12 outubro 2015

A Doença da Saúde Perfeita





Nos dias atuais, o progresso tecnológico e científico vem trazendo grandes benefícios, e algumas preocupações que são importantes trazê-las à tona. Na Medicina esse avanço científico chegou ao ponto de, para dar conta do que se detecta, se criar sub-especialidades dentro de especialidades. O ser humano, para ser esquadrinhado nos mínimos detalhes, passou a ser dividido em partes cada vez menores. Cada parte com seus tipos de exames e especialistas característicos.

Já há quem considere que estamos a viver a era da Saúde Perfeita, ou a era da Doença da Saúde Perfeita. Cada vez mais, pessoas jovens estão correndo à procura de saber de que adoecerão ou que problema de saúde irão ter na terceira idade.

Estávamos acostumados a procurar o médico quando não nos sentíamos bem. Hoje, a medicina investiga minuciosamente recônditos do nosso corpo, e já permite o que há dez anos era totalmente impensável. Potentes máquinas de mapeamento corporal nas mãos de pessoal habilitado são responsáveis por um fenômeno típico do nosso tempo: a prévia feitura de um diagnóstico e prognóstico sobre determinada doença que iria, por exemplo, aparecer daqui a mais ou menos dez anos.

Quem diria que chegaria esse tempo: o de se fazer retiradas de órgãos sadios para evitar doenças graves futuras. Marcadores genéticos já identificam quais tipos de câncer que com o passar dos anos, vão aparecer no indivíduo. Recentemente, uma atriz famosa dos EUA, cujos exames genéticos davam 50% de possibilidade de ter câncer de ovários e 87% de câncer de mama, optou por duas cirurgias radicais: retiradas das mamas e dos ovários [Vide Link]

Como se comportará, então, o indivíduo diante do anúncio de uma doença da qual ela ainda não sofre?

O renomado psicanalista e professor da USP, Jorge Forbes, faz uma pequena alusão sobre como o sujeito reagiria diante de um diagnóstico prévio de uma doença grave que num futuro próximo o acometeria. No capítulo “A Psicanálise Além de Sua Clínica” , de seu recente livro, “Inconsciente e Personalidade” (Editora Manole), o autor discorre sobre o doente em face dessa nova realidade:


...passado um primeiro momento de raiva, quase sempre, a pessoa escolhe alienar-se no 'sujeito-suposto-saber' do imaginário social, ou em outros termos, em um sofrimento prêt-à-porter. [...]O sujeito deixa a porta aberta a dois problemas. Primeiro, resignando-se, ele antecipa o sofrimento e facilita por essa antecipação, o progresso da doença anunciada. Segundo, do lado da família, justaposta à resignação surge a compaixão que, sob sua face de virtude esconde o vício da acomodação indiferente, congelando a situação em um dueto dor-piedade.”



Em entrevista (por sinal, muito atacada pela maioria da classe médica) nas páginas amarelas da revista Veja em novembro de 2014, o cardiologista italiano, Marco Bobbio, autor da polêmica obra, “O Doente Imaginado”), discorre sobre a atual obsessão pela preservação da juventude a qualquer preço. No momento da entrevista em que foi inquirido sobre se fazia check-aps e se não tinha medo de um infarte, o especialista, em questão, deu essa bombástica resposta:


Não vejo vantagem em fazer um exame se me sinto muito bem. Tenho 63 anos e, certamente, minhas artérias não são as de um garoto de 20. Sei que posso ter uma lesão. Sei também que, seguramente, os exames e procedimentos médicos não vão me garantir uma sobrevivência serena. Prefiro viver sem saber. Em minha opinião, não faz sentido eu me sentir bem e ir ao médico para tentar saber quando vou estar mal.” [Vide entrevista na Íntegra]


Quanto à obsessão por tratamentos radicais para prevenir doenças que poderiam aparecer na idade provecta, estamos apenas engatinhando. Imaginem o que pode acontecer com a descoberta de remédios milagrosos num futuro próximo, com a ciência a desenvolver tratamentos personalizados interferindo no genoma humano, anulando, em consequência, a falha genética responsável pelo aparecimento de uma moléstia antes incurável?

Imagino que a celeuma pela cura antes de a doença aparecer será intensa. Mas, ao mesmo tempo penso que muitos velhos de 80 e 90 anos, em um mundo frívolo e altamente mecanizado, mais do que nunca, argumentarão que estão cansados de viver.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 12 de outubro de 2015


06 outubro 2015

Sem “Wi Fi” Não Dá






De há muito ele vinha observando o avanço tecnológico chegando a lugares nunca dantes navegados. O tal do “Wi-Fi” está sempre presente em locais onde há bastante gente com celulares, smartphones tablets e laptops. Agora, o Reverendo pensava com seus botões: Se esse espetacular recurso cibernético está em supermercados, em shoppings, livrarias, restaurantes, consultórios médicos e concessionárias de automóveis, por que não nas igrejas do Senhor?

Quando viu os professores chegarem a um estudo bíblico em sua igreja empurrando carrinhos de supermercados abarrotados de Bíblias, disse para si mesmo: chegou o momento de estabelecer o Wi-Fi em minha igreja. É para já ― pensou de forma altaneira.

Nessa noite não houve estudo. O Pastor mandou todos voltarem com seus carrinhos cheios de bíblias. Um dos irmãos disse que estava transportando cerca de 90 quilos de “Escrituras Sagradas”. É que iríam realizar um mega-estudo sobre as discordâncias nas inúmeras traduções de Bíblias do Mercado Gospel, pois estava havendo uma confusão danada entre as mais de duas mil denominações evangélicas existentes no Brasil, que na dúvida, confabulavam: Será que essa contém a mais verdadeira tradução? Depois, ao lerem outras de interpretação diferente da sua, achavam que deviam mudar. E era aquela celeuma sem fim de traduções bíblicas conflitantes a deixar todo mundo com  o "pé atrás". Havia a Bíblia de Dake, a de Thompson, a de Scofield, a de Jerusalém, a bíblia de Estudo Pentecostal, bíblia de Estudo NVI, bíblia da Mulher, bíblia na Linguagem de Hoje, bíblia de Estudo de Genebra, etc. Para a descrição não ficar tão cansativa, o(a) leitor(a) quer quiser saber mais sobre os tipos de bíblia, basta clicar aqui.

Não foi tão difícil chegar a um acordo sobre a senha do Wi-Fi que seria usada na igreja. A senha seria “DeuséGrande54321”. O reverendo trouxe um texto científico de um renomado instituto de Neuro-Teologia dos EUA, que dizia ter o homem moderno apenas um Giga de memória em seu cérebro, e que os computadores modernos chegavam a ter até 8 gigabytes de potência, ou seja, 800 mais espaço de memória que o do humano. Um fiel que tinha trazido 90 quilos de bíblias em seu carrinho de supermercado ficou de olhos arregalados, quando o reverendo lhe explicou que o conteúdo de todos os livros sagrados em seu poder, bastaria meio megabite de potência de um tablet, para guardá-los todos em sua memória. Ficou deveras contente quando soube que, no site de Busca do Google, só de tipos de orações, existiam mais de vinte mil.

E não é que no Google, existe até uma versão do mais conhecido trecho da bíblia O Salmo 23, bem ao modo da Era Digital [Vide Link: O Google é Meu Pastor”]

O sábio reverendo ao ver, enfim, que a busca da felicidade, em virtude da natureza humana, era baseada no modo TER de existência, passou a aconselhar seus fiéis a não importunarem Deus com coisas que os sites de busca já dão prontinhos a um sutil clique. Ficaria para apelação divina o que não se conseguisse através do Google. Passou a ser obrigatório o uso dos aparelhos digitais pelas crianças no aprendizado nas escolas bíblicas, em pesquisas de assuntos que diziam respeito mais ao fantasioso e religioso mundo infanto-juvenil.

A sua igreja cresceu assustadoramente. Ao ver o ar alegre estampado no rosto e olhos cintilantes dos que ali estavam reunidos em torno da telinha a tomar conhecimento das últimas novidades e milagres da era digital, quem ali chegasse, só poderia concluir que aquele povo tinha algo diferente para oferecer.

No culto das noites de domingo, em que era permitido mandar mensagens, vídeos e fotos para grupos do WhatsApp, numerosos paus de selfies com smartphones em uma de suas extremidades pareciam dançar sobre as cabeças dos fiéis, como se fossem arcos de violinos de uma invisível orquestra sinfônica em ação. Mensagens seguidas de fotos choviam, tais como: “Olha eu aqui a cantar!”, olha eu aqui a tocar!”, “Viu o meu vestido novo?” “Como acha que me saí?”

De início, os opositores do Wi Fi em igrejas reagiram de forma dura, digamos até violenta. Depois, foram se acostumando pouco a pouco com as “maravilhas” do evangelho digital dentro dos templos.

Tempos depois, apareceu um enorme cartaz bem na entrada do templo do reverendo inovador:
A Operadora informa que quem for pego roubando sinal de Wi Fi da Igreja será multado. A reincidência na prática desse vil pecado terá como consequência o alijamento do infrator do rol de membros da 'sancta ecclésia'.”


Por Levi B. Santos
Guarabira, 06 de outubro de 2015

Link da Imagem: blogspot.com.br/2015/02/10-maneiras-de-se-tirar-uma-selfie-para.html

27 setembro 2015

Sobre Projetos Geo Políticos em Nome dos Deuses


Mapa do Retalhamento Étnico na Síria


Em seu “Tratado Teológico Político”, Espinosa (1632 1677), já fazia ver que “os direitos subjetivos dos deuses nada mais eram que a soma dos direitos subjetivos dos indivíduos. Espinosa entendia que as guerras não eram dos deuses, elas decorriam da fértil imaginação humana que as percebiam como ordens divinas. Esse filósofo via que a religião e a política eram mantidas por um elemento comum aos dois lados a paixão. Ambas se alimentam do mesmo veneno.

E aí, é onde tudo se complica, “até porque a paixão não pode ser contrariada ou suprimida, a não ser por uma paixão contrária e mais forte que a paixão a contrariar”. Em suma, todo projeto teológico é um projeto político. Quem não se lembra da emblemática frase dita pelo deus de George Bush, por ocasião dos atentados contras as Torres Gêmeas nos EUA, em setembro de 2001?: "É a luta do Bem contra o Mal" - disparou o presidente da nação americana. Por sua vez, os Aiatolás não ficaram atrás, e afirmaram de imediato que os EUA seriam o "Grande Satã".

E nesse teatro do Bem contra o Mal, dizia Eduardo Galeano, é sempre o povo quem conta os mortos.

Moisés, o grande líder político dos hebreus, regido pela ideia central de formar um poderoso Estado, percebeu o Divino a tomar-lhe os sentidos, vaticinando para si e para os seus uma terra que manava leite e mel. Os habitantes dessa terra fértil que eles sonhavam possuir levaram a pior por possuir um deus mais fraco. Só que os vencedores esqueceram de um detalhe importantíssimo: por trás de cada triunfo se esconde uma efêmera segurança, uma vez que o vencedor de hoje pode ser o derrotado de amanhã.

Vejam a que ponto chegou, atualmente, o projeto teológico-político engendrado em nome do “Deus ocidental”, visando uma impraticável
pacificação entre as várias correntes étnicas que na Síria, há quatro anos, não param de se digladiarem mutuamente. Cada grupo vê um imaginário deus a decretar a aniquilação dos adeptos de outros deuses. Os seguidores desses deuses sanguinários, antigamente, usavam espadas e lanças para destruir o outro. Hoje eles movimentam trilhões nas indústrias de fabricação de poderosíssimas armas. Até crianças de pouco mais de doze anos são bem-vindas a esse reino, tornando-se lançadores de granadas, de mísseis e exímios no uso de superpotentes metralhadoras.

Diante de toda a insanidade política em nome de Deus, não poderia deixar de, aqui, replicar um significativo trecho do Tratado Teológico Político de Espinosa, que apesar de ter sido escrito há quase 400 anos, continua mais atual do que nunca . Ele já antevia a Sagrada Escritura, como meio de desaguar as desenfreadas paixões humanas para projetos políticos em nome do sagrado, como bem atesta o trecho abaixo:

Ora, assim como a Escritura costuma descrever Deus à semelhança do homem e, dada a ignorância do vulgo, atribuir-lhe mente, vontade, paixões, até mesmo um corpo e um hálito, assim também utiliza muitas vezes espírito de Deus por mente, quer dizer por ânimo, paixão e força”. (Tratado Teológico Político – página 27 – Martins Fontes Editora)

Enquanto escrevo esse pequeno artigo, recebo a notícia de que as máximas autoridades políticas francesas (é claro, em nome do deus cristão) decidiram, neste domingo (dia 27) realizar uma série de ataques aéreos contra alvos do Estado Islâmico (E.I) na Síria. (Vide Link)

Para quem ainda não sabe, a organização E.I. foi fomentada pelos EUA, que treinaram e forneceram armamentos modernos a esses guerrilheiros fanáticos numa tentativa de derrubar o presidente, Bashar Al Assad da Síria.

Pelo visto, a barafunda em nome dos deuses de lá e de cá, complicada agora com a imensa leva de refugiados pedindo socorro aos “cristãos” do mundo ocidental, está longe de ser resolvida.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 27 de setembro de 2015


13 setembro 2015

Política Equivocada Produz Êxodo Gigantesco


Centenas de refugiados são barrados em estação ferroviária na Hungria



Há cerca de cinco anos, a chanceler alemã, Ângela Merkel, fazia um duro discurso em seu país, quando se discutia sobre os imigrantes muçulmanos que não estavam se adaptando à sociedade germânica. A sua fala, como um tufão violento, varreu o mundo. Disse ela, naquela ocasião: A tentativa da Alemanha de criar uma sociedade multicultural fracassou!”. Talvez, a afirmação da primeira mandatária tenha sido para agradar ao partido democrata cristão (CDU) que, em momento crítico, exercia intensa pressão por uma posição mais dura contra os imigrantes.

Da União Europeia, especialmente os Alemães já vinham demonstrando insatisfação com a não assimilação dos imigrantes aos ditames da cultura alemã. Tanto é, que solicitaram das autoridades que “delineassem políticas severas de combate à tentativa de matar a cultura alemã. […] No país que foi palco de umas das maiores demonstrações de desrespeito às culturas diferentes (aqui falamos do Holocausto), as declarações da primeira ministra soaram como xenófobas” (vide link)

Naquela época (agosto de 2010), o renomado economista alemão, Thilo Sarrazim, ministro das finanças de Berlim, já redigia artigos detalhando as consequências da Islamização da Alemanha e do resto da Europa. (Vide Link)

O atual presidente da Hungria (porta de entrada dos imigrantes), Viktor Orbán, disse recentemente: “O que está em jogo é a Europa, o estilo de vida dos cidadãos europeus, valores europeus, a sobrevivência ou desaparecimento das nações européias e, mais precisamente, sua transformação a ponto de não a reconhecermos. Hoje, a questão não é meramente em que espécie de Europa nós gostaríamos de viver e sim tudo o que entendemos como Europa irá sequer existir”. (Vide Link)

Setores da imprensa mundial acham que a Europa está colhendo o que plantou. A RBA (Rede Brasil Atual) em um artigo publicado em seu site há oito dias, de modo sucinto, explica por que a Europa, de certa forma é responsável pela maior crise humanitária que se abate sobre o mundo:

Não tivessem ajudado a invadir, destruir, vilipendiar, países como o Iraque, a Líbia e a Síria; não tivessem equipado com armas e veículos, por meio de suas agências de espionagem, os terroristas que deram origem ao Estado Islâmico, para que estes combatessem Kadafi e Bashar Al Assad, não tivessem ajudado a criar o gigantesco engodo da Primavera Árabe, prometendo paz, liberdade e prosperidade, a quem depois só se deu fome, destruição e guerra, estupros, doenças e morte nas areias do deserto, entre as pedras das montanhas, no profundo e escuro túmulo das águas do Mediterrâneo, a Europa não estaria, agora, às voltas com a maior crise humanitária deste século, só comparável, na história recente, aos grandes deslocamentos humanos que ocorreram na Segunda Guerra Mundial.
Depois que os imigrantes forem distribuídos, e se incrustarem em guetos , ou forem – ao menos parte deles – integrados em longo e doloroso processo, que deverá durar décadas, aos países que os acolheram, a Europa nunca mais será a mesma.” (Vide Link)

Quem diria que Ângela Merkel, depois de ter há cinco anos vaticinado o fim do multiculturalismo, hoje, nadando contra a maré de medo que abala grande parte da Europa(que já está sendo chamada de Eurábia) estaria com toda a garra defendendo a integração dos refugiados do mundo islâmico em seus domínios? Em que pese o protesto da direita alemã, ela não titubeou ao afirmar que a grande massa de imigrantes mudará o país.
Os Sírios, já apelidaram a mandatária alemã de “mamãe Merkel”. Por ora, os refugiados, em solo alemão, inundam as redes sociais com mensagens de amor à chanceler. Só não sei o que acontecerá depois da euforia inicial. (Vide Link)



Por Levi B. Santos
Guarabira, 13 de setembro de 2015


Site da Imagem: cartacapital.com.br



07 setembro 2015

Como Portugal e Brasil Desfazem Certos Laços





Chovesse ou fizesse sol, por essas horas em que escrevo este “patriótico” texto, as ruas no meu tempo de estudante do primeiro grau, estavam tomadas por multidões de alunos garbosamente vestidos, desfilando com ardor, enaltecendo o corte supostamente “definitivo” dos laços do Brasil com Portugal.

São dez horas da manhã de 7 de setembro de 2015. As ruas de minha cidade estão completamente desertas. As multidões que no dia dedicado à festividade maior da Pátria superlotavam as calçadas do centro da cidade, sabiamente, trocaram as patriotadas sem sentido, pelo prazeroso descanso nas areias das praias e nas fazendas.

Por ironia do destino, cá estou com a revista semanal de maior circulação na pátria mãe gentil, a ler uma reportagem sobre a atual situação política e moral de Portugal. Por incrível que pareça, a pátria do escritor José Saramago (prêmio Nobel de literatura) que nos colonizou, hoje, está bem a nossa frente, no que tange à velocidade de investigação da Justiça sobre a corrupção nas altas esferas do Poder. Pelo que foi noticiado na imprensa, “o primeiro ministro e ex-chefe do governo Português, José Sócrates, encontra-se encarcerado desde Novembro do ano passado”.

Material farto colhido dos escaninhos de nossa história descrevem o grito da independência do Brasil dado por D. Pedro I como uma farsa mal ensaiada nos idos de setembro de 1822. Longe da farsa de quase duzentos atrás, o que se sabe é que Portugal e não o Brasil, hoje, é quem corre mais célere no corte dos laços que uniam a corrupção de lá à nossa.

O professor Paulo Morais, membro da Transparência Internacional, afirma que os laços de Portugal com o Brasil e Angola nunca estiveram tão fortemente ligados: as maiores empresas da ex-colônia investigadas pela operação Lava Jato são as mesmas que estavam envolvidas nos escândalos em Portugal e na África.

O certo é que as autoridades portuguesas, através da “Operação Marquês”, vêm dando uma aula à ex-colonia portuguesa da América do Sul de como se amputa o mal sem crise institucional. Lá, não se ficou a patinar para frente e para trás, sem chegar ao Topo da Organização. Pelas terras que já foram do português Dom João VI, por enquanto, tudo caminha a passo de tartaruga, em nome da tal governabilidade, que para alguns tem outro nome.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 07 de setembro de 2015


02 setembro 2015

O Teólogo e o Analista ― Ou “No Início era O Desejo”







Ao abordar o tema dos Desejos Humanos, o Teólogo e o Analista constroem, enfim, uma ponte sobre o vazio instalado entre a Psicologia e a Teologia. Agora, sempre que tiram férias na mesma época do ano, reservam alguns dias para atualizar suas conversações. Como filhos de pais religiosos fundamentalistas, beberam da mesma fonte, da mesma tradição. Jamais seus pais e avós poderiam admitir uma aproximação entre a Teologia e a Psicanálise. Seus preceptores consideravam que o diálogo entre essas duas instâncias era coisa do Diabo. Acreditavam que o psiquiatra ou analista da alma ao sondar as profundezas do devoto, estava lhe roubando o que denominavam Pai que está nos céus”.

Nesse encontro, o Analista e o Teólogo debruçam-se sobre o tema “Desejos”. Tomados por um reencantamento, se religam e fazem uma releitura para além da fixidez pétrea e literal dos signos bíblicos que o fundamentalismo religioso tanto prega e defende.

Teólogo:

Você, em suas argumentações, sempre reforça que a função do Analista se concentra na ausculta da pessoa, não no sentido de atender todos seus desejos, mas para esclarecê-los, deslocá-los do contexto da narrativa ouvida. Gostaria de saber mais sobre sua Ciência e sua relação com os desejos humanos.

Analista:

Primeiramente quero salientar que o campo de batalha em que trabalhamos é o mesmo da Teologia: a alma humana com suas idiossincrasias. Ou seja, por caminhos diferentes mas não excludentes, tratamos da incompletude do Desejo humano. Temos em comum o fato de ter por objeto a palavra trocada entre dois indivíduos.

Teólogo:

Entendo, entendo: trabalhamos com o mesmo material a palavra, o verbo. Em meus sermões adoro abordar o prólogo do evangelho de João. Vejo que ele diz muito da experiência advinda da mão dupla da palavra. Não sei se este prólogo tem alguma coisa a ver com a relação entre o analista e o analisando.

Analista:

Sobre o fenomenal prólogo grego a que você frisou, eu diria que, primeiro, veio o desejo para depois surgir a palavra. O “Verbo” do prólogo joanino alude ao desejo que, na análise psíquica moderna, Lacan conceituou “Desejo do Grande-Outro”. Desejo que nos fundou lá no início do nosso desenvolvimento e continua a agir nos encontros nossos de cada dia.

Teólogo:

Deixa eu refletir com os meus botões. Quer dizer que na sua concepção o prólogo ficaria assim: “No princípio era o Desejo, e o Desejo estava com Deus, e o Desejo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. […] E o Desejo se fez carne e habitou entre nós”. É, o desejo como centro de tudo, faz sentido. Como você explicaria a dinâmica do Desejo na figura de Cristo retratada nos evangelhos, uma vez que Ele como Filho, abdica de seu próprio desejo para se submeter ao desejo do Pai?

Analista:

De certa forma, o filho é objeto do desejo dos Pais. Ou seja, o filho é moldado e programado pelos seus pais, antes de tomar qualquer iniciativa como ser vivente. Antes de ter desejos, o filho, ainda em vida intrauterina, já é objeto de preocupação dos pais. Enfim, são eles que dão nome aos filhos para chamá-los de “seu”. A submissão ao desejo de um pai-poderoso que nomeia seus rebentos constitui a tônica nos processos iniciais do desenvolvimento humano. Esse Arquétipo Patriarcal (Deus da religião, o “Grande Outro” de Lacan, o Pai da Horda de Freud, o Numinoso e Transcendente de Jung), em nível inconsciente, nunca deixará de emitir suas ressonâncias na idade adulta do indivíduo. As entrelinhas da narrativa dos Evangelhos mostram um Messias, em seus últimos momentos, irremediavelmente separado do Pai. Pai que interdita o desejo da completude impossível presente no Filho. Mesmo no tormento de sua carne a caminho do Gólgota, esse Filho aspirava reencontrar em glória o corpo do Pai-Simbólico.

Teólogo:

Pelo que acabo de ouvir de sua parte, o signo “Pai-Poderoso” de que trata a religião, sob uma nova roupagem, aparece também em seu trabalho de ausculta do outro. Não é isso?

Analista:

É evidente que Ele aparece sob a forma de um arquétipo na realidade psíquica de meus pacientes!. Na minha opinião, o cristianismo é a religião que mais acentua o impacto da função paterna sobre o ser humano. A primeira identificação do filho é com o pai. Como o pai tem sua face amorosa e sua face aterrorizante, o filho vai herdar a ambivalência paterna (amor e ódio). Na verdade quando o filho se revolta, não é contra o pai, é sim contra sua face autoritária, que o infunde medo. Em suma, o que o filho quer, é não ser contrariado em seus anseios.

Teólogo:

Refletindo bem, não há como negar que o desejo do Filho (Cristo) na agonia da morte, não se coadunava com o desejo do Pai, a que você denomina de Arquétipo Patriarcal. Quer dizer, então, que Cristo abdicou de seu desejo, por um Desejo imperativo que jorrava de uma instância que vocês denominam, Psique, que tem para nós o significado de sede da alma?

Analista:

Desejos e contra-desejos são polos que fundamentam a ambivalência humana. Quanto a esse fenômeno, Cristo não foi diferente de nós. A Religião e suas có-irmãs, Filosofia e a Psicologia falam dos atributos da alma, cada instância com o seu modo peculiar de percepção. A alma vem de ânimus, que no latim e em todas as línguas que dela derivam tem o mesmo significado: “Aquilo que anima”. E o que anima o homem, por acaso, não é o desejo?

Teólogo:

Essa sua fala foi a senha para trazer à minha mente uma frase de Publius Ovídius Naso (43 a C.): “Teu destino é mortal mas não é mortal o que desejas”. Achei esta metáfora bem de acordo com a sua versão do prólogo atribuído ao apóstolo João: àquilo que nunca morre no sujeito é o “desejo que se faz carne para habitar entre nós”

Analista:

Em um de seus seminários, Jacques Lacan, que fez a releitura das obras de Freud, toma emprestado da religião a expressão O Nome do Pai para, diferentemente de Freud, sondar os conceitos teológicos da religião cristã aproximando-os do campo psicanalítico. Na figura paterna, que tem o poder de nomear, reside a força da Lei. É esta força que impede o sujeito de morrer de uma overdose de desejos. É permitido a ele apenas sonhar com o “desejo de ser completo”. Só o Desejo, que no início fundou a criatura humana, pode dizer: “Eu sou o que sou!”.

Teólogo:

Um desejo que fundou a criatura humana...”, aparentemente parece não fazer sentido. Gostaria de ouvir mais sobre esse desejo que não vem de nós.

Analista:

Toda a criatura é atravessada por um desejo materializado no corpo humano, e intermediado pela palavra. A Psicanálise corrobora com a essência do prólogo grego de João, na medida em que admite a existência de um desejo se sobrepondo à nossa vontade. Um desejo que se fez gerado em nossa carne mesmo antes de termos consciência.

Teólogo:

Se há um desejo paterno que nos condiciona, não podemos dizer que somos livres. Seria o caso de concluir que o ser humano está sempre vivenciando uma forma de escravidão?

Analista:

Liberdade no sentido absoluto do termo é uma ilusão. Quando meus analisandos, no calor das descobertas sobre si mesmo, dizem “eu tomei a livre decisão sobre determinado problema”, eu os levo a reflexão, fazendo a seguinte objeção: “Quando acreditamos que tomamos decisões livres, algo nos aconteceu que as orientou antes de agirmos”.

Teólogo:

A sua fala, dessa vez, fez evocar em mim uma expressão que sempre ouvia nos acalorados debates sobre a liberdade do homem, quando fazia Teologia. Acho que era “Servo-arbítrio”, uma obra de Lutero datada de 1525, onde refutava violentamente o livro “Sobre o Livre-Arbítrio”, de Erasmo de Roterdam. Discutia-se muito se somos “senhores do desejo” ou “servos do desejo”.

Analista:

E aí, a Dialética entre “o Senhor e o Escravo” de Hegel, levado para o campo das metáforas, interessa tanto a psicanálise quanto à Teologia, e cairia bem como tema de nosso próximo encontro.

Teólogo:

Ótimo! Sem dúvida, será um bom tema para nossas próximas férias.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 02 de setembro de 2015

Site da Imagem: apsicologiaonline.com.br

15 agosto 2015

De Que Rimos nas Piadas?



A História conta que no papiro de Leiden (século III) foi encontrada a inscrição: O Universo nasceu de uma enorme gargalhada”. Mas, quatro séculos antes de Cristo, os sábios gregos já tinham o riso como centro de suas atenções. Aqueles que não fazem brincadeiras e não suportam os que as fazem são, tudo indica, rústicos e rabugentos” diziam eles. É do filósofo Aristóteles (322 a.C) a célebre frase,“O Homem é o único animal que ri” [História do Riso e do Escárnio de Georges Minois]

O certo é que foram os gregos (e não podia ser outro povo) que acabaram por transferir seus sentimentos e afetos para o âmbito do sagrado. O brincar com as palavras adquiriu uma aura divina, e pôs Deus como o autor do primeiro riso. Daí então ele se tornou inextinguível. Existe até um prólogo helenizado do Gêneses bíblico:

Tendo Deus rido, nasceram os sete deuses que governam o mundo… Quando Ele gargalhou fez-se a luz… Ele gargalhou pela segunda vez: tudo era água. Na terceira gargalhada, apareceu Hermes; na quarta, a geração; na quinta, o destino; na sexta, o tempo. Depois, pouco antes do sétimo riso, Deus inspira profundamente, mas Ele ri tanto que chora, e de suas lágrima nascem a alma”. [ História do Riso e do Escárnio Georges Minois ]

Mas deixando de lado o campo mitológico-poético, afinal, de que rimos nas piadas?

Freud, que se debruçou intensamente sobre esse tema, no seu livro “Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente”, definiu os humoristas como “aqueles que captam a fragilidade do homem, seus conflitos, sua finitude, sua dor e seu sofrimento, cravam as unhas no mal-estar, desviam do interdito e dali saem com um dito espirituoso que os faz rir de si mesmos, ou do outro e faz o outro rir. São eles que revelam nossas contradições, nossas falhas, nossas imperfeições. Através do humor, todo poder constituído é gozado, as teorias perdem sua pomposidade, as religiões, as ideologias mostram sua face frágil e nua”.

O velho e mundialmente conhecido ditado, “Rir é o melhor remédio”, por si só, já resume bem o efeito terapêutico proporcionado pelo riso. Quando o sujeito rir realiza uma catarse. Na piada, o álibi carrega uma verdade do sujeito que, de outra forma, não viria à tona. Fica aí claro que, quem conta a piada pesca no ouvinte algo já existente em seu próprio subconsciente.

Por ofender nossos valores morais, políticos e religiosos a anedota , é considerada politicamente incorreta. O psicanalista Renato Mezan, em seu livro, Estudos de História da Psicanálise, diz que rimos até de nossa própria mãe. Para evidenciar esse fato, o autor supra-citado narra a seguinte piada:

O vovô propõe que, antes de comer, todos façam uma oração. “Eu não vou fazer oração nenhuma”, diz o Jacozinho. A mãe o repreende: “Mas como? Na nossa casa, sempre rezamos antes das refeições. Por que não na casa da vovó?”. E o menino: “Por que ela sabe cozinhar!”.

Rimos ao nos identificar com o Jacozinho, sinal de que, lá no fundo, alguma queixa ou reclamação temos contra a nossa mãe. “Na identificação acolhemos um pensamento que, sem o admitir, já abrigávamos em nossa mente e o riso manifesta o alívio por poder fazer isso sem culpa”.

Da grande coleção de anedotas judaicas tiradas da história da psicanálise, Renato Mezan nos brinda ainda com uma primorosa, onde o um dos dogmas centrais do cristianismo é posto em cheque de modo engenhosamente provocante. Por ser uma piada globalizante, talvez, quem sabe, dela rirá tanto o ateu, quanto o judeu, o cristão e o pagão:

Dizem que um cidadão levou toda a família para conhecer Jerusalém: Esposa, filhos, a babá e a sogra. No segundo dia da visita, a senhora tem um mal súbito, e parte desta para melhor. Muito embaraçado, o homem vai até uma agência funerária, onde o encarregado lhe diz que tem duas opções: enterrar a falecida lá mesmo, o que custaria 5 mil dólares, ou repatriar o corpo, o que sairia por 25 mil dólares. Depois de pensar um pouco, ele escolhe a segunda opção. Um tanto espantado o funcionário pergunta por que o cliente prefere gastar cinco vezes mais para resolver o seu problema. Resposta: “porque aqui já houve um caso de ressurreição”.

A piada é transgressora na medida que toca o pólo “negativo” de nossa ambivalência que normalmente relutamos para que não apareça perante os outros. Ela evidencia, acima de tudo, o nosso lado “anti”. Damos gargalhadas de nós mesmos, ou seja, rimos do nosso lado anti-católico, antipuritano, anti-nobre, antissocial, anti-deísta, antidemocrático, etc, exposto de forma desconcertante pelo humorista em seus “fictícios” personagens. Poderíamos até dizer que a piada expõe o nosso próprio pré-conceito inconscientemente internalizado. Rimos até do ridículo humano, tão humanamente exposto em situações constrangedoras. O gracejo tem o poder de suspender a nossa inibição sobre determinados aspectos ocultos em nossa personalidade, deixando-nos livres para rir do ridículo que há em nós. Quando o hilário, que socialmente nos é negado, aparece no outro (personagem central do gracejo), somos levados à irresistíveis risadas. Em suma, rimos de uma piada porque ela viola o que culturalmente foi instituído como um “bem moral”. Quando a piada é entendida a inibição que pesa sobre determinadas ideias passa a ser supérflua o inconsciente se torna consciente” (Renato Mezan)

Piadas ofensivas e ditos jocosos envolvendo autoridades políticas que perderam sua credibilidade são compartilhadas entre amigos nas redes sociais com o intuito de provocar riso. É no mundo virtual que a união das gargalhadas de muitos dos internautas se tornam uma demonstração de força. O meio cibernético favorece a disseminação de todo tipo de piada. Sem o temor de ser retaliado, o indivíduo nesse ambiente, experimenta e até abusa do prazer de trucidar o adversário através do riso.

O riso também tem seus insondáveis mistérios. Conta-se que certo pregador, após cumprir o dever religioso, notou que a plateia permanecia silenciosa e triste. Como era um dia de domingo, onde cairiam bem a folga e o riso, dirigiu-se aos fiéis de forma espirituosa:

Desperte o dom de fazer rir que há em você. Olhe para seu irmão aí do seu lado e conte-lhe uma piada bem engraçada!”

Não demorou muito para o poder do riso tomar a todos. E riram-se deles mesmos, como nunca antes haviam rido.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 15 de agosto de 2015

Site da Imagem: fabriciapsi.blogspot.com.br

08 agosto 2015

O Software dos Afetos





O software é um programa micro-eletrônico destinado a armazenar uma sequência de instruções escritas, a fim de que tarefas específicas possam ser interpretadas e executadas pelo computador. Acho que poderíamos transportar o conceito desse elemento do mundo cibernético para a vida instintiva do indivíduo (com seus impulsos e afetos). Não é à toa que, pela sua complexidade operacional, comumente se compara o computador ao cérebro humano.

Sendo assim, os dois primeiros softwares humanos corresponderiam ou conteriam as primeiras experiências do bebê: a de gratificação que embute o prazer e a de frustração, representada pelo desprazer. Esses dois softwares centrais, com o tempo se conectariam a softwares secundários, como o da submissão, da inveja, do ciúme, da agressividade contra o intruso, do afeto de afeição e apego. Diríamos que o software dos afetos, que agem a partir do primeiro vagir do bebê, continua a reverberar indefinidamente, toda vez que o adulto se confronta com situações análogas às vivenciadas nos seus primeiros anos de vida.

Recordar, repetir e elaborar” constituiriam a base do mecanismo consciente/inconsciente da psique, diria Freud em “Além do Princípio do Prazer”. Ou seja, as reações instintivas com sua gama de afetos ambivalentes repercutidas no adulto, no fundo, são repetições de cenas que vivenciou em sua tenra infância. A psicanálise faz ver que o modo de inserção do adulto na vida social, está repleta de ecos vindo lá de trás, implantados ou inscritos em softwares do intricado campo mental. Às vezes, tal qual um computador com alguns arquivos travados, conservamos certos gestos ou um tipo de conduta, sem saber que nesses atos compulsivos exibimos um ordenamento previamente programado.

O software responsável pelo sentimento da criança que, para evitar o desprazer de não ter um brinquedo igual ao do seu amiguinho, toma-o e o destrói, é o mesmo que age na vida adulta. Como muito bem definiu, Zuenir Ventura, em seu livro “Mal Secreto”: “A inveja é não querer que o outro tenha”.

Como tudo na vida é repetição, o sentimento de inveja, no adulto, não passa de uma reprise da primeira inveja vivenciada. É para evitar o doloroso desprazer de ver nossos recalques sendo expostos, que reprovamos no outro (o invejoso) o sentimento de inveja que experimentamos primariamente na infância. Dizem os filósofos que, dos sete pecados capitais, só a inveja se esconde. O escritor, dramaturgo e torcedor fanático do Fluminense do Rio de Janeiro, Nelson Rodrigues, já dizia: “há coisas que o sujeito não confessa nem ao padre, nem ao psicanalista, nem ao médium depois de morto. Uma delas certamente é a inveja”.

Donald W. Winnicott, pediatra inglês, cuidou de crianças adolescentes traumatizadas na época da segunda guerra mundial e, para melhor compreender o seu drama interessou-se pela psicanálise. Ele, por fim, entendeu que a vida social e afetiva do adulto dependia muito da criança que um dia existiu.

Françoise Dolto, psicanalista francesa que dedicou toda sua vida a cuidar de crianças que perderam os pais na segunda guerra mundial, assim se referiu, ressaltando o sofrimento nascido das separações primeiras, dos primeiros sentimentos de frustração e desamparo experenciados por meninos e meninas de seu tempo:

Esses momentos de graça do fenômeno humano que somos para nós mesmos , todos nós conhecemos desde a infância. […] Cada um de nós, quando estreitado pelo sentimento de não ser compreendido, de ter um sentimento impossível de comunicar; sentimento doloroso que faz o corpo estar mal em meio aos outros, em família, em sociedade, num grupo, na multidão, cada um de nós sente a solidão amarga que traduzimos por tédio, angústia, tristeza e melancolia”.

Tanto na criança já grandinha de seis anos de idade quanto no adulto, o software do prazer bebe de uma mesma fonte. O “princípio da realidade”, no entanto, vem sempre se opondo ao “princípio do prazer”, para que não se morra de uma overdose de gozo, como mostra o pequeno excerto abaixo reproduzido.

Um menino de seis anos de idade, ao observar seu irmão mamando no peito da mãe, fala: “Mamãe, eu também quero mamar!”. A mãe responde: “Mas você já mamou...”. E ele exclama: “Mas eu não sabia!”. O menino almeja retornar ao gozo que ele supõe que teve, agora, sabendo… Como se diria, sabendo das coisas… Essa fantasia (ressonância emitida pelo software dos afetos – grifo meu) parece ser a mesma que se revela no dito coloquial dos adultos: “Eu era feliz e não sabia!” [Trecho do livro – “Lacan, o grande freudiano” – de Marco Antonio Coutinho]

O software que agia na primeira fase da existência do indivíduo é o mesmo que ainda hoje ressoa no peito do adulto. Por isso é que se convencionou (e com razão sobrada) que o passado tem muito a dizer ao presente. Às vezes, enxergamos viajando conosco a criança astuta, chorona e rebelde de tempos atrás. Por que não dizer que há momentos em que somos surpreendidos repetindo gestos, cacoetes e atitudes apreendidas e aparentemente perdidas nas brumas do tempo ou encaixotadas em um porão obscuro da mente?



P.S.:

Ao falar em “porão obscuro” e sobre a influência de fatos do passado de criança sobre o nosso cotidiano de adulto, lembrei-me de uns versos que fiz e postei aqui nesse recanto em junho de 2012. O(a) leitor(a) que desejar conferir é só clicar aqui no título Porão Esquecido.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 08 de agosto de 2015

Site da Imagem: techtudo.com.br/noticias

02 agosto 2015

Foi-se a Utopia: “Tudo é Permitido na República”




Cuidemos de tornar esta vida tolerável; ou, se for demais, que pelo menos sonhemos que assim é” sentenciou Louis-Sébastien Mercier, tomado pelo espírito utópico. Disse isso, em seu livro, “Memórias do ano 2440”, publicado no longínquo 1771.

Longe ainda de 2440 e, em pleno 2015, o que vemos e sentimos, na realidade, é o declínio acentuado dos impulsos utopistas do Homo Sapiens brasileiro, por um mundo mais digno e justo.

Aqui, nas terras de Dom João VI, navegamos em um mar de escândalos nunca vistos ou imaginados. Ninguém mais acredita num futuro promissor. E como se poderia acreditar, quando o que mais se pensa é na maneira mais esperta de manipular a barca do estado que se encontra à deriva?

A situação vexaminosa que estamos enfrentando nos últimos anos, trouxe-me à mente a peça “Ascensão e Queda de Mahagonny”, do famoso dramaturgo alemão, Bertolt Brecht (1898 ― 1956):

No primeiro ato da peça, o procurador Willy e seu subordinado encontram-se perdidos no meio de um vasto deserto. O caminhão em que viajavam à procura de ouro pifou ou emperrou, e não tinha como ir nem para frente, nem para trás. O procurador, então, é tomado por uma ideal, em tudo parecido com o que comumente se ver no submundo de nossa republiqueta. De uma forma muito usual entre nós, o personagem principal do enredo de Bertolt Brecht, dispara:

Bem, tive uma ideia: já que não podemos tocar para frente, vamos fundar uma cidade, e lhe dar o nome de Mahagony, que quer dizer ― cidade arapuca. Ela vai ser como a arapuca que se arma para os passarinhos. Em toda parte se dá duro e se trabalha, mas aqui se goza”.

Enquanto Mahagonny está a espera de um tufão, os grandes e inteligentes homens chegam a uma “sábia” decisão:

Nós não precisamos de furacão nem precisamos de tufão, porque todo o horror de seu poder, nós mesmos podemos fazer.
Não tenham vã esperança/Não há retorno mais/O dia traz bonança/ E logo a noite avança,/mas a manhã jamais.
Quando há algo que podes comprar com grana/ Pega então a grana/ Quando alguém passar com grana,/Dá-lhe uma paulada e toma a grana/ Isto é permitido.
No interesse da ordem/Em benefício do Estado,/Para o futuro da humanidade,/Pelo teu próprio conforto/ Tudo é permitido”.

Com o fim da guerra fria, na década de 1980, a utopia de um mundo melhor e justo, ainda dava ar de sua graça entre os de minha geração. Pensávamos que a gastança de bilhões em armas e bombas, se transportaria para a saúde, educação e para as necessidades comunitárias, como num passe de mágica.

Em nossa tenra e inocente imaginação pululavam heróis, messias e salvadores da pátria mãe gentil. Tempo em que não tínhamos ciência ou noção de que o herói e o vilão ― paradoxais e indissociáveis habitantes da alma humana ―, compunham o enredo fantasioso dos autores de livros de História, com suas máximas por nós consideradas sagradas. Não sabíamos que esses dois personagens internos, no decorrer do tempo, constantemente trocavam de papéis, sempre de acordo com suas temporais conveniências.

Foi-se o tempo da utopia edênica do homem monolítico, que expulsa de si toda a maldade para ser ilusoriamente, só bom. A inteligência manipulativa do Homo Sapiens da atualidade trabalha, incessantemente, para que seu lado vilão não apareça aos olhos dos outros. Uma vez no poder, modificam-se até as leis para que resplandeça perante a sociedade apenas a sua face de herói. 

Na Mahagonny de Bertolt Brecht, assim como nas altas esferas de Brasília (Centro dos três poderes republicanos), tudo é permitido no interesse da ordem e em benefício do Estado, desde que os anseios da plebe não entrem em rota de colisão com o próprio conforto dos legisladores e guardiões das leis. O “tudo é permitido” em nome da governabilidade, lá atrás, no começo da comédia republicana, tinha um outro nome ― “Encilhamento”. Esse termo usado no alvorecer de nossa fantasiosa república (por volta de 1890)correspondia a um desastroso programa econômico de endividamento que transformou o dinheiro da Fazenda em papel. No teatro republicano de hoje, esse nome quer dizer o mesmo que: “Pela governabilidade, tudo é permitido.”
 
Pouco antes das chamas tomarem conta de Mahagonny, um cortejo de manifestantes andando sem ordem, uns contra outros, portam cartazes com os seguintes dizeres:

Esta bela Mahagonny tem de tudo,/Enquanto vocês tiverem dinheiro./Tem o que se pretenda,/Pois tudo está à venda,/ E não há nada que não se possa comprar.”


P.S.:

Na ausência de princípios morais, o que aparece em seu lugar é o oportunismo dissimulado travestido de “boas ações”. Uma vez no poder, os indivíduos são tendenciosos a promover a autofagia, fragmentando-se em grupos rivais a serviço da própria agressividade adormecida.

Ao apagar a luz da Utopia, o Homem Sapiens da pós-modernidade mergulhou na escuridão de uma vida sem expectativa. Dessa forma, além de sombrio, frio e cruel, converteu-se definitivamente em um predador de si mesmo e dos outros. O seu “modus vivendi” está, agora, intimamente ligado ao uso e abuso do instinto humano mais primitivo e perverso  o instinto de destruição.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 02 de agosto de 2015


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