobre as ovelhas, que nem eu mesmo com a mão consigo movê-los.

Se eu tivesse a mente de Cristo ─ tudo que eu falei até agora, ficaria gravado em meu coração e seria posto num quadro bem visível na parede interna dos templos.


Levi Bronzeado dos Santos
Guarabira, 20 de Janeiro de 2009

17 janeiro 2009

UMA CRISE BEM-VINDA



Uma das recentes preocupações do mundo globalizado, e que a imprensa vem dando uma cobertura toda especial, é a relativa à crise das montadoras de automóveis. O governo dos EUA já desembolsou quantias bilionárias para salvar a GM, a FORD, e a Chrysler. No Brasil as nossas autoridades econômicas vêm fazendo de tudo, tentando manter o ritmo de crescimento dessa indústria. Para isso criou várias facilidades, entre as quais, a diminuição de impostos do setor.

O mercado saturado de automóveis não dá bolas para as cidades entupidas de carros, em detrimento da população que vem perdendo a cada ano o seu direito de livremente circular pelas ruas. Na grande metrópole, São Paulo, as ruas não são mais das pessoas, são tomadas por filas intermináveis de carros praticamente parados, andando a uma velocidade menor que a do pedestre. Até agora, todas as tentativas de melhorar o trânsito na nossa maior cidade foram infrutíferas.
Quem, porventura, tiver a ousadia de tentar disputar o espaço com esses bólidos automotivos nas grandes cidades, pagará caro. O pobre do pedestre é obrigado a aceitar como "coisa" normal, os barulhos acima de sua capacidade auditiva, a poluição no ar que se respira, sem falar da invasão desrespeitosa de seu já exíguo espaço, entre outros infernais incômodos.


Não é de se pensar que essa crise caiu do céu? Não seria esse o momento para uma reflexão mais profunda por parte de nossas autoridades? Não seria essa a ocasião propícia, para entender que as cidades já não suportam a grande quantidade de automóveis existentes, além do que é despejado anualmente pelas montadoras? As nossas estradas e vias urbanas não têm as mínimas condições para oferecer um tráfego razoável. Porém, apesar dos engarrafamentos monstruosos que nos causam tanto estresse durante a maior parte do dia, esses bólidos poluidores e causadores de acidentes continuam sendo a nossa ambição maior de consumo.


Esta crise “bendita” é mais que um alerta, é um recado urgente convocando-nos a deixar para trás, certos paradigmas sociais que nos animam a comprar um carro sempre que recebemos o nosso primeiro salário, sempre que assumimos um emprego, ou melhoramos a nossa condição econômica. Se quisermos que as nossas cidades sobrevivam, temos que acabar com essa racionalização burguesa de que a aquisição de um automóvel é a condição prévia para ser visto como participante de uma elite. Elite esta, que nunca pára, a fim de refletir sobre sua qualidade de vida.


Aqui mesmo, andando por minha capital (João Pessoa – PB), é raro o dia no qual não vejo acidentes. Os motoristas nem sequer param mais para observar as vítimas estiradas no solo, cobertas com papéis ou sacos plásticos. Diante das tragédias nas pistas bem asfaltadas e sinalizadas de nossas cidades, os comandantes em suas máquinas potentes, passam céleres rumo aos seus destinos, sem nenhum olhar de condescendência dirigida ao local da tragédia. À medida que cresce o nosso corre-corre cotidiano e sem sentido, os acidentes nas rodovias vão sendo banalizados como “coisa” inerente ao que se chama de “progresso”.


Esse progresso insano que não nos deixa enxergar que as cidades não suportam mais tantos automóveis circulando, deve ser revisto ou repensado.


Será que o povo não será o maior beneficiário da quebradeira que atingiu as multinacionais automotivas?


Poderão dizer os grandes da indústria automobilística: “E o desemprego com as demissões em massa?”. Essa será a resposta dos que têm cabeça para pensar: “O setor de defesa do meio ambiente, incorporará muitos desses desempregados em suas fileiras”.


As montadoras em crise produzirão menos carros a partir de 2009. E daí...


Que importa! Essa “crise bem-vinda” da indústria automobilística, com falência e tudo, trará, quem sabe, as famílias de novo para as tranqüilas caminhadas nas ruas de suas cidades, sem medo de atropelamentos. Resta a cada um de nós, possuidores de um ou mais veículos automotivos, refletir, se queremos deixar um mundo melhor para nossos filhos e netos, ou continuar com os nossos maiores objetos de desejos em meio ao caos atual das estradas e avenidas.


Pode ser uma utopia, ou começo de um sonho, mas na minha imaginação eu vislumbro as gerações futuras vencendo essa guerra e voltando a tomar conta das ruas ─, seu lugar de sempre. Vislumbro as artérias da saudosa cidade das acácias fervilhando de gente a passear despreocupadamente, como acontecia nos tempos de minha mocidade.




Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 17 de Dezembro de 2009

09 janeiro 2009

AS DUAS IMAGENS: A DA TELINHA E A NOSSA




Já duram catorze dias os bombardeios de imagens que adentram os nossos lares, transmitidas pelas nossas telinhas de TV. As cenas de crianças e adultos despedaçados em meio a prédios destruídos nos deixam comovidos e estupefatos. Em um recente artigo, Reinaldo de Azevedo fala que os cadáveres de crianças palestinas mostrados pela mídia televisiva têm um efeito pior do quem as bombas jogadas por Israel, por estimular mais ainda o anti-semitismo em todo o mundo.


A cada dia que se passa, as manchetes dos maiores jornais do país estampam a gradativa soma de mortos no conflito Palestino- Israelense. Diz a Folha de São Paulo de 07/01/2009: “Já são mais de setecentos os mortos do lado Palestino”.


Vejam que paradoxo:
A grande tragédia que está acontecendo no Sudão, não nos causa nenhum transtorno, justamente pela escassez de imagens transmitidas da carnificina naquele recanto do mundo. “Uma imagem vale mais do que mil palavras”. Sendo assim, ficamos de olhos fechados para uma mortandade trezentas vezes maior do que a do Oriente médio, por falta de cobertura. Os senhores governantes muçulmanos da guerra do Sudão, já contam 300 mil mortos entre cristãos e animistas, afora os três milhões de refugiados que se deslocaram para Darfour. Diante dessa gigantesca guerra civil no Sudão, o conflito da palestina parece ser coisa secundária.


Lógico, que não interessa a mídia apresentar as imagens dos nossos paupérrimos irmãos africanos sendo dizimados de forma selvagem. Com certeza, as guerras tribais desse povo não elevam o Ibope. Lá não há jogo político de grandes proporções, nem riquezas econômicas que despertem interesses nos paises ricos. Enfim, a África não é a vitrine do mundo. Afinal, as vidas dos africanos são a nossa nódoa maior, e como tal foi colocada lá no porão do esquecimento, como uma criança faz com um brinquedo velho e imprestável.


Para nós, que estamos de longe, a imagem da vitrine do ódio e da violência que nos é transmitida, parece ser só coisa que se passa lá no Oriente médio. Entretanto devemos abrir os olhos para uma outra imagem: a imagem interna, que está intrínseca no nosso ser, e que nos ameaça através de um mecanismo patológico ─ “o da projeção”. Por mais estranho que pareça, o inimigo surge como personificação de todo o mal, porque todo o mal que sinto em mim se projeta nele. Já que o mal foi transferido para o outro lado, eu me considero a personificação de todo o bem. O resultado é a indignação e o ódio contra o inimigo, e a minha autoglorificação sem crítica. Esse pensamento individual quando se torna uma paixão coletiva, desemboca na destruição mortal das guerras.


Levi Bronzeado dos Santos
Guarabira, 09 de janeiro de 2009

04 janeiro 2009

AS DUAS FACES DA GUERRA






A guerra é uma “moeda” ─, resolvi criar esta metáfora, em meio às notícias de tanto sangue derramado e ainda por derramar lá na faixa de Gaza.


Normalmente não vemos as duas faces da moeda ao mesmo tempo. Uma fica sempre escondida e para baixo. A que está a nossa vista é sempre a face de cima. Tem mais: as duas faces da moeda nunca são iguais (vide a brincadeira de cara ou coroa).


Mas o que tem em comum a guerra com a moeda? ─ perguntarão os senhores.


E entusiasmadamente direi:


Em todas as guerras desde que o mundo é mundo, há sempre duas histórias: a história dos vencedores e a dos vencidos. A narrativa dos louros colhidos pelos guerreiros vencedores vem logo à tona. É a primeira a ser imposta e acolhida pela mídia. A história dos perdedores é como o eco, o qual é ouvido sempre depois do estrondo inicial.


Não foi diferente na história de nosso país. Quando estudante de Ginásio, a minha mente foi como que repetitivamente impregnada pela história contada do ponto de vista dos Portugueses, nossos exploradores, que aqui vieram trazer as “virtudes” da civilização Européia. Na época das minhas primeiras letras eu só via a moeda por esse lado. Muitos anos depois, já formado, é que pude atentar para a existência da outra face da moeda, ao entrar em contato com a narrativa histórica do ponto de vista dos nativos, que tiveram a sua cultura destruída em prol de um suposto progresso moral e social.


Venho assistindo diàriamente há mais de uma semana a carnificina do Oriente Médio transmitida ao vivo via televisão e internet. Em pleno século XXI, olhando pedaços de cadáveres e sangue fluindo como rios, em contraste com a alegria do pipocar das rolhas de champanhe saudando o novo ano, eu me pergunto:


Em que a civilização está nos abrandando?


Se o que se entende por civilização for o jogo de palavras e manchetes inúteis da ONU, dos EUA e dos principais governos da Europa diante de uma guerra, ela desenvolveu no homem por todos esses séculos apenas uma diversidade de sensações... e nada mais. Não seria mais honesto se estes homens se desnudassem de suas máscaras e admitissem que, lá no fundo, encontram certo prazer no derramamento de sangue?


Séculos e séculos de civilização, e o que podemos concluir: o homem tem se tornado um sanguinário pior e mais hediondo. Antes, ele com a consciência tranqüila massacrava aquele que julgava merecer, e achava que isso era um modo de fazer justiça. Hoje, ainda que ele julgue que derramar sangue é uma torpeza, mesmo assim o pratica, e ainda mais do que no passado.


Não resta dúvida que a razão é coisa boa. A razão torna-se um mal quando se faz dela o pior instrumento da irracionalidade, que é chegar ao cúmulo de admitir como solução, matar o seu próximo.


Sabendo que a guerra é a forma de barbárie mais primitiva pelo aparecimento dos elementos mais arcaicos e destrutivos que existe no homem, o despojamento das armas seria o melhor sinal da abdicação desses instintos e desejos incontroláveis.


Ah, se cada guerreiro soubesse que ele também é como uma moeda, tendo também duas faces distintas em seu ser. Ao se situar do lado do bem, querendo exterminar o “mal” na pessoa do seu inimigo, ele sem querer está destruindo a si mesmo. Coitado desse valente soldado, não sabe que está ferindo gravemente a sua face encoberta, ao tirar a vida do seu semelhante.


Ensaio por Levi B. santos
Guarabira, 04 de Janeiro de 2009






02 janeiro 2009

DISCURSOS QUE ALIMENTAM A CULPA E O MEDO




Por vinte séculos a igreja vem pregando a salvação, a graça e o perdão de Deus a uma humanidade assediada pelo medo e pela culpa. Uma das noções que mais prejudicam as pessoas que anseiam pela GRAÇA e que está tão arraigada na mente humana, é a questão de que “tudo tem que ser pago”. Mesmo sabendo que Cristo tomou sobre si nossas culpas, as pessoas não abrem mão de seu passado cheio de faltas e falhas e, nem parecem demonstrar que foram perdoadas, vivendo como se estivessem sendo corroídas por dentro angustiadamente.


As práticas do passado, volta e meia, passam a cercear a liberdade do cristão, como um fantasma que o acusa de não ter sido absolvido de suas atitudes pregressas. Segundo o cristão e psiquiatra suíço Paul Tournier, tudo isso se passa como uma forma de punição que o sofredor administra a si mesmo, e continua repetindo indefinidamente como uma espécie de fatalidade inexorável. Nunca foi o projeto do evangelho, extinguir a nossa espontaneidade para nos transformar em “autômatos”.


Estamos vivendo numa época em que os julgamentos apregoados por certos guias espirituais estão disseminando o medo e alimentando a culpa. E, se não vigiarmos, esse amargo veneno pode até nos esterilizar e nos impedir de produzir os verdadeiros frutos.


Numa época em que tanto se acusa, tanto se amedronta, tanto se castiga, é preciso que nos debrucemos, mais uma vez, para uma reflexão sincera e profunda sobre o emblemático caso da mulher apanhada em adultério, narrado nos evangelhos. A nossa atenção deve estar redobrada para entender que nessa história, o objetivo da acusação dos guardiões da Lei não se baseava em um preconceito social ou moralista. Eles acusavam a mulher pecadora valendo-se de uma citação das Escrituras Sagradas, no intuito de atemorizar Cristo, quanto a uma resposta que pudesse contestar o que preconizava a Lei. Disseram eles:


“E na lei mandou Moisés, que tais mulheres sejam apedrejadas. Tu, pois, o que dizes?”


É nesse momento que o Mestre dos Mestres opera a mais estranha inversão. Ele apaga a culpa que esmagava a mulher e ao mesmo tempo suscita culpa naqueles que supostamente não a experimentavam: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro a lhe condenar”. Em termos psicológicos, esta instigante resposta de Cristo pode ser assim explicada: “Deus apagou a culpa consciente da pecadora, e tornou consciente a culpa reprimida dos seus acusadores”.


Vejamos agora um exemplo de um aparente conselho ou julgamento em que está embutida a semente do medo pelo reforço da culpa:


“A mãe vendo a filha chorar a morte de seu pai, insinua: ‘não chore por seu pai, ele morreu porque você não era boazinha. Agora você vai ter que me obedecer!’”.


Traduzindo as palavras da mãe, veremos que ela inconscientemente semeou culpa, para depois exigir através do medo, uma obediência sem questionamento. Lá no fundo, a mãe exigia a submissão da filha como expiação pelo suposto pecado de ter sido um entrave na vida do pai.


Não é raro vermos em nosso meio, pessoas zelosas em socorro aos doentes e necessitados, como também não é raro vermos os que esmagam os enfermos com testemunhos conflitantes, que dão a entender que o doente não sara, porque lhe falta a fé. E a pessoa que já carrega a culpa por estar doente, agora acrescenta uma outra bem mais grave: a idéia de ter culpa porque não tem fé para ser curado.


Já é tempo de revisarmos conceitos e paradigmas arcaicos, para entender que a finalidade da religião é libertar e não esmagar. É libertar da culpa e não culpar. É tornar o jugo suave e não árduo. É tornar o fardo leve e não pesado


Não é brandindo a espada do medo que iremos salvar os que estão se afogando nas águas turvas, revoltas e profundas desse imenso oceano que são as trevas da ignorância. A palavra ameaçadora, filha do medo, ao invés de ajudar as almas a não naufragarem, antes semeia a intranqüilidade que as leva mais rápido ao fundo do abismo.




Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 03 de Janeiro de 2009