15 outubro 2012

OUTUBRO ― Mês Especial




No meu tempo de criança, outubro era um dos meses mais chatos do ano, porque todo dia era dia de escola. Era conhecido, apenas como o mês das eleições, as quais eram realizadas de quatro em quatro anos, num domingo. Não me lembro de algum tipo de comemoração, tipo, “dia da criança”, até os meus 18 anos de idade.

Mas a Wikipédia, sempre ela, está aqui a dizer na telinha do meu computador: “o dia da criança foi criado por um político brasileiro — o presidente Arthur Bernardes por meio do decreto n° 4867 de 5 de novembro de 1924”.

Fico confuso, e me pergunto: Por que nunca, nos cafundós da Paraíba, onde resido, essa data, no meu tempo de menino, foi alvo de festividades?

Adiantando-me nas pesquisas Googlianas, lá encontrei a resposta: “Para aumentar as suas vendas, as empresas decidiram criar a Semana da Criança. Os fabricantes de brinquedos, encabeçados pela Fábrica de Brinquedos Estrela, só em 1960, é que decidiram escolher um único dia para a promoção e venda de suas bugigangas infantis, fazendo ressurgir o antigo decreto presidencial até então em desuso”. 
Quanto aos brinquedos da marca “Estrela”, lembro-me bem, só os recebia uma vez por ano, entre os 10 ou 12 anos de idade — por ocasião da engalanada noite de Natal (25 de Dezembro). 

Mas o 12 de Outubro, na minha meninice era conhecido, tão somente, como o dia do Descobrimento da América, e não era feriado. Com o estabelecimento do “Dia da Criança”, o mês que era magrinho em matéria de datas comemorativas, começou a engordar. Mais tarde, esse mesmo dia viria a se empanturrar com o acréscimo de mais uma solenidade — a do dia da padroeira do Brasil (N. S. Aparecida), criada por um decreto em 1980.

Sabedor de que o Dia da Criança foi instituído por interesse puramente mercantil, resolvi de novo recorrer a Wikipédia: lá pude compreender porque os outubros tão tranqüilos de minha infância, hoje, estão congestionados de “feriados”. É que outubro, no nosso calendário, é o mês da entressafra (espremido entre o mês de São João/São Pedro e o mês do Menino Jesus).

O embriagador estímulo pelas comemorações, que não são de graça, foi longe. O leitor pode constatar, abaixo, como ficou o mês de outubro, numa tabela bem atualizada que encontrei no Google:

01/10 — Dia Internacional da Terceira Idade
01/10 — Dia do Vendedor
01/10 — Dia Nacional do Vereador
03/10 — Dia Mundial do Dentista
03/10 — Dia do Petróleo Brasileiro
03/10 — Dia da Natureza
04/10 — Dia das Abelhas
04/10 — Dia do Cão
04/10 — Dia do Poeta
04/10 — Dia do Barman
04/10 — Dia Mundial dos Animais
04/10 — Dia de São Francisco de Assis
05/10 — Dia das Aves
07/10 — Dia do Compositor
08/10 — Dia do Nordestino
09/10 — Dia do Açougueiro
10/10 — Dia da Ciência e Tecnologia
11/10 — Dia do Teatro Municipal
11/10 — Dia do Deficiente Físico
12/10 — Dia da Criança
12/10 — Dia do Descobrimento da América
12/10 — Dia de N. S. Aparecida
12/10 — Dia do Engenheiro Agrônomo
12/10 — Dia do Atletismo
12/10 — Dia do Corretor de Seguros
13/10 — Dia do Terapeuta Ocupacional
13/10 — Dia do Fisioterapeuta
14/10 — Dia Nacional da Pecuária
15/10 — Dia do Comerciário
15/10 — Dia do Professor
16/10 — Dia Mundial da Alimentação
16/10 — Dia do Anestesiologista
17/10 — Dia da Indústria Aeronáutica
17/10 — Dia do Eletricista
18/10 — Dia do Médico
18/10 — Dia do Pintor
18/10 — Dia do Estivador
19/10 — Dia do Profissional de Informática
20/10 — Dia do Controlador de Tráfego Aéreo
20/10 — Dia do Arquivista
21/10 — Dia do Contato
21/10 — Dia do Economista Doméstico
22/10 — Dia do Aviador e da FAB
24/10 — Dia da ONU
25/10 — Dia da Democracia
25/10 — Dia do Dentista
25/10 — Dia do Sapateiro
28/10 — Dia de São Judas Tadeu
28/10 — Dia do Funcionário Público
29/10 — Dia Nacional do Livro
30/10 — Dia do Balconista
30/10 — Dia do Comerciário
30/10 — Dia do Fisiculturista
 30/10 — Dia do Ginecologista
31/10 — Dia do Comissário de Voo
31/10 — Dia das Bruxas
31/10 — Dia da Reforma Luterana


Por Levi B. Santos
Guarabira, 15 de outubro de 2012

Site da Imagem: maniadeguria.com.br

09 outubro 2012

Arco-íris Histórico em Brasília





Hoje, enquanto saía a condenação do núcleo político do mensalão, o céu escureceu na capital do Brasil. Houve um começo de trevas, mas sem trovões. Um arco-íris, de repente se formou nos céus de Brasília. Um fotógrafo fazendo de sua máquina um meio artístico, cuidadosamente, disparou o flash, captando a escultura, “A justiça” ― estátua em granito de cerca de três metros de altura, situada em frente ao edifício do STF, tendo ao fundo, um belíssimo arco colorido, como que impedindo a aproximação de nuvens negras sobre o local. 

 A escultura saudada hoje em Brasília por um “arco íris”, representa a deusa grega Thémis, filha de Urano e Gaia considerada a guardiã dos juramentos dos homens. A faixa cobrindo os seus olhos significa a imparcialidade: para não ver diferença entre ricos e pobres, entre poderosos e humildes, entre grandes e pequenos ― Tudo de acordo com o espírito do histórico julgamento em pauta.

Que grande coincidência, o aparecimento desse majestoso arco-íris, justamente quando se selava o maior julgamento do século,  considerado por muitos como o divisor de águas, ao separar o antes do depois, no que diz respeito a impunidade quanto ao crime do colarinho branco. Bem, o significado dessa belíssima foto, só o amanhã dirá.

E por falar em arco-iris, não custa nada lembrar que sua origem deriva da deusa Íris. Íris, na mitologia grega, era a divindade feminina que trazia a mensagem dos deuses para os seres humanos.

Para os que acreditam em sinais nos céus, resta aguardar o que  Íris irá, no futuro, aprontar na Terra-Brasilis; terra que o nosso ancestral Dom João VI, um diaquando ainda não existia a deusa Thémis por essas bandas, saqueou para irrigar os cofres do além-mar.


Por Levi B.Santos
Guarabira,09 de outubro de 2012

Imagem:  Veja.abril.com

27 setembro 2012

A Trindade Bem Humana de Feuerbach




Foi lendo a A Essência do Cristianismo ― maior obra, de Ludwig Feuerbach (1804 ― 1872) —, ainda hoje muito polêmica, que pude compreender o “por quê” de Freud (1856 ― 1939) ter dedicado tanta afeição e reverência a este discípulo de Hegel, a ponto de o considerar seu filósofo por excelência. Se Freud foi o pai da psicanálise, porque não dizer que Feuerbach foi o avô desse campo da investigação da psique humana?

A antológica obra de Feuerbach, publicada pela primeira vez em 1841, continua muito atual e, muitos dos seus conceitos são objetos de análises no campo das ciências humanas.

Nesse fenomenal livro há um capítulo emblemático que despertou a minha atenção de forma especial ― o de número VII ―, que consta de oito páginas, o qual versa sobre o “Mistério da Trindade e da Mãe de Deus”. Talvez, a minha militância no meio protestante, durante a minha meninice, tenha influído em maior grau no desejo de devorar com avidez o denso livro desse humanista, filósofo e antropólogo alemão, nascido em Heidelberg ― Alemanha.

Não resisti, e resolvi trazer à tona alguns trechos em que ele descreve com uma perspicácia incomum, como o religioso percebe dentro de sua essência psíquica o que se convencionou como o “Mistério da Trindade”.

Esse inteligente autor, tão combatido pela elite religiosa do seu tempo, revela verdades profundas da psique, tanto do católico, quanto do protestante; conteúdo que transcrevo aqui, retirado das páginas 96 e 97 da recente tiragem do livro pela Editora Vozes (2007) ― edição, ao que parece, já esgotada:

“O filho (refiro-me aqui ao filho natural, humano) é em si e por si um ser intermediário entre a essência masculina do pai e a feminina da mãe, é ainda meio homem, meio mulher, não tendo ainda a consciência autônoma total, rigorosa, que caracteriza o homem e que se sente mais inclinado para mãe do que para o pai. O amor do filho pela mãe é o primeiro amor da essência masculina pela feminina. O amor do homem pela mulher, do jovem pela moça recebe a sua consagração religiosa (a única verdadeiramente religiosa) no amor do filho pela mãe. O amor do filho pela mãe é o primeiro anseio, a primeira submissão do homem à mulher.

Por isso a idéia da Mãe de Deus está necessariamente unida à idéia do filho de Deus o mesmo coração, o de um filho de Deus necessita de uma mãe de Deus. Onde existe o filho não pode faltar a mãe, o filho é inato ao pai, mas não o pai para o filho. Por que Deus o filho só se tornou homem na mulher? Por que outro motivo a não ser pelo fato ser um anseio pela mãe, pelo fato do seu coração feminino, carinhoso só ter encontrado a sua expressão correspondente num corpo feminino? Na verdade o filho permanece, enquanto homem natural somente durante nove meses sob a proteção do coração feminino, mas indeléveis são as impressões que ele aqui recebe; a mãe nunca sai da mente e do coração do filho. Por isso, se a adoração do filho de Deus não é uma idolatria, também não é a adoração da mãe de Deus uma idolatria. Se devemos reconhecer o amor de Deus por nós pelo fato dele ter sacrificado para a nossa salvação o seu filho unigênito, o que ele mais amava, podemos reconhecer ainda mais esse amor se um coração materno palpita por nós em Deus[...].

[...] O protestantismo deixou de lado a mãe de Deus; mas a mulher preterida vingou-se seriamente dele [...]. [...] O antropomorfismo é certamente disfarçado ao ser excluída a essência feminina, mas só disfarçado, mas não anulado. Certamente não tinha também o protestantismo nenhuma necessidade de uma mulher celestial, porque acolheu de braços abertos a mulher terrena. Mas exatamente por isso, deveria ser suficientemente coerente e corajoso para, junto com a mãe, abandonar também Pai e Filho”.

Foi com sua Trindade bem humana que Feueurbach demonstrou que os afetos (essência) entre “filho-mãe-pai” estavam divinizados no homem. Para ele a Trindade reunia as qualidades ou capacidades psíquicas do UNO, consideradas separadamente. Freud, na formulação do “Complexo de Édipo”, se valeu da mesma “essência” Feuerbachiana para mostrar o quanto o ser humano ocidental em seus primeiros momentos de vida encontra-se alienado a mãe para, em uma etapa posterior, se tornar ambivalente com fases ora de submissão ora de hostilidade, ora de amor e ódio ao pai.

Quem já foi criança guarda lembranças, nem que sejam tênues, do reino dessa Trindade “Pai-Mãe-Filho”, onde as fantasias e  mentiras bem pregadas suplantavam as dores dos castigos e das proibições.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 27 de setembro de 2012

Site da imagem: amagolit.blogspot.com

16 setembro 2012

A FÚRIA DE SEMPRE




A fúria resultante da intolerância religiosa vem tomando corpo ultimamente em todo o mundo. Protestos varreram a imprensa mundial ante ontem, tudo provocado por um filme dos EUA que denigre o profeta Maomé.

 No ocidente, baluarte do iluminismo quem diria? É nesse ocidente onde se estabeleceu o histórico direito de respeitar o outro em sua subjetividade, que uma perigosa combinação de fobia e ignorância se vem preconizando contra o Islã. Não há dúvidas de que somos os maiores hipócritas, pois, como supostos herdeiros da razão não estamos preparados para aceitar aqueles que percebem de modo diferente aquilo que tem como sagrado.

Ignoramos ou fingimos ignorar que somos portadores de um impulso de tendências autodestrutivas. Com que facilidade repetimos para nós mesmos essa tão velha mentira: “isto, só está assim por causa do outro!”. Freud acreditava em um princípio que o cristianismo tomou emprestado da filosofia: o de que o nosso maior inimigo é interno e, de forma definitiva, nos pertencia. Grande verdade!

É pura balela dizer-se que se preocupa com o destino da humanidade. O que queremos realmente é a homogeneização ou massificação em que os limites individuais da subjetividade cultural desapareçam. Lá no fundo, o que queremos é continuar a ver com bons olhos normas sociais e culturais se atritarem em suas fronteiras. Dizemos que é heróico morrer pela pátria e pela religião, sem saber que o motivo desse instinto de destruição é conseqüência da falta de síntese entre nossos afetos paradoxais.

Ali Kamel, redator-chefe da revista Veja, filho de um muçulmano e uma baiana, casado com uma Judia, diz algo que devemos nos debruçar para mastigar melhor: “O ‘inimigo’ hoje acredita que fala com Deus. Para eles o apocalipse não é o fim do mundo, mas apenas uma verdade revelada, inescapável, anunciadora do Reino dos Céus na Terra. O mundo não se dá conta de que, para o neurótico em busca do Paraíso, não há diferença entre morrer para matar dezenas ou morrer para matar milhares”.

A guerra entre os "exércitos de Jesus" e os "exércitos de Maomé" — é mantida pelo mesmo e inflamável gás. Esse é o combustível que, desde os tempos bíblicos imemoriais, através dos livros ditos sagrados, continua a fazer estragos. O mito de Abel e Caim é a nossa marca humana, e como ela está tão presente em momentos como esses, em que a máxima de destruir o outro numa tentativa de apaziguar os nossos conflitos internos se torna mais presente.

O filósofo “herege” Nietzsche, foi um dos que exploraram a dúbia natureza humana.  REATIVO, como todo homem, assumiu a gravidade de seus impulsos inconscientes. Ele percebeu que por trás da doutrina religiosa existia a má consciência ou ressentimento que esgotava a força dos “seus piedosos exércitos mentais” na pretensão de um inalcançável aprimoramento moral.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 14 de setembro de 2012


Site da imagem: oglobo.com

07 setembro 2012

São Ridículos? - Acerte Neles!

Foto do Club Recreativo 31 ― Alagoa Grande ― Construído em 1920



Sempre que acontecia baile no clube recreativo 31 de minha cidade natal ― Alagoa Grande (brejo paraibano), sem ser convidados, lá estávamos nós no parapeito de uma das janelas brincando de arremessar bolinhas de papeis, apostando quem acertava mais as cabeças dos casais que dançavam no majestoso salão da famosa agremiação. Sentíamos excluídos daquele ambiente em que uma classe rica dançava sem perceber ao menos que existíamos. Até ríamos de nós mesmos, por nos vermos imaginariamente dentro do recinto pedindo a mão daquelas ricas meninas para dançar e sendo por elas humilhados, rindo de nossas caras. 


Não sabíamos que estávamos, ali, exercendo a nossa gozação: era como se lá das profundezas do inconsciente, uma voz estivesse a nos dizer: “são seus alvos, acertem neles!”. Quem sabe se nesse atirar de bolotas de papel não estaríamos à procura dos nossos próprios corpos nos corpos alheios que dançavam ao som de belíssimos boleros executados pela grande orquestra paraibana, Tabajara, do inesquecível maestro Severino Araújo.

A minha patota, pela incapacidade de enturmar-se com os rapazes e as moças dançarinas, se via excluída de gozar as “delícias” daquela festa. Jogar peteca nas cabeças dos dançarinos era uma maneira de compensar a nossa baixa auto-estima. Ao mesmo tempo, ali, nas pontas dos pés, agarrados ao gradil da janela, sem nem perceber a frieza da madrugada, o nosso grupo conquistava um lugar no mundo — o de reagir sem ser visto.  

Está certo a psicanálise, quando diz: “contestar ou criticar, não deixa de ser uma maneira de conquistar um lugar ao sol”. Quando também afirma: “O homem necessita das excitações exteriores para agir. Em outras palavras sua ação é no fundo uma reação.”

E não é que comecei a perceber àquela massa esfuziante da sociedade como ridícula?! Naquele tempo nada sabia de Freud, para, pelo menos entender que me tornara um crítico destrutivo. Eles (os de dentro do clube) eram, naquela ocasião, a minha instância crítica. Comecei a achar àquela empolgação dançante regada a uísque, uma farsa. Ali, senti desprezo pela facilidade com que muitos se entregavam a frivolidade.

Guimarães Rosa narra de maneira impar o “jogo dos dois espelhos”, representativos do querer e do não querer, contidos em nosso ser ambivalente, se não vejamos:

 “Os dois espelhos — um de parede e outro de porta lateral, em ângulo propício — faziam jogo. E o que enxerguei, por um instante, foi uma figura, perfil humano desagradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo. Deu-me náusea, aquele homem, causava-me ódio e susto, eriçamento e espavor. E era — logo descobri... era eu, mesmo!. ― O senhor acha que algum dia eu ia esquecer essa revelação?.”

Mas a revelação “Guimarães-Rosiana” me diz que o adolescente que não conseguia se entrosar com os de dentro do clube, ainda existe escondido num porão secreto de minha psique. Às vezes ele se manifesta contestando os avanços insossos da modernidade; outras vezes, esse adolescente rebelde, até parece pertencer a um grupo avesso à sua família originária, querendo se afirmar como independente. De certa forma, ele continua atirando petecas de papeis nas cabeças dos que não fazem parte de seu grupo — uma maneira de, pelo menos em fantasia, reviver o prazer de bater naqueles que, ilusoriamente, não lhe davam bolas, lá no “gueto festivo” do Clube 31.

A exclusão que cultivávamos era percebida reativamente sob  a forma de ressentimento, como se nela estivesse encerrada a condição que considerávamos perfeita de olhar o mundo, tudo, porque nos esquecíamos de olhar o lado avesso ― coisa que uma sutil pergunta poderia revelar a cada um do grupo a que pertencíamos ―, tipo: ”Eles são ridículos porque nos excluem, ou somos excluídos por não enxergamos o ridículo que há em nós?”


Por Levi B. Santos
Guarabira, 07 de setembro de 2012

29 agosto 2012

O Filosoficamente Ateu




Na Gastronomia é comum se dizer:  “o melhor fica para o fim!”. E isso eu comprovei em minha infância, quando nos almoços festivos dos domingos na casa de minha mãe, sempre deixava a moela e as gemas cozidas de galinha caipira para serem degustadas no final da refeição. Por sinal, a minha primeira neta, Ana Gabrielle, de 6 anos de idade,  já incorporou esse costume ancestral de nossa cultura.

 Dito isto, trago o ditado em pauta, para ser inserido no campo da Literatura, uma vez que é bastante comum, os ensaístas colocarem o melhor de seus textos no desfecho do livro, como se estivessem guardando para o final o melhor de sua lavra para apreciação do leitor.

Foi lendo a coletânea de ensaios reunidos no livro “Contra Um Mundo Melhor” (Editora LeYa) ― do filósofo, psicanalista e colunista da Folha de São Paulo — Luiz Felipe Pondé, que pude corroborar o aforismo gastronômico, “Do Melhor Fica Para o Fim”.

Achei todos os ensaios do autor, maravilhosos. Ele nada contra a maré das fórmulas e manuais de felicidades tão em voga na mídia, quando diz no prefácio do seu livro: “Sou cético e carrego comigo uma sensibilidade trágica. Por que? Porque o que nos humaniza é o fracasso. Tenho medo de pessoas muito felizes”. 

Como que confirmando o ditado popular aqui ventilado, foi o último dos seus ensaios, com o título — “No Sinai” —, que despertou em mim uma maior empatia. Ele se encontra dividido em três partes e, dentre os três capítulos, de novo, em harmonia com o adágio popular, “fiquei com a última parte”, que passo a reproduzir, para a degustação daqueles que amam a boa literatura.

NO SINAI (parte III)

Nunca deixei de ser filosoficamente ateu. A passagem da condição de ateu para a de não ateu (não sou propriamente religioso) se deu assim como quem sai de casa num dia ensolarado e é apanhado por uma tempestade. Mas, apesar de ser uma tempestade tão concreta quanto a chuva, só aprendi a nomear sua substância quando fui á tradição: trata-se daquilo que muitos místicos chamaram de misericórdia. Às vezes, preciso fugir para um abrigo para respirar. Quando olho à minha volta, vejo estranha misericórdia sem causa a escorrer pelo céu. E por alguma razão que desconheço, o cético e trágico que sou é obrigado a contemplar isso contra todas as faculdades intelectuais e volitivas que me constituem. Sou apenas alguém que, sem  até hoje saber a razão, passou a ser constantemente visitado — no sentido mais comum que a expressão tem, por exemplo, na tradição do cristianismo ortodoxo — pela sensação de que o mundo é sustentado pelas mãos de uma beleza que é também presença que fala.

Passei a estudar textos místicos para entender o que acontecia comigo. No fundo, para não me sentir só. Nesse sentido é que, dentro da sorte que sempre tem marcado minha história de vida, encontro pessoas, assim como eu, descontentes com seus “grandes números” e sua banalidade. Saúdo assim a voz de todas as pessoas de boa vontade à minha volta, como quem ouve a beleza da misericórdia, escorrendo por suas palavras e letras, que inunda o mundo. Vejo, com estes meus olhos feitos de pó, esta beleza contemplar meu vazio. Nesse momento, sinto-me no SINAI, o gosto do deserto na boca e nos elementos naturais à minha volta, que anunciam o fim de tudo que existe, e a força da graça que transforma o nada em matéria e espírito. (Luiz Felipe Pondé)

Por último, trago aqui uma palhinha de Felipe Pondé no programa Roda Viva da TV Cultura de São Paulo, onde ele fala sobre Preconceito, Religião, Moral, Fundamentalismo e conceito filosófico de Deus:




P.S.:
Por incrível que pareça, o vídeo postado tem no seu FINAL a parte mais empolgante, em consonância com o adágio que diz: “O melhor Fica Para o Fim”

Guarabira, 29 de agosto de 2012

Site da Imagem: luizfelipeponde.wordpress.com

22 agosto 2012

O “Amor” Idealizado no Cinema e na Literatura





Cursos de preparação para o casamento, dos quais pululam esperadas maravilhas, são destaques no mundo inteiro, principalmente nos EUA, onde terapeutas, padres, pastores e pesquisadores se reúnem com freqüência cada vez maior no sentido de manter os requisitos de tradição, família e propriedade, que constituem os pilares básicos dessa instituição secular.

O psicanalista Jurandir Freire, em seu livro, Sem Fraude Nem Favor, desmonta o ideal platônico que permeia o casamento, ao afirmar: “Renunciem a ser o Príncipe e a Cinderela, destinados a viverem felizes para sempre, e encarem as trapalhadas que vierem”.

O psicanalista, Contardo Calligaris, num artigo publicado na Folha de São Paulo em junho de 2001, discorre sobre o ideal do amor romântico exibido no cinema. Hollywood, como vocês todos sabem não pára de explorar o lado romântico idealista. Claro que a mega usina cinematográfica americana tem aí, o seu maior filão ― ser o receptor de nossas identificações narcísicas.

Quem não se lembra do filme Casablanca, em que o público inteiro se identificou com Bogart, que como “bom macho” renunciou a viver seu grande amor, para entrar na resistência clandestina? Quem não se lembra de Titanic, onde um DiCaprio salva sua bela princesa ao custo da própria vida ― a eterna namorada Kate Winslet ―, essa, idealista de um amor que nunca teve tempo de vingar? Quem não se lembra de Love Story, mediado por um casal intensamente apaixonado, onde embutido na trama cinematográfica estava explícita uma morte anunciada?

 Calligari, sobre os grandes filmes românticos que encantam o público, deixa um veredicto no ar: “O que, finalmente, se extrai da essência desses filmes são o sacrifício, o luto e a idéia de sobreviver como lembrança indelével na memória de quem fica; em suma o que é idealizado nunca é o convívio, mas a perda, a saudade, o luto ou, no máximo, a procura”.

Interessante é que quando a história termina bem, o filme acaba, como na história tão repisada de Cinderela. O que a história de Cinderela inocula nas mentes infantis? Ela atiça ou reaviva na mente da menininha o desejo de completude ou a crença de que existe um homem perfeito (príncipe) que um dia vai fazê-la feliz para sempre.

Fausto Motta, em seu livro, Contos e Lendas Interpretados pela Psicanálise (Editora Vozes ― página 10), sobre a história de Branca de Neve, faz uma constatação muita significativa: “A psicanálise nos permite entender que a neurose de Branca de Neve era tão grave, que a garota foi induzida a fugir de seu lar, por ódio à sua rival (a mãe), terminando por coabitar simultaneamente com sete homens, que, por fim, comparados ao seu ideal amoroso (o pai), eram tão inferiores que se assemelhavam a anões...”

Mas você, caro(a) leitor(a), já reparou que a felicidade tão almejada da história de Cinderela e seu príncipe encantado, representada pelo convívio cotidiano entre os consortes na maioria dos filmes românticos, nunca acontece na tela? Talvez não seja tão rentável, o filme mostrar o óbvio, ou seja, a insatisfação e a falta que estão sempre escritos nos corações dos príncipes e das princesas da modernidade, até que a morte os separe.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 22 de agosto de 2012
Site da imagem: gilbertocarlos-cinema.blogspot.com

19 agosto 2012

Pena de Morte Lá e Aqui




Nas sociedades tradicionais, como a dos países árabes, a punição máxima (pena de morte) é decidida por uma autoridade superior. É um deus absoluto ou um texto sagrado que dá a sanção antecipada: quem roubar, matar ou assaltar será enforcado ou terá a mão cortada, sendo as execuções festejadas pelo público ante um soberano que se encarrega da aplicação da pena.

No mundo ocidental sob o pano de fundo da “democracia”, são os cidadãos comuns a fonte de toda autoridade jurídica e moral.

Indagado por uma leitora que incisivamente perguntou “o que um psicanalista, pensava sobre a pena de morte?”, por ocasião do hediondo crime de Santa Tereza – Rio de Janeiro (maio de 2001), Contardo Calligaris, psicanalista e colunista da Folha de São Paulo teceu considerações bastante interessantes, das quais trago à tona trechos imperdíveis:

“[...] Matar um condenado à morte (em nossa sociedade) não é uma festa, pois é difícil celebrar o triunfo de uma moral que é tecida de perplexidades. As execuções (aqui) acontecem em lugares fechados, diante de poucas testemunhas: há uma espécie de vergonha. Essa discrição é apresentada como um progresso: os povos civilizados não executam seus condenados nas praças. Lá, a lei bíblica de Talião (olho por olho e dente por dente) é exemplarmente aplicada. Aqui, passamos à recomendação de Cristo: ‘Quem estiver sem pecado atire a primeira pedra’. Numa versão laica e psicanalítica, convencidos de carregar em nós mesmos os germes da depravação, não ousamos punir de maneira radical se, punindo, não estamos reprimindo nos outros algo que queremos de fato reprimir em nós mesmos”.

O colunista recorre a Freud para responder a pergunta sobre pena de morte, de sua leitora e, por tabela, do público que lê os seus artigos:

[...]Freud descobriu que, toda vez que somos levados a desistir de alguma satisfação, a raiva de ter de renunciar se transforma em vontade de policiar e de reprimir os outros. A obediência às regras de comunidade nos pesa: consolamo-nos e vingamo-nos tanto mais nos tornamos repressores. Por exemplo, já queimamos ou degradamos homossexuais e sodomitas como medida de proteção contra nossos próprios desejos homoeróticos, que julgávamos perigosos para a constituição de “saudáveis” comunidades cristãs. Em suma reprimimos em nós desejos e fantasias cuja atuação nos parece ameaçar o convívio social. Logo, frustrados, zelamos pela prisão daqueles que não se impõem as mesmas  renúncias. Até aqui, tudo bem: reprimir é mesmo parecido com prender — a vida social pede que confinemos desejos e pessoas. Mas a coisa muda quando a pena é radical, pois há o risco que a morte do culpado sirva para nos dar a ilusão de liquidar, com ele, o que há de pior em nós[...]. [...] Em geral, a justiça sumária é isto: uma pressa em suprimir desejos inconfessáveis de quem faz justiça”.

Foi dessa forma que Contardo Calligaris, em resposta a sua leitora, como psicanalista, expôs seu pensamento de que gostaria que a morte dos culpados não servisse para exorcizar nossas piores fantasias ― sobretudo, porque o exorcismo seria ilusório.

No final, o autor faz uma alusão emblemática, convidativa a nossa reflexão: a de que, talvez, seja possível a existência de crimes hediondos, nos quais, não reconhecemos nada de nossos desejos reprimidos.

De tudo que foi escrito pela pena de Contardo Calligaris em seu ensaio, uma coisa, não podemos negar: a de que a pena de morte, lá, nos países de religião muçulmana existe de forma escancarada, enquanto aqui, no mundo “cristão”, ela é envergonhadamente escondida nos porões do sub-mundo.


Guarabira, 19 de agosto de 2012

Site da imagemmigalhas.com

16 agosto 2012

Adeus Velha Guerreira!




Nas quatro vezes que a vi em minhas visitas na UTI do Hospital Regional de Guarabira – Pb, pude perceber que a fuga do tempo havia parado para ela. Um relógio na parede marcava as horas para mim, não mais para ela. Para minha mãe que exibia um aspecto tranqüilo, como nunca tinha visto nas últimas semanas, aquele relógio de parede andava inutilmente. Ela, pouco tempo antes de morrer, ante a minha fala sussurrada ao pé do seu ouvido, disse um tremulante “Não, em resposta a minha pergunta, “se queria voltar para casa”. Nessa hora solene não havia canção, nem arpejos de qualquer instrumento musical. Só silêncio. Foi naquele ensurdecedor silêncio que pude perceber que dali ela não mais sairia para o seio da família.

Ali, de pé, olhando seu corpo quase inerte, pude perceber pelo seu semblante que o amargo poço das coisas passadas tinha evaporado, e aquilo que mais desejava em seu íntimo estava bem perto de acontecer. Subitamente senti que seus terrores antigos tinham caído por terra; os pesadelos enfim afrouxaram, abrindo espaço para os sonhos sublimes que por tanto tempo alimentaram a sua alma.

Seu semblante, ali, no ambiente frio e silencioso da UTI falou mais alto como se estivesse a revelar que nada mais absolutamente lhe interessava. A tranqüilidade que irradiava em seus últimos momentos fazia-me entender que já não tinha mais pressa de retornar à velha casa em sua querida cidade.

Bazinha (26/06/1926 — 13/08/2012) partiu porque não havia mais estrada a percorrer, deixando somente a imorredoura saudade nos corações dos filhos, noras, genros, netos, bisnetos e amigo(a)s.

Adeus, Velha Guerreira...

Guarabira, 14 de agosto de 2012

12 agosto 2012

Eu Não Olhei Sinhá




Do CD lançado recentemente por Chico Buarque de Hollanda em parceria com João Bosco, uma canção me tocou profundamente. No dolente samba quem narra suas dores é o próprio escravo que, sentenciado a ter o corpo talhado, pede clemência ao seu senhor. Na última estrofe de "Sinhá", Chico, o artista de olhos claros, herdeiro dos Buarques de Hollanda, e ao mesmo tempo sogro de Carlinhos Brown, avô de netos sarará, como que fundindo-se com a ficção poética, faz uma magnífica construção introspectiva:

E assim vai se encerrar/ o conto de um cantor/ com voz de pelourinho/  e ares de senhor/  cantor atormentado herdeiro sarará/ do nome e do renome/  de um feroz senhor de engenho/  e das mandingas de um escravo/ que no engenho enfeitiçou sinhá.


O escravo, coitado, que chora em Iorubá mas ora por Jesus, na descrição do escritor e jurista pernambucano Joaquim Nabuco tinha a sua moral estribada no medo e, não podia venerar seus deuses africanos, rendendo-se a exterioridade dos ritos católicos impostos a ferro e fogo, cujo Deus era o barro, cujo Jesus era o crucifixo, e o tronco do pelourinho o inferno sagrado de seus suplícios.

A historieta musicada e magistralmente  inspirada do velho Chico merece ser escutada. Tudo começa quando Sinhá, mulher enérgica de um ciumento marido/senhor, no seu banho de açude  é surpreendida pelo olhar "involutário" do seu negro capataz de "confiança". 

Guarabira, 12 de agosto de 2012
Site da imagem:  metamorfoseonline

04 agosto 2012

Frases Que Marcaram os Dois Primeiros Dias do Julgamento do Mensalão






O maior julgamento da história do STF brasileiro começou ante ontem, e foi matéria de destaque nas capas dos jornais de todo o mundo.

Como era de se esperar, emoções foram extravasadas, ânimos foram reavivados entre os juízes ministros. Frases emblemáticas que escapam para além do ritual estabelecido não devem ser esquecidas e, como pérolas, devem ser bem guardadas para uma reflexão aprofundada, como a fala de um juiz e a tréplica de outro membro da suprema corte, sobre “urbanidade e seu significado real e imaginário.

Seguem, algumas dessas pérolas captadas da transmissão do julgamento ao vivo, pela TV, e veiculadas pela imprensa escrita:


"- Me causa espécie Vossa Excelência se pronunciar pelo desmembramento do processo, quando poderia tê-lo feito há seis, oito meses. Vossa Excelência poderia ter pedido, eu traria em questão de ordem" - declarou Joaquim Barbosa


“Isso é deslealdade!” – disse Joaquim Barbosa à Lewandowski.


- Vi que muitas pessoas estão preocupadas com quem está vendo, com quem não está vendo (o julgamento do mensalão) e quero dizer que o julgamento do mensalão, nesta fase em que está, é para jornalista assistir e para aqueles que não têm absolutamente mais nada para fazer e tal das suas vidas...” ― declarou Lula à imprensa


"- Não gostei (do primeiro dia), pela falta de urbanidade do relator. Será que ele se arvora censor dos colegas? Fiquei pasmo, inclusive com as adjetivações impróprias, em se tratando de colegas. Isso é muito ruim, a instituição é que fica prejudicada. Espero que não haja novos incidentes" - disse Marco Aurélio.


“Em qualquer atividade humana, urbanidade e responsabilidade são qualidades que não se excluem. Mas, às vezes, a urbanidade presta-se a ocultar a falta de responsabilidade. A propósito, é com extrema urbanidade que muitas vezes se praticam as mais sórdidas ações contra o interesse público.”
“Ministro Joaquim Barbosa”
“Vice-Presidente do Supremo Tribunal Federal”


“Alguns dos saques feitos pela quadrilha impuseram que carros-fortes fossem contratados, tamanha era a magnitude dos valores” (Roberto Gurgel – Procurador Geral)




Guarabira, 04 de agosto de 2012